Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 8 A Vagabunda · Capítulo 71 de 77
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Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 8

Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 8

De manhã, Lise encontrou a fita preta sobre a mesa como se fosse uma acusação. Não era grande: menos de um palmo, enrolada em si mesma, com uma ponta brilhante de uso. Ainda assim ocupava o quarto inteiro.

Esquecera de entregá-la a Madame Sorel. Esquecera por causa de Derval, de Céleste, do capitão, da frase escrita no recibo. Mas esquecimento era luxo de quem tinha margem. Lise começava a viver sem margem nenhuma.

Guardou a fita no bolso, junto da carta. Depois retirou tudo e dispôs sobre a cama: a carta da desconhecida, a flor de tecido, o recibo com a frase, as moedas, a fita. Aquilo parecia pouco para uma vida. Parecia muito para uma fuga.

Na pensão, a senhoria cobrou o quarto antes mesmo de cumprimentá-la.

— Hoje não aceito metade.

— Pagarei à noite.

— À noite todos são ricos.

— Deixe minhas coisas.

A mulher olhou para a cama estreita, para a bolsa quase vazia, para os sapatos cansados.

— Que coisas?

A pergunta foi cruel porque era prática. Lise pagou com quase tudo que tinha e saiu sem café. Na rua, o vento parecia mastigar as orelhas dos pobres com preferência especial.

Chegou ao café-concerto cinco minutos atrasada.

Madame Sorel esperava.

— Ah.

Nada em sua voz era alto. Isso piorava.

— Desculpe, madame.

— Trouxe a fita?

Lise entregou-a.

— Esqueci ontem.

— Eu sei. Se tivesse perdido, inventaria. Esquecer é mais grave. Mostra que outra coisa ocupou lugar.

— Derval me parou.

— Derval para muita gente. Nem todos levam minha fita embora.

Lise aceitou a pancada sem defender-se. A defesa, ali, quase sempre aumentava a pena.

— Hoje você não fica na bilheteria no primeiro horário — disse Madame Sorel. — Vai ao guarda-roupa. Costura colchetes, separa luvas, confere o que entra e o que sai. Se faltar alguma coisa, paga.

— Não sei costurar bem.

— Então aprenderá mal e depressa, como todo mundo.

O guarda-roupa ficava atrás dos camarins, um cômodo comprido cheio de vestidos pendurados, caixas tortas, plumas cansadas e cheiros sobrepostos: suor, violeta, pó, umidade, ferro quente. Uma mulher de braços fortes, chamada Irma, colocou diante de Lise uma cesta de luvas.

— Pares. Brancas com brancas, pretas com pretas, rasgadas naquela pilha, roubáveis nesta gaveta.

— Roubáveis?

— As bonitas demais. Tudo que é bonito demais cria vocação em mão alheia.

Lise separou luvas até os dedos ficarem ásperos. A ausência da bilheteria a inquietava. Na janelinha, ao menos via o que vinha. No guarda-roupa, o mundo chegava em pedaços: um riso no corredor, uma discussão atrás da porta, a música quebrada do ensaio, o patron chamando nomes como quem chama contas.

Céleste entrou perto das seis, sem chapéu, o olho ainda marcado sob o pó.

— Castigo?

— Fita esquecida.

— Sorel tem imaginação administrativa.

— Ela está certa.

Céleste pegou um par de luvas e examinou os dedos.

— Cuidado com esse gosto por dar razão a quem manda. Vicia.

Lise quase sorriu.

— Você vai cantar hoje?

— Sempre se canta. Mesmo quando a boca fica fechada.

Irma resmungou:

— Filosofia não costura botão.

Céleste devolveu as luvas e saiu. Antes de atravessar a porta, voltou-se.

— O capitão perguntou seu nome ao patron.

Lise sentiu a agulha picar o dedo.

Uma gota de sangue surgiu, redonda e viva, na ponta do indicador.

— Meu nome?

— O seu verdadeiro.

— Ele não sabe.

— Ninguém sabe até saber.

Irma olhou para a gota de sangue.

— Não manche a renda.

Lise levou o dedo à boca. O gosto de ferro acordou nela uma memória de infância: joelho ralado, sal, uma mulher dizendo que menina direita não corre. Retirou o dedo e continuou a costurar.

Às sete e meia, Madame Sorel apareceu.

— Caixa.

Lise ergueu-se depressa demais.

— Agora?

— Você queria castigo eterno? Isso é privilégio de casamento ruim.

Na bilheteria, os talões já estavam separados. A fila começava. Lise sentiu quase gratidão pela janelinha, e isso a irritou. Ninguém deveria agradecer por voltar ao lugar onde era observada.

O público veio mais áspero naquela noite. Chovia. Gente molhada entrava com menos paciência, como se a água lhe desse direito a grosseria. Dois homens discutiram por causa de uma mesa. Uma mulher exigiu desconto porque o chapéu pingava. Um estudante tentou pagar com moeda falsa e ficou ofendido quando Lise percebeu.

— A menina tem olho de polícia — disse ele.

— Tenho olho de caixa.

Madame Sorel, atrás, não elogiou. Mas também não corrigiu.

Quando Derval chegou, veio sozinho. Comprou azul, não vermelho. Isso, de algum modo, pareceu cálculo.

— Boa noite, Lise.

— Dois francos.

— Azul custa menos.

— Um franco e vinte.

— Então você ainda sabe corrigir homens.

Ela destacou o bilhete.

— Corrijo contas.

Derval deixou a quantia exata.

— O capitão achou seu silêncio ofensivo.

— Silêncio não tem endereço.

— Tem, quando mira bem.

A fila crescia atrás dele.

— Monsieur vai entrar?

— Hoje, sim. Amanhã, talvez não.

— O espetáculo muda?

— As pessoas mudam antes dos espetáculos.

Ele entrou. Lise percebeu que a mão esquerda tremia. Escondeu-a sob o balcão e continuou cobrando com a direita.

Mais tarde, ao conferir a caixa, encontrou no fundo da gaveta um papel dobrado. Não estava ali antes. Olhou para Madame Sorel, que discutia com um fornecedor no corredor. Desdobrou-o com cuidado.

Havia apenas três palavras: Boulogne. Armand. Perguntar.

Lise deixou de ouvir a sala.

Por um momento, tudo voltou: a estação das Tintelleries, a mesa, os bilhetes, Armand dizendo que havia escolhido um apartamento claro, como se luz fosse consentimento. Viu também a mulher desconhecida deixando a carta, sem saber que outra mulher a usaria como fósforo.

Dobrou o papel e o colocou dentro do corpete, separado da carta. Não o misturaria com ela. Nem todas as coisas mereciam o mesmo abrigo.

Octave apareceu no intervalo, os cabelos úmidos de chuva.

— Você viu fantasma?

— Não.

— Pior. Viu conta.

Lise olhou para ele.

— Quem sabe meu nome inteiro?

O rosto dele perdeu a graça.

— Aqui?

— Aqui.

— Você disse a alguém?

— À pensão. Talvez ao chegar. Não lembro.

— Todo mundo lembra tarde demais da primeira mentira que esqueceu de contar.

— Derval sabe de Boulogne.

Octave encostou-se à parede.

— Então ele perguntou fora daqui.

— A quem?

— Estações falam, porteiros falam, criadas falam, homens falam mais ainda quando pensam que estão comprando silêncio.

— O que faço?

Ele olhou para a gaveta da bilheteria, para o caderno, para os talões.

— O que você faz bem. Conta.

— Dinheiro?

— Tudo. Quem vem com quem. Quem deve. Quem pergunta. Quem muda de mesa. Quem paga demais. Quem paga exato quando quer assustar.

Lise ficou imóvel.

— Anotar?

— Anotar é perigoso.

— E não anotar?

— Também. Mas a memória de gente cansada é uma criada infiel.

Ele tirou do bolso um livrinho de capa mole, menor que a palma da mão, usado, com algumas páginas arrancadas.

— Achei no cenário antigo. Era de ponto. Agora pode ser de susto.

Lise recebeu o caderno.

— Por que me ajuda?

Octave respirou fundo, como se a resposta fosse uma mala pesada.

— Porque você ainda faz perguntas antes de virar parte dos móveis.

— Isso não é motivo.

— É o único decente que tenho.

Ele saiu antes que ela agradecesse.

No restante da noite, Lise trabalhou com dois livros: o oficial, aberto sobre a mesa, e o pequeno, escondido sob um lenço. Não escrevia frases. Escrevia sinais.

Derval azul sozinho. Capitão ausente. Jornalista bebe sem pagar. Céleste evita mesa três. Patron fala com fornecedor de chuva. Sorel vê tudo.

Cada anotação era uma agulha. Pequena. Talvez inútil. Mas agulhas também fechavam rasgos.

Quando a caixa fechou, faltavam dois cêntimos. Madame Sorel olhou a gaveta, depois Lise.

— Melhor que ontem.

— Pior que amanhã.

Madame Sorel estreitou os olhos.

— Não faça frases com esperança dentro. Dá azar.

Pagou-lhe com desconto. Lise aceitou. A punição tinha sido cumprida, mas a fita preta continuava na mente como nó.

Na saída, a chuva diminuíra. Céleste fumava sob a marquise, embora segurasse o cigarro como quem não gostava dele.

— Você está com cara de quem descobriu uma gaveta.

— Talvez.

— Cuidado. Gaveta guarda faca e carta de amor com a mesma paciência.

Lise quase contou sobre o bilhete. Não contou.

— Como se guarda uma fuga? — perguntou.

Céleste soprou a fumaça.

— Mudando o esconderijo antes que alguém aprenda seu gesto.

No quarto, Lise fez isso. Tirou a carta do corpete, retirou de dentro dela a flor, o recibo e a frase. Separou tudo. A carta foi para dentro da bainha solta do vestido azul. A flor, para a sola quebrada do sapato que já não servia. O recibo, entre duas tábuas frouxas junto à cama. O bilhete com Boulogne e Armand, ela queimou na vela.

Assistiu o papel escurecer até virar borda vermelha e cinza. Não sentiu alívio. Só uma espécie de limpeza dura.

Depois abriu o pequeno caderno de Octave e escreveu na primeira página:

Quem pergunta por meu passado quer alugar meu medo.

Na segunda página, começou a lista.

Derval.

Capitão.

Patron.

Senhoria.

Armand.

Parou antes de escrever Céleste. Parou antes de escrever Madame Sorel. Parou antes de escrever Octave.

Havia nomes que eram ameaça. Havia nomes que eram dívida. Havia nomes que ainda esperavam categoria.

Fechou o caderno e, pela primeira vez desde que chegara a Paris, não o escondeu perto do coração. Escondeu debaixo da tábua solta, onde o medo respiraria mais longe.

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