Capítulo 46 - A cozinha do ofício A Vagabunda · Capítulo 46 de 77
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Capítulo 46 - A cozinha do ofício

Capítulo 46 - A cozinha do ofício

— Bom dia, cara amiga.

Eu esperava por isso. Meu camarada ainda está ofendido.

— Não, escute, Brague, já chega. Esse gênero nobre-faubourg não lhe cai nada bem. Estamos aqui para conversar seriamente. Você me faz pensar em Dranem vestido de Rei Sol quando me chama de cara amiga.

Brague, rapidamente alegrado, empina-se.

— O gênero faubourg? Por que não? Eu passo Castellane quando quero. Você nunca me viu de fraque?

— Não.

— Eu também não. Diga, está escuro esse seu pequeno boudoir. Se fôssemos para seu quarto? Conversaríamos mais claro.

— Vamos para meu quarto.

Brague percebe imediatamente, sobre a lareira, uma fotografia de Max: Max em paletó novo, rígido, o preto dos cabelos preto demais, o branco dos olhos branco demais, oficial e um pouco risível, mas ainda assim muito belo.

Brague examina o retrato, enrolando seu cigarro.

— É seu amigo, decididamente, o tipo, hein?

— É... meu amigo, sim.

E sorrio gentilmente, com ar idiota.

— É chique, não há dúvida. A gente juraria alguém do governo. De que você está rindo?

— De nada. É essa ideia de que ele poderia ser do governo. Não combina muito com ele.

Brague acende o cigarro e me observa de canto de olho.

— Você o leva?

Dou de ombros.

— Não, claro. Não é possível. Como quer?

— Mas eu justamente não quero — exclama Brague, tranquilizado. — Isso é bom, minha pequena, sabe? Já vi turnês arruinadas porque madame não quer deixar monsieur, ou porque monsieur quer vigiar madame. São brigas, beijos, rompimentos, reconciliações em que ninguém consegue mais sair da cama, pernas moles em cena e olhos de soco. É a vida estragada, pronto. Dê-me uma bela viagem entre camaradas.

Ele sopra a fumaça, satisfeito por reencontrar seu terreno.

— Você me conhece, nunca variei nesse ponto: amor e ofício não combinam. E afinal, quarenta dias não são a eternidade. A gente se escreve, depois se reencontra, se cola de novo. Ele tem escritório, seu amigo?

— Escritório? Não, não tem escritório.

— Tem a fábrica de automóveis? Enfim, mexe com alguma coisa?

— Não.

— Não faz nada?

— Nada.

Brague faz ouvir um assobio que pode ser interpretado de pelo menos duas maneiras.

— Nada de nada?

— Nada.

— É espantoso.

— O que o espanta?

— Que se possa viver assim. Sem escritório. Sem fábrica. Sem ensaios. Sem cocheira de corridas. Isso não lhe parece estranho?

Olho-o de baixo, com ar constrangido e um pouco cúmplice.

— Sim.

Não posso responder outra coisa. A ociosidade do meu amigo, essa flanagem de colegial em férias perpétuas, é para mim frequente motivo de espanto, quase de escândalo.

— Eu morreria — declara Brague depois de um silêncio. — Questão de hábito.

— Sem dúvida.

— Agora — diz Brague, sentando-se —, falemos pouco e falemos bem. Você tem tudo de que precisa?

— Naturalmente. Meu figurino de Dríade, o novo, um sonho. Verde como uma pequena gafanhota, e não pesa quinhentos gramas. O outro foi remendado, rebordado, limpo; você juraria novo. Aguenta sessenta apresentações sem fraquejar.

Brague torce a boca.

— Hum. Você tem certeza? Podia ter se aberto para uma pele nova em A Posse.

— Claro. E você teria pago, não é? E sua calça de A Posse, em pele de gamo bordada, que tomou a cor de todos os palcos que a enceraram, eu a reprovo?

Meu camarada ergue uma mão dogmática.

— Perdão, perdão. Não confundamos. Minha calça é magnífica. Ganhou pátina, fusão. Tem ar de grés artístico. Seria crime substituí-la.

— Você não passa de um sovina — digo, dando de ombros.

— E você, de uma resmungona.

Ah, como faz bem nos atacarmos um pouco. Descansa. Estamos os dois apenas bastante picados para que a disputa se pareça com um ensaio quente.

— Rompam — grita Brague. — A questão dos figurinos está encerrada. Passemos à questão das bagagens.

— Como se eu precisasse de você para isso. É a primeira vez que viajamos juntos, talvez? Vai me ensinar a dobrar minhas camisas?

Brague deixa cair sobre mim, entre as pálpebras enrugadas pelas caretas profissionais, um olhar esmagador.

— Pobre criatura. Cérebro maneta e manco. Fale, fale, faça barulho, acorde seu besouro. Se vou ensinar? É provável que eu vá ensinar. Escute e tente entender: os excessos de bagagem ficam por nossa conta, não?

— Psiu.

Detenho-o com um sinal, comovida por ter ouvido na antessala dois discretos toques de campainha. É ele. E Brague ainda está aqui. Afinal, eles se conhecem.

— Entre, Max, entre. É Brague. Estamos falando da turnê. Isso o aborrece?

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