Capítulo 54 - A febre de Avignon A Vagabunda · Capítulo 54 de 77
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Capítulo 54 - A febre de Avignon

Capítulo 54 - A febre de Avignon

Cavaillon nos acompanha ao Kursaal. É cedo demais para ele, que se maquia em dez minutos, mas ele se agarra a nós, roído de solidão, outra vez mudo e sombrio. O Troglodita, encantado, um pouco alegre de vinho, canta para as estrelas. Eu sonho. Escuto o vento negro que se levanta e remonta o cais do Rhône com um ronco marinho.

De onde vem que esta noite eu me balance sobre uma vaga invisível, como um navio que o mar põe de novo a flutuar? É uma noite para navegar até o outro lado do mundo. Tenho as faces frias, as orelhas geladas, o nariz úmido. Todo o meu animal se sente disposto, sólido, aventureiro, até a soleira do Kursaal, onde a tepidez mofada do subsolo sufoca meus pulmões limpos.

Mornos como burocratas, ganhamos esses estranhos camarins de artistas, ao mesmo tempo celeiros de província e mansardas de criados, forrados de um papel pobre, cinza e branco. Cavaillon, que nos semeou pela escada, já está em seu camarim. Vejo-o sentado diante da prateleira de maquiagem, de cotovelos apoiados, a cabeça entre as mãos.

Brague me diz que o cômico passa assim suas noites lúgubres, prostrado, mudo, já meio louco. Estremeço. Eu gostaria de expulsar a lembrança desse homem sentado, que esconde o rosto. Tenho medo de me parecer com ele, encalhado e miserável, perdido no meio de nós, consciente da própria solidão.

18 de abril.

Você teme que eu o esqueça? Essa é nova. Max querido, não comece a fazer pose triste, como digo. Penso em você, olho para você de longe, com uma atenção tão viva que às vezes deve ser misteriosamente advertido por ela. Não é? Observo você através da distância, profundamente, sem me cansar. Eu o vejo tão bem.

É agora que as horas da nossa rápida intimidade já não têm segredos para mim, e que desenrolo todas as nossas palavras, todos os nossos silêncios, nossos olhares, nossos gestos, fielmente registrados com seus valores pictóricos e musicais. E é este o momento que escolhe para se fazer de dengoso, um dedo no canto da boca: você me esquece, sinto você mais longe de mim. Oh, a segunda vista dos amantes.

Eu me afasto, é verdade, meu amigo. Acabamos de ultrapassar Avignon, e ontem, ao acordar no trem depois de um sono de duas horas, pude acreditar que dormira dois meses. A primavera viera ao meu caminho: a primavera como se imagina nos contos de fadas, a primavera exuberante, efêmera, irresistível do Midi, gorda, fresca, jorrada em verdes bruscos, em ervas já longas que o vento balança e moira, em árvores-de-judas malvas, paulônias cor de pervinca cinzenta, falsos ébanos, glicínias, rosas.

As primeiras rosas, meu amigo amado. Comprei-as na estação de Avignon, mal entreabertas, de um amarelo de enxofre realçado de carmim, transparentes ao sol como uma orelha tingida por sangue vivo, enfeitadas de folhas tenras e espinhos curvos em coral polido. Estão ali sobre minha mesa. Exalam damasco, baunilha, charuto finíssimo, pele morena bem cuidada. É o próprio cheiro, Max, de suas mãos secas e escuras.

Meu amigo, deixo-me deslumbrar e reanimar por esta estação nova, por este céu vigoroso e duro, pela douradura particular dessas pedras que o sol acaricia o ano inteiro. Não, não me lamente por partir ao amanhecer, pois a aurora, neste país, escapa nua e purpúrea de um céu leitoso, ventilado por sons de sinos e voos brancos.

Ah, eu lhe peço, compreenda que não deve me escrever cartas cuidadas, que não deve pensar no que me escreve. Escreva qualquer coisa: a cor do tempo, a hora do seu despertar, seu mau humor contra a cigana assalariada. Encha as páginas com a mesma palavra terna, repetida como o grito de um pássaro amoroso que chama. Meu querido amante, preciso que sua desordem responda à deste verão de primavera que rompeu a terra e se consome em sua pressa prometida.

Raramente releio minhas cartas. Reli esta e deixei que partisse com a estranha impressão de cometer uma falta, um erro, e de que ela ia para um homem que não deveria lê-la. A cabeça me gira um pouco desde Avignon. Os países de bruma derreteram lá longe, atrás das cortinas de ciprestes que o mistral inclina.

O ruído sedoso dos longos caniços entrou naquele dia pela vidraça baixada do vagão, ao mesmo tempo que um cheiro de mel, pinho, botões envernizados, lilases em botão, esse perfume amargo do lilás antes da flor, que mistura terebintina e amêndoa. A sombra das cerejeiras é violeta sobre a terra avermelhada, que já se fende de sede. Nas estradas brancas que o trem corta ou acompanha, uma poeira calcária rola em redemoinhos baixos e empalidece os arbustos. O murmúrio de uma febre agradável zumbe sem cessar em meus ouvidos, como o de um enxame distante.

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