Capítulo 36 - O primeiro amor A Vagabunda · Capítulo 36 de 77
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Capítulo 36 - O primeiro amor

Capítulo 36 - O primeiro amor

Tão velho. Ele não sabe minha idade.

Partiu. Voltará amanhã. Não conseguia se desprender de mim, e eu tinha medo de fraquejar; repelia-o com os braços estendidos. Eu estava quente, e ele me farejava com arrebatamento, como se estivesse pronto a morder.

Enfim, partiu. Digo enfim porque agora poderei pensar nele, em nós.

O amor, disse ele. É amor? Eu gostaria de ter certeza. Eu o amo? Minha sensualidade me assustou; talvez não passe de uma crise, um transbordamento da minha força refreada por tanto tempo. Depois, quem sabe, eu perceberei que o amo.

Sim, eu o amo, sem dúvida. Se voltasse agora a bater na minha veneziana... Sim, certamente, eu o amo. Inclino-me comovida para a lembrança de certas entonações que ele teve hoje. O eco de seu pequeno rumor amoroso basta para me tirar o fôlego. E como ele era bom, forte, socorredor da minha solidão, quando pus a cabeça em seu ombro.

Mas sim, eu o amo. Quem me tornou tão medrosa? Eu não fazia tantas cerimônias quando...

Em que túmulo meu pensamento acaba de tropeçar imprudentemente? É tarde demais para fugir. Encontrei mais uma vez minha conselheira sem piedade, aquela que me fala do outro lado do espelho.

Você não fazia tantas cerimônias quando o amor, caindo sobre você, a encontrou tão louca e tão brava. Naquele dia, você não se perguntou se era amor. Não podia se enganar: era ele, o amor, o primeiro amor. Era ele, e nunca mais será ele.

Sua simplicidade de menina não hesitou em reconhecê-lo, nem lhe regateou o corpo ou o coração infantil. Era ele, que não se anuncia, que não se escolhe, que não se discute. E nunca mais será ele.

Ele levou de você aquilo que só se pode dar uma vez: a confiança, o espanto religioso da primeira carícia, a novidade das lágrimas, a flor do primeiro sofrimento.

Ame, se puder. Talvez isso lhe seja concedido, para que no melhor de sua pobre felicidade você ainda se lembre de que nada conta, no amor, salvo o primeiro amor. Para que sofra, a cada instante, a punição de lembrar, o horror de comparar.

Mesmo quando disser: ah, isto é melhor, sofrerá por compreender que nada é bom se não é único.

Há um Deus que diz ao pecador: você não me procuraria se já não me tivesse encontrado. Mas o Amor não tem tanta misericórdia. Você que me encontrou uma vez, diz ele, me perde para sempre.

Você acreditava, ao perdê-lo, ter sofrido tudo? Não acabou. Saboreie, procurando ressuscitar o que foi, sua decadência. Beba, em cada banquete de sua nova vida, o veneno que nele derramará o primeiro, o único amor.

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