Capítulo 25 - Quase em viagem
Capítulo 25 - Quase em viagem
Lá fora, o boulevard exterior e a place Blanche, onde gira um vento glacial, nos reanimam. Sinto-me alegremente retomada por uma febre ativa, uma necessidade de trabalhar, misteriosa e indefinida, que eu gastaria tanto dançando quanto escrevendo, correndo, representando ou puxando um carrinho de mão.
Como se tomado pelo mesmo desejo, Brague me diz de repente:
— Sabe, recebi uma palavra de Salomon, o agente. A turnê de que falei está começando a se desenhar. Ele arranja um dia aqui, dois ali, uma semana em Marselha, outra em Bordeaux. Você ainda pode partir?
— Eu? Agora mesmo. Por que não?
Ele me lança de lado um olhar vivo.
— Não sei. Por nada. Às vezes... eu sei o que é a vida.
Ah, compreendi. Meu camarada se lembra de Dufferein-Chautel e acredita que... Meu riso brusco, em vez de desenganá-lo, o desorienta ainda mais. Mas esta noite estou tão provocadora e alegre, leve, já quase em viagem.
Oh, sim, partir. Repartir. Esquecer quem sou e o nome da cidade que me abrigou ontem. Pensar mal e mal, refletir e reter apenas a bela paisagem que gira e muda ao lado do trem: o tanque cor de chumbo onde o céu azul se espelha verde, a flecha rendada de uma igreja cercada de andorinhas.
Lembro-me de um dia, ao deixar Rennes numa manhã de maio. O trem seguia muito devagar uma via em reparo, entre moitas de espinhos brancos, macieiras rosadas cuja sombra era azul, salgueiros jovens de folhas de jade. De pé à beira do bosque, uma criança nos via passar: uma menina de doze anos cuja semelhança comigo me assaltou.
Séria, sobrancelhas franzidas, bochechas redondas e escurecidas como foram as minhas, cabelos um pouco desbotados pelo sol, ela segurava um ramo novo nas mãos queimadas e arranhadas, como foram as minhas. E aquele ar insociável, aqueles olhos sem idade, quase sem sexo, que pareciam levar tudo a sério: os meus, realmente os meus. Sim, de pé à beira da sebe, minha infância feroz me via passar, ofuscada pelo sol nascente.
— Quando você quiser, sabe.
O convite seco de meu camarada me desperta diante do Empyrée-Clichy, iluminado por fogos malvas cujo brilho fere, diz Brague, o fundo dos olhos. Ganhamos o subsolo, onde o cheiro reconhecido — gesso, amoníaco, creme Simon e pó de arroz — me levanta um desgosto quase agradável. Viemos ver os colegas da revista, não a revista.
Reencontro meu camarim, que agora Bouty habita, e o de Brague está cheio da presença deslumbrante de Jadin, que representa três papéis na revista do Empyrée-Clichy.
— Mexam-se — grita ela. — Vocês chegam bem a tempo da minha canção de Paris à Noite.
Ai de nós, vestiram Jadin como uma mulher da rua. Saia preta, corpete preto decotado, meias de teia de aranha, fita vermelha no pescoço e, na cabeça, a tradicional peruca em capacete onde sangra uma camélia. Nada resta, na verdade, do encanto popular e pegajoso daquela menina de ombro torto.
Era de esperar. Transformam depressa, e com segurança, minha apache fresca e emburrada em mulherzinha de café-concerto. Entre os cumprimentos de ofício — como vai, novidades, está se desenhando? — observo-a pisotear o camarim, aflita por constatar que Jadin agora anda como todas, ventre recolhido e peito para fora; que coloca a voz ao falar; que ainda não disse seu antigo “come!” desde que chegamos.
Bouty, que vai dançar com ela a indispensável chaloupée, resplandece em silêncio sob o boné de seda. Por pouco nos diria: então?, apontando a pequena criatura com gesto de proprietário. Terá finalmente conquistado a companheira? Ao menos, adivinho, emprega-se na banalização de Jadin. E os dois já falam em fazer um número sensacional, muito bem pago, no Cristal-Palace de Londres.
Como tudo muda depressa. As mulheres, sobretudo. Esta, em poucos meses, perderá quase todo o mordente, seu patético natural e inconsciente. Um atavismo sorrateiro de porteiras e pequenos comerciantes cupidos vai aparecer nessa louca Jadin de dezoito anos, tão pródiga de si mesma e de seu pobre dinheiro?
Por que, diante dela, penso nos Bells, acrobatas alemães de nome inglês que conhecemos, Brague e eu, em Bruxelas? Incomparáveis de força e graça sob malhas cor de cereja que faziam empalidecer sua pele loira, moravam os cinco em dois quartos sem móveis, onde cozinhavam por conta própria num pequeno fogareiro de ferro. O dia inteiro, contou-nos o empresário, eram conversas misteriosas, meditações sobre jornais financeiros, disputas selvagens a respeito de minas de ouro, de Sosnowice, de Crédito Fundiário do Egito. Dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Jadin anima com seu vazio tagarela nossa visita, que bem precisa disso. Depois que Bouty, um pouco menos magro, nos dá notícias da saúde e anuncia que alguma coisa se desenha para o próximo inverno, ficamos silenciosos, constrangidos, amigos de acaso que o acaso separa.
Remexo os bastões de maquiagem e os lápis sobre a prateleira com aquela irritação gulosa, aquele prurido de pintura conhecido por todos os que tocaram o palco. A campainha trina, felizmente, e Jadin sobressalta-se.
— Fora. Subam. O bombeiro vai lhes dar a avant-scène dele, e vocês verão se eu mando bem na minha canção de Paris à Noite.
O bombeiro sonolento me empresta, de fato, seu banquinho de palha e sua pequena cabine. Sentada, o nariz contra a grade que emoldura um quadrado de luz quente e avermelhada, posso, invisível, gozar da vista de duas meias fileiras de orquestra, três camarotes descobertos e uma avant-scène.
Nela distingo uma dama, chapéu gigante, pérolas, anéis e lantejoulas, e dois homens: Dufferein-Chautel mais velho e Dufferein-Chautel mais novo, ambos em preto e branco, bem engraxados, bem polidos. Estão brutalmente iluminados e tomam, no pequeno guichê onde os isolo, uma importância extraordinária.
A mulher não é uma mulher, é uma dama: provavelmente a senhora Dufferein-Chautel mais velha. Meu enamorado, por sua vez, parece divertir-se bastante com o desfile das catadoras e cocheiras pilhadoras que se sucedem e saem depois de um couplet e um pequeno passo de dança negligente.
Enfim, Jadin anuncia a si mesma:
— E eu sou a rainha do Paris noturno: sou a Pierreuse.
Vejo meu enamorado inclinar-se rapidamente sobre o programa, depois levantar o nariz e examinar minha pequena camarada do coque em capacete às meias vazadas.
Por uma inversão singular, é ele quem se torna o espetáculo para mim, pois vejo apenas o perfil de Jadin, que a ribalta cegante torna achatado, como roído de luz, a narina negra, o lábio encurtado sobre uma lâmina brilhante de dentes.
Com o pescoço estendido, enfeitado por um trapo vermelho, essa criança fresca parece de repente uma larva luxuriosa arrancada de uma gravura cruel.
Quando termina o couplet e volta para agradecer duas vezes, calcanhares juntos, dedos nos lábios, meu enamorado a aplaude com suas grandes mãos morenas, tão forte que ela lhe dispara, antes de desaparecer, um beijinho particular, com um golpe de queixo para a frente.