Capítulo 5 - Bouty e o leite azul A Vagabunda · Capítulo 5 de 77
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Capítulo 5 - Bouty e o leite azul

Capítulo 5 - Bouty e o leite azul

Jadin partiu, e o corredor inteiro parece respirar melhor por poder comentar a fuga. As portas das loges, abertas e fechadas sem descanso, fazem do bastidor uma colmeia maldosa. Toda gente diz que esperava aquilo havia dias. Toda gente, menos eu. A experiência dos outros sempre chega tarde demais para consolar quem ainda se espanta.

Bouty passa diante da minha porta como se fosse a própria caricatura do ofício. Está pintado de antropoide, com a cara vermelha e branca de quem precisa exagerar os traços para sobreviver à distância da ribalta. Na mão, segura o seu inseparável copo de leite, um leite azuloso, quase de goma, que ele bebe em goles curtos entre uma entrada e outra, como se a vida pudesse ser mantida por prudência e fé.

Diz, com a segurança desanimada dos que já viram tudo repetir-se: era certo, eu dava mais cinco dias, um mês no máximo. A patroa há de fazer cara feia, mas não será por isso que aumentará um tostão dos artistas que seguram uma casa. E conclui, sem drama, que Jadin volta. Não por amor ao palco, mas porque gente como nós nunca foge por inteiro. Faz uma excursão pela esperança e depois regressa à necessidade.

Eu o escuto enquanto espalho nas mãos o branco líquido do camarim. Pergunto se ela não lhe disse nada. Ele encolhe os ombros por baixo da pintura grotesca e responde com um desdém cansado que não é pai nem mãe de ninguém. A frase seria dura, não fosse a voz tão mansa. Há homens que se defendem com secura porque lhes falta gordura para qualquer outra couraça.

Sem o rouge brutal e o contorno animal, Bouty tem um rosto frágil e quase fino demais para este ofício. Os olhos são ternos, a saúde é nenhuma, e o coração parece daqueles cães sem dono que aceitam amar o primeiro que lhes faça um gesto. Carrega a enterite crônica como outros carregam um nome de família. Alimenta-se de leite, de macarrão cozido, de prudências médicas, e ainda assim sobe ao palco para cantar e dançar vinte minutos como se o corpo lhe devesse obediência.

Quando volta da cena, muitas vezes cai no chão do palco antes mesmo de alcançar a escada. Fica estendido ali, magro e inerte, fechando a passagem como um morto provisório. Eu passo dura ao lado dele, zangada comigo mesma por não me curvar, por não pedir socorro, por compreender bem demais que ninguém aqui pode se dar ao luxo de fraquejar diante da fraqueza alheia. Os colegas, o velho maquinista, todos se limitam a balançar a cabeça com solenidade e a repetir a sentença profissional: Bouty é um artista que se gasta muito.

Nesse mundo, gastar-se muito é quase um elogio. Quer dizer que o público leva o que pagou e mais um pouco; quer dizer também que o corpo do artista fica devendo o resto. A matinê passa assim, como um sonho de ferragens, poeira quente, ordens gritadas e pressa mal acordada. Mal conseguimos respirar e já é preciso descer a escada de ferro, sair à rua, pensar em jantar depressa, apanhar um táxi e recomeçar tudo para a sessão da noite.

Guardo dessa metade de domingo apenas o frio nervoso das urgências. O estômago ainda encolhido, o coração batendo como se eu tivesse sido arrancada do sono a pontapés, a sensação de que as horas derretem sem ninguém chegar a possuí-las. Viver de palco é isto: perder o dia em parcelas pequenas, sempre à beira de um atraso ou de uma ausência.

Brague me empurra adiante, já fazendo conta do mês. O espetáculo agrada o suficiente, diz ele. É preciso aguentar até a revista nova. Não fala de arte, fala de resistência. No fim, talvez seja a definição mais honesta do nosso trabalho. Não brilhamos para vencer; brilhamos para durar.

E eu sigo com eles, porque a máquina não admite contemplação. Jadin sumiu, Bouty se consome, Brague calcula, eu observo e obedeço. Entre um número e outro, o music-hall vai me ensinando sua moral mais nua: ninguém é insubstituível, mas cada ausência cobra um preço do corpo de quem fica.

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