Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 13 A Vagabunda · Capítulo 76 de 77
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Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 13

Armand Marvan entrou no café de Vautrin às quatro da tarde, quando a luz já não era manhã e ainda não tinha coragem de ser noite.

Não entrou como quem procura uma irmã. Entrou como quem avalia uma sala. Tirou as luvas devagar, olhou para o balcão, para as mesas, para a porta lateral, para o espelho manchado atrás das garrafas. Havia nele uma compostura que não pedia licença; esperava que o mundo se desculpasse por não estar alinhado antes de sua chegada.

Céleste o reconheceu antes que ele dissesse o nome.

Não pelo rosto, que ela nunca vira. Pelo modo de manter distância de tudo o que tocava.

- O senhor deseja? - perguntou ela.

Armand inclinou a cabeça.

- Falar com o proprietário.

- O proprietário às vezes fala de volta. Depende do assunto.

Ele olhou para ela como se uma criada tivesse feito uma frase longa demais.

- Então talvez eu deva falar com alguém que compreenda discrição.

Céleste limpou as mãos no avental, sem pressa.

- Aqui a discrição custa mais quando vem embrulhada em insulto.

No fundo da sala, Lise segurava uma bandeja com três copos vazios. Vautrin lhe dissera, meia hora antes, que o irmão rondava o bairro, e ela achara que estava pronta. Não estava. A visão de Armand produziu uma obediência antiga no corpo: os ombros quiseram baixar, a boca quis pedir desculpas por existir no lugar errado. Ela apertou a bandeja contra o peito até sentir a borda de metal morder-lhe os dedos.

Mercedes, sentada perto da escada com um leque quebrado, viu tudo. Levantou-se sem alarde, caminhou até Lise e tomou-lhe a bandeja.

- Fundo. Agora.

- Quero ouvir.

- Então ouça respirando.

Puxou-a pela manga até a pequena passagem atrás do balcão, onde uma cortina de contas separava a sala de um corredor estreito. Dali, Lise podia ver fragmentos: a mão de Armand pousada sobre a bengala, o perfil de Céleste, metade do espelho, a sombra de Derval entrando pela porta principal como se tivesse acabado de se lembrar de um compromisso agradável.

- Monsieur Marvan - disse Derval, abrindo os braços. - Paris te trata com a grosseria habitual?

Armand voltou-se.

- O senhor me conhece?

- Conheço o suficiente para evitar surpresas caras.

- Então sabe por que estou aqui.

- Sei por que pensa estar aqui. É diferente.

Vautrin apareceu da cozinha limpando uma faca em um pano. Não havia ameaça no gesto, o que o tornava mais eficaz. Armand reparou na lâmina, depois no rosto dele.

- O senhor é Vautrin?

- Quando pago imposto, sim.

- Procuro uma jovem de minha família.

- Família costuma perder jovens quando confunde casa com fechadura.

Armand respirou pelo nariz. Lise conhecia aquele sinal: ele decidira ser paciente, e sua paciência era sempre mais ofensiva que sua cólera.

- Não vim discutir moral de balcão. Minha irmã está vulnerável. Pode ter sido induzida a afastar-se por pessoas que não compreendem as consequências.

- Pessoas como nós - disse Céleste.

- Não nomeei ninguém.

- Gente educada tem esse talento. Suja sem tocar.

Derval riu baixo. Armand não.

- Quero evitar polícia, escândalo e processo - disse ele. - Não por mim. Por ela. Uma mulher que passa noites em casas deste tipo não perde apenas endereço. Perde crédito. Perde futuro.

Lise sentiu Mercedes encostar a mão em seu pulso, não para consolá-la, mas para segurá-la no lugar.

Vautrin guardou a faca.

- E o senhor veio comprar esse futuro de volta?

- Vim pagar despesas, se houve. Hospedagem. Transporte. Silêncio.

A última palavra caiu mais pesada que as moedas imaginadas.

Céleste cruzou os braços.

- Silêncio é artigo de luxo. Aqui quase ninguém pode pagar.

Armand tirou do bolso um envelope. Não era o envelope rasgado por Lise; era outro, novo, espesso. Colocou-o sobre a mesa.

- Há cinquenta francos. Outros cinquenta quando eu souber onde ela está.

Sorel, que até então fingia examinar uma garrafa no armário, virou-se com delicadeza teatral.

- Cem francos por uma irmã inteira. O mercado familiar está em queda.

- O senhor é?

- Inútil, quase sempre. Hoje, testemunha.

Armand finalmente perdeu um pouco da cor polida do rosto.

- Cuidado. Acolher uma mulher maior não é crime, mas retê-la contra a família, explorar-lhe a confusão, colocá-la em ambiente de vício, isso tem nomes.

- Sempre encontram nomes - murmurou Lise atrás da cortina.

Mercedes apertou-lhe o pulso. Céleste ouviu o murmúrio, mas não se virou.

Derval pegou o envelope de dinheiro e pesou-o na mão.

- Digamos que alguém pudesse levar uma mensagem.

Vautrin olhou para ele de lado. Derval não piscou.

Armand percebeu a abertura e avançou.

- Diga-lhe que pai ainda aceita recebê-la. Diga-lhe que a carta que me enviou será esquecida se ela voltar antes de amanhã. Depois disso, terei de registrar certos fatos. Para protegê-la de si mesma.

- Que fatos? - perguntou Derval.

- Desaparecimento voluntário. Relações suspeitas. Apropriação de nome falso, se ela estiver assinando de outro modo. E, naturalmente, o risco de que alguém esteja se beneficiando de sua situação.

Lise fechou os olhos.

Nome falso. Relações suspeitas. Benefício. As palavras vinham uma atrás da outra, vestidas de lei, e cada uma procurava transformar sua fuga em doença ou crime. Ela compreendeu então o que ainda não havia compreendido por inteiro: para Armand, ela não era uma pessoa tomando forma. Era um dossiê escapando da gaveta.

Derval abriu o envelope e contou as notas diante de todos.

- Cinquenta francos compram uma mensagem curta.

- Derval - disse Vautrin.

- Uma mensagem, apenas. Não prometi endereço.

Armand assentiu.

- Então diga: Élise, basta. A brincadeira acabou.

Atrás da cortina, Lise quase riu. Não porque houvesse graça. Porque a frase era tão pequena diante do que ela sentia que parecia vinda de uma peça ruim.

Derval guardou o dinheiro no bolso interno do casaco.

- Transmitirei palavra por palavra.

- E a resposta?

- Se houver resposta, ela escolherá o tamanho.

Armand olhou novamente ao redor. Seus olhos passaram pela cortina de contas. Lise ficou imóvel. Uma conta azul tremeu de leve junto ao seu rosto. Por um instante, ela teve certeza de que ele a vira. Mas Armand não enxergava bem lugares onde imaginava que sua irmã jamais poderia estar. Seu olhar atravessou a passagem como se atravessasse uma parede pobre.

- Esta casa se arrependerá se estiver mentindo - disse ele.

Vautrin sorriu sem mostrar os dentes.

- Casas quase nunca se arrependem. Pessoas, às vezes. Volte quando souber qual dos dois o senhor é.

Armand recolocou as luvas e saiu.

Só depois que a porta se fechou Lise percebeu que estava tremendo. Mercedes soltou-lhe o pulso. Céleste veio até a cortina e afastou as contas.

- Viu?

- Vi.

- Não. Viu de verdade?

Lise demorou a responder. A sala parecia a mesma, mas não era. As mesas continuavam tortas, os copos ainda sujos, o cheiro de gordura e chuva preso às paredes. Porém havia agora, sobre tudo, a claridade desagradável de uma ameaça nomeada.

- Ele não quer que eu volte - disse Lise. - Quer que pareça impossível eu ficar fora.

Derval tirou o envelope do bolso e colocou-o sobre o balcão.

- Exato. Por isso vamos usar o dinheiro dele contra a gramática dele.

Vautrin estreitou os olhos.

- Explique antes que eu decida quebrar tua elegância.

- Ele falou em nome falso. Então daremos à moça um nome usado em público antes que ele possa chamá-lo de invenção secreta. L.M. assinou um envelope. L.M. pode assinar recibos, folhas de serviço, talvez uma encomenda de costura. Pequenas provas. Nada heroico. Papel.

Sorel bateu palmas uma única vez.

- Ah, finalmente uma revolução com tinta barata.

Céleste pegou uma das notas.

- Com isto compro um caderno melhor.

- E uma luva simples - disse Mercedes. - Quem usa luva parece menos perdida.

- E uma morada? - perguntou Lise.

Derval inclinou a cabeça.

- Ainda não. Endereço fixo é anzol. Mas podemos criar passagem: lugares onde L.M. foi vista trabalhando, pagando, recebendo. Uma mulher que deixa rastros escolhidos é menos fácil de transformar em desaparecida.

Lise aproximou-se do balcão. Tocou no envelope que Armand deixara. Era estranho: o dinheiro da perseguição tinha o mesmo peso que qualquer outro dinheiro. Não vinha marcado. Não queimava. Aquilo a ofendeu mais do que se queimasse.

- Não quero que ele compre minha fuga.

- Ele não comprou - disse Céleste. - Doou sem saber.

Vautrin empurrou o envelope para Lise.

- Decide você.

Essa liberdade pequena a atingiu com força. Ninguém disse que era perigoso demais para ela decidir. Ninguém pegou sua mão para assinar em seu lugar. As notas estavam ali, sujas de intenção, mas disponíveis. Lise pensou no pai, em Armand, na estação de Tintelleries, na carta não enviada que dera início a tudo. Pensou também no caderno, nas frases que eram poucas e ainda assim ficavam.

- Usaremos para papel - disse ela. - Papel, tinta, uma luva e comida para Madeleine.

- Madeleine já comeu - disse Vautrin.

- Então comerá de novo. Mulheres escondidas não vivem de prudência.

Mercedes sorriu.

- Agora sim. Está aprendendo Paris.

Naquela noite, Sorel redigiu o primeiro recibo com floreios exagerados até Céleste arrancar-lhe a pena e refazer tudo em letra simples:

Recebi de L.M. a quantia de dois francos por serviço de costura e ajuste.

Mercedes assinou como testemunha. Depois veio outro recibo, de Vautrin, por trabalho de copa. Um terceiro, de Céleste, por compra de mantimentos. Eram papéis mínimos, quase ridículos, mas Lise os segurou como quem segura tábuas sobre água.

- Isto prova que existo? - perguntou.

Derval acendeu um cigarro.

- Não. Mas atrapalha quem deseja provar que você não sabe existir.

Mais tarde, no quarto, Lise abriu o novo caderno comprado com o dinheiro de Armand. A capa era azul escura, sem ornamento. Na primeira página, escreveu apenas:

L.M. começou hoje a deixar rastros por escolha própria.

Parou, ouviu a rua, e acrescentou:

Se quiserem fazer de mim um caso, responderei com documentos e passos. Ainda não é liberdade inteira. Mas já faz barulho no papel.

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