Capítulo 31 - Como em nossa casa A Vagabunda · Capítulo 31 de 77
Obra Menu

Capítulo 31 - Como em nossa casa

Capítulo 31 - Como em nossa casa

Ontem, Hamond e Dufferein-Chautel me levaram aos bosques de Meudon, como dois pintores pobres convidando uma modista. Meu enamorado fazia as honras de um automóvel novo, cheirando a marroquim e terebintina: um magnífico brinquedo de gente grande.

Sua jovem face sombria irradiava o desejo de me oferecer aquele belo móvel envernizado e trepidante, do qual eu não tinha nenhuma vontade. Mas eu ria, porque Hamond e Dufferein-Chautel usavam, para essa fuga meudonesa, o mesmo chapéu marrom, fendido, de abas largas, e eu era tão pequena entre aqueles dois grandes diabos.

— A Tarnowska e seus guardiões, não é, Hamond?

Sentado diante de mim em um dos bancos dobráveis, meu enamorado dobrava discretamente as pernas sob si para resguardar meus joelhos do contato dos dele. A luz cinzenta, muito doce, primaveril, me mostrava todos os detalhes de seu rosto: mais moreno sob o feltro acobreado, a nuance enfumaçada das pálpebras, os cílios duros e abundantes, em dupla grade.

A boca, meio escondida sob o bigode de um negro ruivo, me intrigava. Intrigavam-me também a malha imperceptível das pequenas rugas sob os olhos e as sobrancelhas menos longas que a órbita, espessas, mal acabadas, um pouco eriçadas como as dos cães de caça. De repente, com uma mão inquieta, procurei o espelho na minha bolsa.

— Perdeu alguma coisa, Renée?

Mas eu já me arrependia.

— Não, nada. Obrigada.

Para que mirar, diante dele, as marcas de um rosto que perde o hábito de ser contemplado em pleno dia? E que poderia me ensinar meu espelho? Uma maquiagem hábil de lápis castanho, kohl azulado e vermelho de boca não bastava, ontem como todos os dias, para atrair a atenção para os olhos e a boca, as três luzes, os três ímãs do meu rosto?

Nada de rosa na face um pouco côncava, nem sob a pálpebra que a fadiga e o pestanejar frequente já gravaram delicadamente.

A alegria de Fossette, sentada nos meus joelhos e esticada para a portinhola, nos fornecia uma conversa intermitente. Também a doçura daquele bosque ainda invernal, raminhos cinzentos contra céu de chinchila. Mas, assim que eu me inclinava para beber um pouco do vento fraco, carregado do almíscar amargo das antigas folhas decompostas, eu sentia o olhar de meu enamorado pousar, seguro, sobre toda a minha pessoa.

De Paris aos bosques de Meudon, não trocamos cem frases. O campo não me torna loquaz, e meu velho Hamond se entedia assim que passa as fortificações. Nosso mutismo poderia entristecer qualquer outro que não um apaixonado, egoisticamente recompensado por me ter ali, sob seu olhar, prisioneira em seu carro, passiva, vagamente contente com o passeio, sorrindo aos solavancos da estrada úmida e esburacada.

Fossette, imperiosa, decidiu com um grito breve que não iríamos mais longe e que um assunto urgente a chamava ao fundo daqueles bosques nus, na estrada florestal onde brilhavam, como espelhos redondos, as poças de uma chuva recente. Seguimo-la os três sem protestar, com o passo longo das pessoas que caminham muito.

— Está cheirando bem — disse de repente o Grande-Serino, farejando o ar. — Cheira como lá em casa.

Balancei a cabeça.

— Não como na sua casa. Como na nossa. Hamond, a que cheira?

— Cheira a outono — disse Hamond, num tom cansado.

Com essa palavra, paramos sem falar mais, erguendo a cabeça para um riacho de céu preso entre árvores muito altas. A floresta exalava um murmúrio vivo e cochichado, atravessado pelo pífaro molhado, claro e trêmulo de um melro que desafiava o inverno.

Uma pequena coisa ruiva fugiu sob nossos pés, fuinha ou doninha, e Fossette pretendeu persegui-la. Seguimos a cadela arrebatada, obtusa, ostentatória, que latia para uma pista imaginária: eu a vejo, eu a peguei.

Enfim estimulada, lancei-me atrás dela pela alameda, entregue ao prazer animal da corrida, o gorro de skunk bem enfiado até as orelhas e as pernas livres sob a saia agarrada com as duas mãos.

Quando parei, sem fôlego, encontrei meu enamorado atrás de mim.

— Oh, o senhor me seguiu? Como não ouvi o senhor correr?

Ele respirava depressa, os olhos brilhantes sob as sobrancelhas irregulares, os cabelos descolados pela corrida: muito carvoeiro apaixonado, e nada tranquilizador.

— Segui você. Tive o cuidado de correr no mesmo passo, para que não ouvisse meus pés. É muito fácil.

Sim. É muito fácil. Mas era preciso pensar nisso. Eu não teria pensado.

Picada, imprudente, ainda embriagada por uma brutalidade de ninfa, ri em seu rosto, desafiando-o. Quis, tentada, reacender a luz amarela e má no fundo das belas pupilas, arenosas de cinza e ruivo. A ameaça apareceu, mas não cedi, teimosa como essas crianças insolentes que esperam e chamam a bofetada.

O castigo veio sob a forma de um beijo colérico, mal pousado, um beijo falho, enfim, que deixou minha boca punida e decepcionada.

1/1
Menu

Fazer anotação