Capítulo 60 - E se só isso fosse urgente?
Capítulo 60 - E se só isso fosse urgente?
Nîmes, Montpellier, Carcassonne, Toulouse: quatro dias sem repouso, e quatro noites. Chega-se, lava-se o rosto, come-se, mima-se, dança-se ao som de uma orquestra insegura que soletra a partitura, deita-se, vale a pena?, e parte-se de novo. Emagrecemos de fadiga e ninguém se queixa. O orgulho antes de tudo.
Mudamos de music-hall, camarim, hotel, quarto, com indiferença de soldados em manobras. A caixa de maquiagem descasca e mostra a lata. Os figurinos enfraquecem e exalam, limpos às pressas com benzina antes do espetáculo, um cheiro azedo de pó de arroz e petróleo. Repinto de carmim minhas sandálias vermelhas, rachadas, de A Dominação; minha túnica de Dríade perde sua nuance ácida de gafanhoto e prado verde.
Brague está esplêndido de sujeiras coloridas; sua calça búlgara, em couro bordado, rígida de sangue artificial que a respinga todas as noites, parece pele de boi recém-esfolado. O Velho Troglodita assusta em cena, sob uma peruca de estopa que descama e peles de lebre desbotadas, malcheirosas.
Sim, dias muito duros, em que ofegamos entre um céu azul, varrido por raras nuvens longas, magras, como cardadas pelo mistral, e uma terra que estala de sede e se fende. E eu tenho dupla carga. Meus dois companheiros, quando desembarcam na cidade nova, aliviam o ombro da correia que o dobra e não pensam mais, leves, senão no chope espumoso, no passeio sem rumo. Para mim, há a hora da correspondência. A correspondência, as cartas de Max.
Nos escaninhos envidraçados, sobre as mesas gordurosas onde o porteiro espalha os papéis com o dorso da mão, vejo logo, eletricamente, a escrita redonda e florida, o envelope azulado. Adeus, repouso.
— Dê-me. Essa aí. Sim, sim, estou dizendo que é para mim.
Meu Deus, que há lá dentro? Recriminações, súplicas, ou talvez apenas: chego?
Esperei quatro dias a resposta de Max à minha carta de Nîmes. Durante quatro dias, escrevi-lhe ternamente, escondendo minha profunda agitação sob uma gentileza verbosa, como se houvesse esquecido aquela carta. De tão longe, somos obrigados a um diálogo epistolar muito frouxo; melancolizamos aos pedaços, em pequeno infortúnio. Quatro dias esperei a resposta de Max, impaciente e ingrata quando encontrava apenas a longa caligrafia inglesa, antiquada e graciosa, da minha amiga Margot, o minúsculo garrancho do velho Hamond, os cartões-postais de Blandine.
Ah, essa carta de Max, enfim a tenho. Leio-a com uma palpitação conhecida demais, que uma lembrança torna mais dolorosa: não houve em minha vida um tempo em que Taillandy, o homem que nenhuma mulher jamais abandonou, como dizia, se enfureceu de repente com minha ausência e meu silêncio e me escreveu cartas de amante? A simples visão de sua escrita acerada me empalidecia, e eu sentia meu coração pequenino, redondo e duro, saltando, como hoje, como hoje.
Amassar esta carta de Max sem lê-la, aspirar o ar como um enforcado que soltam a tempo, e fugir. Mas não posso. É apenas uma tentação breve. É preciso ler.
Bendito seja o Acaso. Meu amigo não compreendeu. Acreditou tratar-se de uma crise de ciúme, de um alarme coquete de mulher que quer receber, do homem amado, a garantia mais lisonjeira e formal. Ele me dá essa garantia, e não posso deixar de sorrir, pois louva sua alma querida ora como uma irmã muito respeitada, ora como uma bela égua.
Você será sempre a mais bela. Ele o escreve como pensa, sem dúvida. Mas poderia responder outra coisa? Talvez, no momento de escrever essas palavras, tenha levantado a cabeça e olhado diante de si a floresta profunda, com uma hesitação, uma suspensão imperceptíveis do pensamento. Depois terá sacudido os ombros, como quando se sente frio, e escrito bravamente, lentamente: você será sempre a mais bela.
Pobre Max. O melhor de mim mesma parece conspirar contra ele agora. Anteontem, partíamos ao amanhecer, e eu retomava, desde o vagão, meu repouso em migalhas, rompido e recomeçado vinte vezes, quando um hálito salgado, cheirando a alga fresca, reabriu meus olhos. O mar. Sète, e o mar.
Ele estava ali, ao longo de todo o trem, reaparecido quando eu já não pensava nele. O sol das sete horas, ainda baixo, não o penetrava; ele se recusava a ser possuído, conservando, mal desperto, uma esplêndida tinta noturna de tinta azul, aveludada, cristada de branco.
Salinas desfilavam, margeadas por um gramado de sal cintilante, e vilas adormecidas, brancas como o sal, entre seus loureiros escuros, seus lilases e suas árvores-de-judas. Meio adormecida, como o mar, abandonada ao balanço do trem, eu acreditava rasar, num voo cortante de andorinha, as ondas próximas.
Saboreava um desses momentos perfeitos, uma dessas felicidades de doente sem consciência, quando uma memória súbita, uma imagem, um nome, fez de mim outra vez uma criatura comum, a da véspera e dos dias precedentes. Por quanto tempo, pela primeira vez, eu acabara de esquecer Max? Sim, esquecê-lo como se nunca tivesse conhecido seu olhar nem a carícia de sua boca; esquecê-lo como se não houvesse cuidado mais imperioso na minha vida que procurar palavras, palavras para dizer quanto o sol é amarelo, azul o mar, brilhante o sal em franja branca. Sim, esquecê-lo como se nada houvesse de urgente no mundo além do meu desejo de possuir com os olhos as maravilhas da terra.
Foi nessa mesma hora que um espírito insidioso me soprou: e se não houvesse de urgente, de fato, senão isso? Se tudo, fora isso, não passasse de cinzas?