Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 7
Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 7
No dia seguinte, Lise acordou antes que a senhoria pudesse bater. Havia vitórias pequenas, quase ridículas: abrir os olhos por vontade própria, esconder a carta antes de qualquer ruído no corredor, enfiar papelão dentro do sapato direito para fingir sola. A liberdade, ela começava a aprender, era também uma ciência de remendos.
A flor de tecido de Céleste dormira dentro da carta. Quando Lise a retirou, uma poeira brilhante ficou presa ao papel. A carta da mulher desconhecida, antes limpa como relíquia, agora carregava sinal de palco. Isso a perturbou e agradou ao mesmo tempo. Talvez as coisas vivas sempre manchassem as coisas sagradas.
Na rua, comprou pão velho por menos dinheiro e comeu a parte dura primeiro, porque era melhor enfrentar o pior enquanto ainda se tinha fome. Chegou ao café-concerto às cinco menos dez. Madame Sorel já estava ali, com o caderno aberto e uma expressão de quem não dormira o bastante para perdoar ninguém.
— Hoje você não fala com o patron se ele não perguntar.
— Sim, madame.
— Não responde a Derval se ele não comprar.
— Sim, madame.
— Não salva artistas antes de saber se elas querem ser salvas.
Lise baixou os olhos.
— Sim, madame.
— Esse último sim foi o único que entendeu.
Madame Sorel entregou-lhe um maço de reservas.
— Copie. Depois vá buscar fita preta na chapelaria. Diga que é para mim. Se perguntarem por quê, não responda. Se não quiserem entregar, responda menos ainda.
O dia correu com uma calma falsa. Céleste não apareceu na cozinha. A espanhola ensaiou um número novo batendo os saltos com fúria suficiente para acordar os mortos, mas sem alegria. Octave atravessou o corredor duas vezes, nas duas carregando coisas demais para alguém que não queria ser útil. Na terceira, parou diante da bilheteria ainda fechada.
— Nossa mártir das listas está viva.
— Não sou mártir.
— Melhor. Mártir trabalha de graça.
Lise continuou separando bilhetes.
— Céleste veio?
— Veio e não veio. Corpo sim, alma negociando.
— Ela está zangada comigo?
— Claro. Você lhe deu uma dívida bonita. Das piores.
— Eu quis ajudar.
Octave apoiou os cotovelos na madeira.
— Esse é justamente o veneno mais elegante. Ninguém sabe onde pôr rancor contra quem quis ajudar.
Lise parou.
— Então eu devia ter ficado calada.
— Talvez. Talvez não. Paris é uma professora ordinária: só corrige depois da prova.
Ele ia sair, mas voltou a cabeça.
— Derval também veio cedo.
— Já?
— Não entrou pela frente. Homem como ele não gosta de parecer ansioso.
— O que quer?
— Que você pergunte isso.
Lise sentiu o pequeno peso da carta sob o vestido, como se o papel tivesse ouvido.
Às sete, a bilheteria abriu. O público veio em camadas: os apressados, os satisfeitos, os que bebiam antes de beber, os que queriam ser reconhecidos sem reconhecer ninguém. Lise trabalhou com precisão. Dois francos. Um azul. Vermelho esgotado até a segunda fila. Troco certo. Olhar baixo quando o olhar alto custava caro.
Derval chegou às oito e quinze. Não estava sozinho. Trazia ao lado um homem robusto, de bigode claro, farda civil demais para esconder hábitos de quartel. O capitão da mesa azul, pensou Lise antes que alguém dissesse.
Derval comprou dois bilhetes vermelhos.
— Boa noite, mademoiselle.
— Dois bilhetes, quatro francos.
— Hoje sem filosofia?
— A fila está grande.
O capitão riu.
— É essa?
Lise destacou os bilhetes sem levantar o rosto.
Derval respondeu com suavidade:
— É apenas a moça que sabe contar.
— Contar é perigoso — disse o capitão. — Mulher que conta acaba comparando.
Lise devolveu o troco exato. Nenhuma palavra. Nenhuma tremedeira visível. Quando eles entraram, ela percebeu que tinha prendido a respiração.
Madame Sorel surgiu atrás dela.
— Muito bem.
— Porque calei?
— Porque cobrou antes.
A noite seguiu, mas algo havia mudado no ar. Derval e o capitão sentaram-se próximos demais do palco. Céleste apareceu apenas no segundo número, com maquiagem espessa e um chapéu inclinado que lhe cortava metade do rosto. Cantou uma canção leve sobre uma lavadeira enganada por um marquês. O público riu. O capitão aplaudiu alto demais. Céleste não olhou para ele.
Durante o intervalo, Octave deixou um copo d'água na bilheteria.
— De Sorel.
— Ela mandou água?
— Não. Eu menti para você aceitar.
Ela bebeu.
— Derval mandou chamar você no corredor lateral depois do fechamento.
Lise quase engasgou.
— Eu não vou.
— Ótimo. Então mande essa frase pelos seus pés, não pela boca.
— O que ele quer?
Octave olhou para o salão.
— Oferecer uma escada e depois cobrar o telhado.
— Você fala por enigmas porque não sabe ou porque tem medo?
Pela primeira vez, ele não sorriu.
— Porque saber claramente neste lugar obriga a agir claramente. E quase ninguém pode pagar por isso.
Antes da meia-noite, Madame Sorel pediu que Lise levasse ao escritório o caderno das reservas. O corredor lateral estava vazio demais. O ruído do salão chegava amortecido, como se a música viesse debaixo d'água. Ao passar pela cortina que separava o acesso dos camarins, ela viu Derval encostado à parede.
— Mademoiselle Lise.
Ela deteve-se. O nome, dito por ele, pareceu uma mão no ombro.
— Estou em serviço.
— Justamente. Serviço é uma palavra que facilita conversas difíceis.
— O escritório espera o caderno.
— O escritório espera muitas coisas.
Ele não bloqueava a passagem. Isso era pior; obrigava-a a escolher ficar ou ir.
— O capitão achou você interessante.
— Não trabalho para interessar capitães.
— Todos trabalhamos para interessar alguém. A diferença é escolher quem vale o esforço.
Lise apertou o caderno contra o corpo.
— Monsieur queria um bilhete?
— Queria lhe evitar um acidente.
A palavra abriu um frio nas costas dela.
— Que acidente?
— Uma queixa. Um erro de caixa. Uma história mal repetida. Uma moça sozinha em Paris sempre tropeça no que os outros colocam no chão.
— E monsieur retira os objetos?
— Às vezes. Quando simpatizo.
Lise pensou em Céleste, no pulso marcado, na flor de tecido dentro da carta. Pensou também no quarto pago pela metade, no sapato aberto, na facilidade com que uma moça podia desaparecer de um emprego que ainda nem era emprego.
— Quanto custa a simpatia?
Derval sorriu.
— Menos quando a pergunta vem cedo.
— Não tenho dinheiro.
— Não fale como pobre. Dinheiro é só a forma mais vulgar de pagamento.
Ela sentiu vontade de fugir. Em vez disso, olhou diretamente para ele.
— Então não posso comprar.
— Pode aceitar.
— Aceitar também é uma forma de dever.
O sorriso dele mudou. Não desapareceu; ficou mais fino.
— Você aprende depressa demais para uma bilheteira.
— Bilhetes ensinam. Cada pessoa compra uma permissão e acha que comprou o mundo.
Derval riu baixo.
— Vê? É por isso que eu gostaria de ajudá-la.
— Para que eu continue dizendo frases?
— Para que ninguém a faça parar antes da hora.
Por um instante, a proposta quase pareceu bondade. Quase. O perigo de Derval estava nesse quase: ele sabia imitar abrigo com a forma exata de uma jaula ainda aberta.
Madame Sorel apareceu no fim do corredor.
— O patron pediu o caderno há cinco minutos.
Lise passou por Derval.
— Desculpe, madame.
— Não peça desculpa quando ainda pode andar.
No escritório, o patron folheou o caderno e não comentou a demora. Isso confirmou que já sabia. Ou que saberia quando lhe conviesse. Lise voltou à bilheteria com as pernas firmes por teimosia.
No fechamento, a caixa fechou exata. Madame Sorel contou duas vezes, depois guardou as moedas.
— Derval falou com você.
— Falou.
— Ofereceu proteção?
— Sim.
— E você recusou?
— Acho que sim.
— Acha?
— Eu continuei andando.
Madame Sorel fechou o caderno.
— Às vezes é a única recusa que entendem.
— Ele pode me prejudicar?
— Pode.
— E a senhora pode impedir?
— Posso atrasar. Impedir é palavra de gente rica ou morta.
Lise recebeu o pagamento da noite. Mais uma vez, pouco demais para tudo. No bolso, as moedas bateram contra a flor de tecido, e ela sentiu a estranha companhia das duas pobrezas: a que compra pão e a que compra memória.
Na saída, Céleste esperava do lado de fora, sem xale, o olho quase escondido sob pintura.
— Derval falou com você.
— Todos já sabem?
— Aqui, quando uma porta fecha, a parede escuta.
— Ele ofereceu proteção.
Céleste soltou uma risada curta.
— Ele oferece proteção como quem acende fósforo dentro de palheiro.
— Eu recusei.
— Hoje.
A palavra doeu porque era justa.
Caminharam juntas até a esquina. Não era amizade ainda. Era uma trégua andando no mesmo sentido.
— O capitão foi quem marcou você? — perguntou Lise.
Céleste parou.
— Não faça perguntas se não sabe onde guardar a resposta.
— Posso guardar.
— Não. Você ainda guarda tudo perto do coração.
Lise levou a mão ao corpete antes de conseguir impedir o gesto. Céleste viu.
— Tem uma carta aí?
Lise ficou imóvel.
— Tenho.
— De amor?
— De fuga.
Céleste a olhou por mais tempo, agora sem ironia.
— Guarde melhor. Fuga também pode ser roubada.
Despediu-se sem beijo, sem promessa, sem agradecimento. Lise voltou para a pensão sozinha. No quarto, abriu a carta e colocou ao lado dela a flor de tecido e as moedas restantes. Depois tirou do bolso uma fita preta que esquecera de entregar à Madame Sorel.
Não soube se ria ou se temia. A fita, a flor, a carta, o dinheiro: pequeno arquivo de uma vida que se montava por descuido.
Escreveu no verso de um recibo antigo, com o toco de lápis encontrado na gaveta:
Não aceitar abrigo de quem primeiro descreve a tempestade.
Leu a frase duas vezes. Pareceu-lhe excessiva, quase literária. Mas, como não tinha professora para corrigir, dobrou o papel e o guardou dentro da carta.
Lá fora, Paris continuava acesa. Dentro, Lise apagou a vela e ficou acordada mais um pouco, ouvindo o próprio medo respirar sem pedir licença.