Capítulo 17 - A única besteira A Vagabunda · Capítulo 17 de 77
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Capítulo 17 - A única besteira

Capítulo 17 - A única besteira

— Mas enfim, Margot, você é extraordinária.

É sempre o mesmo requisitório, digo-lhe rindo: você é isto, você é aquilo, você é das que, você é daquelas a quem. Espere ao menos que eu peque. Haverá tempo de me censurar depois.

Margot me lança um daqueles olhares que a fazem parecer muito alta, como se caíssem de tão longe.

— Não censuro você, minha filha. Não a censurarei mais quando tiver pecado, como diz. Apenas você terá muita dificuldade em se impedir de cometer a besteira, porque só existe uma: recomeçar. Sei alguma coisa disso. E ainda — acrescenta com um sorriso singular — eu não tinha sentidos.

— Então o que fazer, Margot? O que reprova em minha vida atual? Devo, como você, me enclausurar no medo de uma desgraça pior, e amar apenas pequenos terriers brabanções de pelo raso?

— Nem pense — exclama Margot, com vivacidade infantil. — Pequenos terriers brabanções? Não há canalhas como eles.

Mostra-me uma cadelinha ruiva, parecida com um esquilo tosado.

— Eis uma criatura que tratei durante quinze noites, quando teve bronquite. Quando me permito deixá-la sozinha em casa por uma hora, a pequena crápula finge não me reconhecer e rosna atrás de mim como se eu fosse uma vagabunda de estrada. E, fora isso, minha criança, você vai bem?

— Muito bem, Margot. Obrigada.

— A língua? O branco dos olhos? O pulso?

Ela revira minhas pálpebras e aperta meu punho com mão segura, profissional, nem mais nem menos do que faria com um pequeno brabanção. É que nós sabemos, Margot e eu, o preço da saúde e a angústia de perdê-la. Viver só, a gente se arranja, se acostuma. Mas definhar só e febril, tremer de esgotamento, tossir na noite interminável, alcançar com pernas falhas a janela batida pela chuva e voltar para uma cama amarrotada e úmida, só, só, só...

Durante alguns dias, no ano passado, conheci o horror de ser aquela que jaz, delira vagamente e teme, em meia lucidez, morrer devagar, longe de todos, esquecida. Desde então, à maneira de Margot, cuido de mim. Vigio meu intestino, minha garganta, meu estômago, minha pele, com uma severidade um pouco maníaca de proprietária presa ao próprio bem.

Hoje penso na frase estranha de Margot. Ela não tinha sentidos. E eu?

Meus sentidos. É verdade: faz muito tempo, parece-me, que não penso neles.

A questão dos sentidos. Margot parece acreditar que ela importa. A melhor literatura, e a pior também, tenta me ensinar que todas as vozes se calam quando a dos sentidos falou. Que devo acreditar?

Brague me disse uma vez, em tom de médico:

— Não é saudável, sabe, essa tua maneira de viver.

E acrescentou, como Margot:

— De resto, você passará por isso como todas as camaradas. Guarde o que estou dizendo.

Não gosto de pensar nisso. Brague se mete de bom grado a decretar e brinca de infalível. Isso não significa nada. Ainda assim, não gosto de pensar nisso.

No music-hall assisto, sem fingir o menor pudor, a conversas em que se trata a questão dos sentidos com precisão estatística e cirúrgica. Tomo nelas o mesmo interesse distante e respeitoso com que leio no jornal as devastações da peste na Ásia. Aceito tremer, mas prefiro permanecer meio incrédula. Mesmo assim, não gosto muito de pensar nisso.

E há esse homem, o Grande Passarão, que se arranja para viver em minha sombra, para pôr seus passos dentro das marcas dos meus, com obstinação de cão.

Encontro flores no camarim. Fossette recebe uma pequena gamela de níquel para a comida. Três animaizinhos fetiches fazem salão, nariz contra nariz, sobre minha mesa de escrever: um gato de ametista, um elefante de calcedônia, um sapo de turquesa. Um círculo de jade, verde como rã, apertava as hastes do buquê de lírios esverdeados que me entregaram no primeiro de janeiro.

Na rua, cruzo vezes demais o mesmo Dufferein-Chautel, que me cumprimenta com surpresa tão mal imitada.

Ele me obriga a lembrar, vezes demais, que o desejo existe: semideus imperioso, fauno solto que salta ao redor do amor e não obedece ao amor. Obriga-me a lembrar que estou só, sadia, ainda jovem e rejuvenescida por minha longa convalescença moral.

Sentidos? Sim, eu os tenho. Tinha, ao menos, no tempo em que Adolphe Taillandy se dignava a ocupar-se deles. Sentidos tímidos, rotineiros, direi comuns? Felizes com a carícia habitual que os satisfazia, temerosos de qualquer pesquisa ou complicação libertina. Lentos para se incendiar, lentos para se apagar. Sentidos saudáveis, em suma.

A traição, a longa dor, anestesiaram-nos. Até quando? Nos dias de alegria, de júbilo físico, exclamo: para sempre. Sinto-me cândida, amputada daquilo que fazia de mim uma mulher como as outras.

Mas há dias lúcidos em que raciocino duramente contra mim mesma: cuidado, vigie a toda hora. Todos os que se aproximam são suspeitos, mas você não tem inimigo pior do que você mesma. Não cante que está morta, desabitada, leve. A criatura que você esquece hiberna, e se fortalece no longo sono.

Depois perco novamente a memória do que fui, junto com o medo de voltar a ser viva. Não cobiço, não lamento nada, até o próximo naufrágio de minha confiança, até a crise inevitável em que vejo aproximar-se, com terror, a Tristeza de mãos doces e poderosas, guia e companheira de todas as voluptuosidades.

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