Capítulo 61 - A América do Sul A Vagabunda · Capítulo 61 de 77
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Capítulo 61 - A América do Sul

Capítulo 61 - A América do Sul

Vivo no meio de tempestades de pensamentos que não escapam. Reencontro, com esforço e paciência, minha vocação de silêncio e dissimulação. Torna-se outra vez fácil seguir Brague por uma cidade, para cima, para baixo, através de praças, catedrais, museus, e na fumaça dos pequenos botequins onde, segundo ele, se come estupendamente.

Nossa cordialidade fala pouco, sorri raramente, mas às vezes ri às gargalhadas, como se a alegria nos fosse mais acessível que a doçura. Rio com facilidade das histórias de Brague, e forço meu riso para o agudo, assim como ele exagera, ao falar comigo, uma grosseria muito artificial.

Somos sinceros, um e outro, mas nem sempre muito simples. Temos piadas tradicionais, que nos alegram tradicionalmente. A preferida de Brague, e a que me exaspera, é o Jogo do Sátiro, representado nos bondes, onde meu camarada escolhe por vítima ora uma jovem tímida, ora uma solteirona agressiva.

Sentado diante dela, mole contra o encosto, ele a choca com um olhar aceso, para que ela core, tussa, ajeite o véu e vire a cabeça. O olhar do sátiro insiste, obsceno; depois todos os traços do rosto, boca, narinas, sobrancelhas, concorrem para exprimir a alegria especial de um erotômano.

— É um excelente exercício de fisionomia! — garante Brague. — Quando criarem para mim uma classe de pantomima no Conservatório, farei todas as minhas alunas repetirem isso, juntas e separadamente.

Rio, porque a pobre senhora, apavorada, nunca deixa de descer do bonde muito depressa; mas a perfeição careteira do jogo vil me crispa. Meu corpo, um pouco sobrecarregado, sofre sem lógica crises de castidade intolerante, das quais caio num braseiro aceso em um segundo pela lembrança de um perfume, de um gesto, de um grito terno. Um braseiro que ilumina as delícias que não tive, em cujas chamas me consumo imóvel, joelhos juntos, como se eu arriscasse, ao menor movimento, alargar minhas queimaduras.

Max... Ele me escreve, ele me espera. Como sua confiança me é cruel de carregar. Mais cruel de carregar do que de enganar, pois eu também escrevo, escrevo com uma abundância e uma liberdade inexplicáveis. Escrevo sobre mesinhas bambas, sentada de lado em cadeiras altas demais, um pé calçado e o outro nu, o papel comprimido entre a bandeja do café da manhã e a bolsa aberta, entre escovas, frasco de perfume e abotoadeira.

Escrevo diante da janela que enquadra um fundo de pátio, ou os jardins mais deliciosos, ou montanhas vaporosas. Sinto-me em casa no meio dessa desordem de acampamento, nesse em qualquer lugar e de qualquer modo, mais leve do que entre meus móveis assombrados.

— A América do Sul, que é que isso te diz?

A pergunta barroca de Brague caiu ontem como uma pedra em meu devaneio depois do jantar, durante a hora tão curta em que luto contra o sono e contra a repugnância de ir, em plena digestão, me maquiar e me despir.

— A América do Sul? É longe...

— Preguiçosa!

— Você não compreende, Brague. Digo é longe como teria dito é belo.

— Ah, bom... assim sim. É Salomon que me sonda para lá. Então?

— Então?...

— Podemos ver?

— Podemos ver.

Nem um nem outro se deixa enganar por nossa indiferença encenada. Aprendi, à minha custa, a não acender o empresário sobre uma turnê mostrando vontade de partir. Brague, por sua vez, guarda-se, até segunda ordem, de me apresentar o negócio sob luz vantajosa, com medo de provocar uma alta no cachê global.

A América do Sul. Tive, diante dessas três palavras, um deslumbramento de iletrada que vê o Novo Mundo através de uma fantasia de estrelas em chuva, flores gigantes, pedras preciosas e beija-flores. O Brasil, a Argentina... que nomes cintilantes. Margot contou que a levaram para lá ainda criança, e meu desejo maravilhado se agarra à pintura pueril que ela me fez de uma aranha de ventre prateado e de uma árvore coberta de vaga-lumes.

O Brasil, a Argentina, mas... e Max?

E Max? Desde ontem, rondo esse ponto de interrogação. E Max, e Max? Já não é um pensamento; é um refrão, um ruído, um pequeno crocitar ritmado que fatalmente provoca uma das minhas crises de grosseria. Que antepassado mal-educado late em mim com essa virulência, não apenas verbal, mas sentimental? Acabo de amarrotar a carta começada para meu amigo, jurando a meia voz.

E Max! E Max! Até quando eu o encontrarei entre minhas pernas? Então eu só existo para me preocupar com esse rentista incômodo? Paz, Senhor, paz. Basta de dengues, basta de idílios, basta de tempo perdido, basta de homens. Olhe-se, minha pobre amiga, olhe-se. Você não é, longe disso, uma mulher velha, mas já é uma espécie de velho solteirão. Tem suas manias, seu mau caráter, sua sensibilidade meticulosa, o bastante para sofrer e tornar-se insuportável.

Que vai fazer nessa galera, nem isso, nesse barco-lavanderia solidamente amarrado, onde se clareia uma roupa patriarcal? Se ao menos fosse capaz de se pagar uma boa paixãozinha por esse rapaz alto, quinze dias, três semanas, dois meses, e depois adeus. Nada se deve; alegraram-se bem um com o outro. Você deveria ter aprendido, com Taillandy, como se abandona alguém.

E sigo, sigo. Trago, para insultar meu amigo e a mim mesma, uma engenhosidade crua, má. É uma espécie de jogo no qual me excito a dizer coisas verdadeiras que não penso, que ainda não penso. E isso dura até o momento em que percebo que chove a cântaros: os telhados, do outro lado da rua, escorrem, a calha transborda. Uma longa gota fria rola pelo vidro e cai sobre minha mão. Atrás de mim, o quarto ficou escuro.

Seria bom estar contra o ombro daquele que, ainda há pouco, eu humilhava chamando de rentista incômodo.

Acendo a lâmpada do teto, arrisco, para me ocupar, uma organização efêmera da mesa de escrever. Abro o mata-borrão entre o espelho de cavalete e o buquê de narcisos. Procuro uma aparência de lar, desejo o chá quente, o pão dourado, minha lâmpada familiar com seu abajur rosa, o latido de minha cadela, a voz do velho Hamond.

Uma grande folha branca está ali, tentadora, e eu me sento.

Max, meu querido, sim, eu volto; volto um pouco todos os dias. É possível que apenas doze noites me separem de você? Nada é menos certo: parece-me que não devo mais revê-lo... Como seria terrível. Como seria sábio.

Paro. Não está claro demais? Não. Além disso, escrevi seria, e nenhum amante levará ao trágico um condicional. Posso continuar no mesmo tom tranquilizador, arriscar generalidades melancólicas, restrições tímidas. E como, ainda assim, temo uma decisão brusca que traria Max aqui em menos de doze horas, não esqueço de afogar tudo num fluxo de ternuras, ai de mim, que me arrasta.

É um pouco repugnante, o que faço aqui.

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