Capítulo 21 - O falso canto íntimo A Vagabunda · Capítulo 21 de 77
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Capítulo 21 - O falso canto íntimo

Capítulo 21 - O falso canto íntimo

— Que canto íntimo bonito. E como se compreende mal a sua existência no music-hall quando a vemos aqui, entre esta lâmpada rosa e este vaso de cravos.

Foi isso que ele disse ao partir, meu enamorado, na primeira vez em que veio jantar comigo, trazido por Hamond, o intermediário.

Porque agora tenho um enamorado. Não encontro outro nome para ele, senão esse, fora de moda e meio ridículo. Ele não é meu amante, nem meu flerte, nem meu passatempo. É meu enamorado.

Que canto íntimo bonito. Naquela noite, pelas costas dele, ri com amargura. Uma lâmpada velada, um vaso de cristal onde a água cintila, uma poltrona junto da mesa, o divã gasto disfarçado por uma desordem sábia de almofadas; e o visitante, deslumbrado e superficial, imagina entre paredes de verde apagado uma vida recolhida, pensativa, estudiosa, quase superior.

Ele não viu o tinteiro empoeirado, a pena seca, o livro ainda fechado sobre a caixa vazia de papel de carta. Não viu o velho ramo de azevinho se encolhendo à beira de um pote de grés, como se tivesse caído no fogo. Não reparou no vidro rachado de um pequeno pastel, esboço de Adolphe Taillandy, esperando em vão que eu o mande trocar.

Minha mão negligente prendeu e esqueceu um pedaço de papel em torno da lâmpada elétrica que clareia a lareira. Uma pilha de cartões-postais, cenas de A Presa, ainda fechados em faixas cinzentas, cobre, com risco de esmagá-lo, um marfim gravado que valeria mais do que toda essa falsa ordem.

Aquilo cheira a indiferença, abandono, para que serve?, quase partida. Íntimo? Que intimidade se fecha, à noite, em torno de uma lâmpada cujo abat-jour desbota?

Ri e suspirei de fadiga depois que meus dois convivas se foram. A noite foi longa, irritada por uma vergonha obscura nascida justamente da admiração do Grande Passarão. Sua fé ingênua de homem embalado iluminou-me, naquela noite, como certos espelhos inesperados, na curva de uma rua ou de uma escada, revelam de repente a flacidez de um rosto, a falha de uma silhueta, uma verdade que preferíamos atravessar sem ver.

Desde então, outras noites passaram, trazendo Hamond com meu enamorado, ou meu enamorado sem Hamond. Meu velho amigo exerce conscienciosamente aquilo que chama seu ofício sujo. Ora patrocina, com a brilhante facilidade de um antigo homem de espírito, as visitas de seu protegido, que sem ele, confesso com toda sinceridade, me cansaria muito depressa. Ora se apaga, mas não por muito tempo; faz-se esperar, mas só o suficiente; gasta comigo uma diplomacia de salão que começava a enferrujar.

Não me enfeito para eles. Não abandono a blusa de pregas nem a saia lisa e escura. Deixo diante deles meu rosto cair: boca cansada e fechada, olhar voluntariamente apagado. Oponho à obstinação de meu enamorado uma expressão passiva de moça que querem casar contra a vontade.

Cuido apenas, por mim mais que por eles, do cenário mentiroso e sumário onde vivo tão pouco. Blandine dignou-se visitar os cantos empoeirados do salão de trabalho, e as almofadas da poltrona, diante da mesa, guardam a marca do meu repouso.

Tenho um enamorado. Por que este, e não outro? Não sei. Olho, espantada, esse homem que conseguiu entrar em minha casa. Ele quis tanto. Todos os acasos o ajudaram, e Hamond abriu caminho. Um dia, sozinha, atendi a uma campainha tímida; como expulsar aquele indivíduo desajeitado, de braços cheios de rosas, ao lado de Hamond que me suplicava por ele com os olhos?

Ele entrou. Talvez tivesse mesmo de acontecer.

Aprendo seu rosto cada vez que volta, como se nunca o tivesse visto. Tem, de cada lado do nariz, uma dobra já marcada, que se perde sob o bigode. Tem lábios vermelhos, de um vermelho levemente escurecido, como acontece às pessoas muito morenas. Os cabelos, as sobrancelhas, os cílios, tudo nele é negro; e foi preciso um raio de sol franco para me ensinar, um dia, que sob tanto negro meu enamorado possui pupilas cinzentas e muito escuras.

De pé, é de fato um grande passarão, rígido, sem jeito, feito de ossos. Sentado, ou meio deitado no divã, amolece de repente e saboreia a graça de ser outro homem: preguiçoso, distendido, com movimentos felizes das mãos, a nuca abandonada contra as almofadas.

Quando sei que ele não me vê, observo-o, vagamente ofendida por pensar que não o conheço e que a presença desse rapaz em minha casa é tão insólita quanto um piano numa cozinha.

Como pode ele, apaixonado por mim, não se inquietar por me conhecer tão pouco? Visivelmente não pensa nisso. Parece ocupado apenas em me tranquilizar primeiro, conquistar-me depois. Aprendeu depressa, talvez por conselho de Hamond, a esconder o desejo, a adoçar o olhar e a voz quando me fala. Finge, astuto, esquecer que me cobiça. Mas também não mostra apetite de me descobrir, perguntar, adivinhar. Vejo-o mais atento ao jogo da luz sobre meus cabelos do que às minhas palavras.

Que coisa estranha. Ei-lo perto de mim, sentado; o mesmo raio de sol desliza sobre sua face e sobre a minha. Se a narina dele parece carmim, a minha deve tingir-se de coral vivo. Ele está aqui, e está a mil léguas. A todo momento quero levantar e dizer: por que o senhor está aqui? Vá embora. E não digo nada.

Pensa? Lê? Diverte-se? Trabalha? Creio que pertence à categoria numerosa e banal dos que se interessam por tudo e não fazem nada. Não tem espírito, mas tem certa rapidez de compreensão, vocabulário suficiente, uma voz bonita e cheia, e essa facilidade para o riso, para a alegria infantil, que se nota em tantos homens.

Para não mentir em nada, mencionemos o que mais me agrada nele: um olhar às vezes ausente, pesquisador, essa espécie de sorriso interior dos olhos que se vê nos sensitivos violentos e tímidos.

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