Capítulo 35 - Todo o tempo A Vagabunda · Capítulo 35 de 77
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Capítulo 35 - Todo o tempo

Capítulo 35 - Todo o tempo

Reposei a cabeça em seu ombro e fechei os olhos, mais resignada que curiosa. Depois os reabri ao fim de um segundo, surpresa por ele não se precipitar com a pressa gulosa de ontem.

Ele apenas se voltou um pouco para mim e me envolveu comodamente com o braço direito. Depois reuniu minhas duas mãos com a mão livre, inclinou-se, e vi se aproximar, lentamente, aquele rosto sério e estrangeiro, aquele homem que conheço tão pouco.

Quase não há mais espaço, quase não há mais ar entre nossos rostos. Respiro bruscamente, como se me afogasse, com um sobressalto para me libertar. Mas ele segura minhas mãos e aperta o braço em torno de minha cintura. Rejeito inutilmente a nuca para trás no momento em que a boca de Maxime alcança a minha.

Não fechei os olhos. Franzo as sobrancelhas para ameaçar, acima de mim, essas pupilas que procuram reduzir e apagar as minhas. Pois os lábios que me beijam, doces, frescos, impessoais, são os mesmos de ontem, e sua ineficácia me irrita.

De repente, eles mudam. Já não reconheço o beijo, que se anima, insiste, se pressiona e se retoma, torna-se móvel, ritmado, depois para como se esperasse uma resposta que não vem.

Mexo imperceptivelmente a cabeça por causa dos bigodes que roçam minhas narinas, com um perfume de baunilha e tabaco adocicado. Então, de súbito, apesar de mim, minha boca se deixa abrir. Abre-se com a mesma irresistível facilidade de uma fruta madura rachando ao sol.

Dos lábios aos flancos, dos flancos aos joelhos, renasce e se propaga essa dor exigente, esse inchaço de ferida que quer se reabrir e se derramar: a volúpia esquecida.

Deixo o homem que me despertou beber do fruto que aperta. Minhas mãos, rígidas há pouco, abandonam-se quentes e moles dentro da mão dele, e meu corpo inclinado procura casar-se ao seu. Dobrada sobre o braço que me sustenta, aprofundo um pouco mais o ombro dele, aperto-me contra ele, atenta a não separar nossos lábios, atenta a prolongar confortavelmente nosso beijo.

Ele compreende e consente com um pequeno rumor feliz. Enfim certo de que não fugirei, é ele quem se afasta de mim, respira e me contempla, mordendo a boca molhada. Deixo cair as pálpebras. Já não preciso vê-lo.

Talvez ele vá me despir e tomar posse de mim por completo. Não importa. Uma alegria irresponsável e preguiçosa me banha. Nada urge, salvo que esse beijo recomece. Temos todo o tempo.

Orgulhoso, meu amigo me recolhe nos braços como um feixe, para me deitar meio de lado no divã, onde se junta a mim. Sua boca tem agora o gosto da minha e o leve cheiro de meu pó de arroz. Ela quer se fazer nova, essa boca sábia, e variar ainda a carícia; mas eu já ouso indicar minha preferência por um beijo quase imóvel, longo, adormecido: o lento esmagamento de duas flores, uma contra a outra, onde vibra apenas a palpitação de dois pistilos emparelhados.

Agora descansamos. Uma grande trégua em que retomamos o fôlego. Fui eu que o deixei desta vez, levantando-me com necessidade de torcer os braços, esticar-me, crescer.

Tomei o espelho de mão para reajustar os cabelos e mirar meu novo rosto. Rio de nos ver nele, nós dois, com traços sonolentos, lábios trêmulos, brilhantes, um pouco inchados. Maxime ficou no divã, e seu chamado mudo recebe a resposta mais lisonjeira: meu olhar de cadela submissa, um pouco envergonhada, um pouco batida, muito mimada, que aceita tudo, a guia, a coleira, o lugar aos pés do dono.

Ele partiu. Jantamos juntos de qualquer maneira. Blandine fez costeletas ao molho, com pepinos em conserva. Eu morria de fome.

— E o amor, preenchendo tudo, salvo... — disse ele, para mostrar que leu Verlaine.

O fim do jantar não nos devolveu aos braços um do outro, e não somos amantes, pois ele é pudico, e o improviso me desagrada. Mas me comprometi, prometi-me alegremente, sem coqueteria.

— Temos todo o tempo, não é, Max?

— Não demais, querida. Estou tão velho desde que espero por você.

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