Capítulo 10 - A mulher de aço
Capítulo 10 - A mulher de aço
Dizem: ela morreu de desgosto. Ela está morrendo de desgosto. Convém ouvir tais frases com uma piedade desconfiada, porque uma mulher raramente morre disso. É uma criatura mais difícil de matar do que se imagina. O desgosto, que deveria roê-la por dentro, muitas vezes lhe fabrica nervos que não se gastam, um orgulho que não se dobra e uma arte de esperar em silêncio.
Na dor escondida, ela aprende a dissimular. Cresce por dentro como quem se exercita todos os dias em uma ginástica perigosa. Há uma tentação sempre próxima, quase doce pela nitidez com que se oferece: vingar-se. Às vezes, fraca demais ou amorosa demais, a mulher mata. Então o mundo se espanta com a resistência que ele mesmo ajudou a formar.
Os juízes se cansam antes dela. As audiências se estendem, as perguntas voltam, os olhares a medem, e ela permanece ali, pálida talvez, mas inteira, endurecida por uma paciência antiga que ninguém viu. Alguém acaba murmurando: ela é de aço. Não. Ela é mulher, simplesmente. E isso basta.
Depois que não voltei, couberam-me a solidão, a liberdade, o trabalho agradável e penoso de mímica e dançarina, os músculos felizes e exaustos, e uma preocupação nova que descansava da outra: ganhar por mim mesma o almoço, o vestido, o aluguel. Havia nisso uma pobreza vigilante, mas também uma limpeza. Nada me era dado pelo homem que me feria. Nada precisava ser pago com submissão.
Recebi junto, é claro, a desconfiança selvagem. Um nojo quase físico do meio em que eu havia vivido e sofrido. Medo do homem, dos homens, e também das mulheres. Um desejo doentio de ignorar o que acontecia ao redor, de manter perto apenas seres elementares, gente ou bichos que pensassem pouco, que não trouxessem junto a complicação das intenções.
Veio-me ainda uma estranheza: só me sentia isolada e defendida dos meus semelhantes quando estava no palco. Ali, diante da luz, cercada por música, pó, cenário e olhares, eu me julgava mais protegida do que em qualquer quarto fechado. Como uma Brunilda desenganada, já não temia sequer Siegfried. A barreira de fogo me guardava contra todos.
Outro domingo. Como o frio claro sucedera ao frio escuro, Fossette e eu tomamos nossa recreação higiênica no Bois, entre onze horas e meio-dia. Depois do almoço haveria matinê, e a manhã precisava ser aproveitada depressa. Essa cadela me arruína. Sem ela, eu teria ido de metrô. Com ela, pago o táxi e recebo, em troca, três francos de prazer.
Fossette é negra como uma trufa e brilha ao sol como se tivesse sido lustrada para entrar em cena. O bosque inteiro lhe pertence. Ela o toma com roncos pequenos e indecorosos, latidos lançados às folhas secas, corridas súbitas em que seus olhos saltam de alegria e sua língua aparece como uma flâmula ridícula.
Belo domingo, bonito Bois de Boulogne. É nossa floresta, nosso parque, de Fossette e meu, vagabundas urbanas que quase não conhecem mais o campo, salvo no verão. Ela corre mais depressa do que eu, mas eu caminho mais depressa do que ela. Quando não brinca de trem de cintura, desenfreada e torta, segue-me num trote descontínuo que faz rir os passantes.
Um nevoeiro fino, rosado, filtra o sol. Das relvas descobertas sobe um vapor prateado com cheiro de cogumelo. A velete cola no meu nariz, o frio corta a pele, e meu corpo, aquecido pela corrida, avança com uma alegria animal. Que mudou em mim desde os vinte anos? Numa manhã de inverno como esta, no auge da juventude, eu não era mais forte, nem mais flexível, nem mais feliz no corpo.
Posso acreditar nisso enquanto dura a corrida. Na volta, a fadiga me desmente. Já não é a mesma fadiga. Aos vinte anos eu teria gozado sem pensamento dessa lassidão breve, quase adormecida. Hoje, a fadiga começa a ficar amarga. Parece uma tristeza do corpo, uma pequena notícia que os músculos dão antes que a alma aceite lê-la.
Fossette nasceu cadela de luxo e de palco. Apaixona-se pelo tablado e tem a mania de querer subir em todos os automóveis de gente rica. No entanto, quem me vendeu essa pequena atriz foi Stéphane-le-Danseur, camarada da minha caixa no Empyrée-Clichy.
Stéphane é um gaulês louro a quem a tuberculose rói um pouco a cada ano. Vê derreterem os bíceps, as coxas rosadas, os peitorais de que tinha justo orgulho. Já trocou a luta pela dança, pela patinação de rodinhas e pelas aulas que dá entre um número e outro. Também cria buldogues de apartamento, como se a vida precisasse sempre de mais uma mercadoria frágil para ser oferecida no corredor.
Ele tosse muito neste inverno. À noite, muitas vezes entra em meu camarim, tosse, senta-se e me propõe a compra de alguma cadela extraordinária que não ganhou prêmio por inveja dos juízes. Pobre Stéphane. Hoje, ao chegar ao corredor subterrâneo furado por boxes quadrados, encontro-o justamente quando deixa o palco. Cintura fina, ombros largos, apertado no dólmã verde-murta de falso chinchila, ainda é um belo espelho para mulheres, mesmo quando a doença já passa a mão por trás do vidro.