Capítulo 13 - Sem a barreira de fogo
Capítulo 13 - Sem a barreira de fogo
Uma soirée. Um cachê em casa alheia. Essas palavras têm o dom de me desmoralizar. Não ouso dizer a Brague, mas confesso a mim mesma diante do espelho, olhando minha cara de enterro e sentindo um pequeno arrepio de covardia prender a pele das costas.
Rever aquele mundo. Eles. Aqueles que deixei violentamente, que antes me chamavam Madame Renée com a afetação delicada de nunca me dar o nome do meu marido. Eles, e elas. Elas que me traíam com Adolphe, eles que me sabiam traída.
Já passou o tempo em que eu via em toda mulher uma amante atual ou provável de Adolphe Taillandy. Os homens, por sua vez, nunca assustaram muito a esposa apaixonada que fui. Mas conservei um terror estúpido e supersticioso dos salões onde posso encontrar testemunhas ou cúmplices da minha antiga desgraça.
O cachê em cidade estraga primeiro meu almoço a sós com Hamond, pintor já fora de moda, meu velho amigo fiel e frágil, que vem de vez em quando comer massas cozidas em minha mesa. Falamos pouco. Ele apoia no encosto da poltrona a cabeça de Dom Quixote doente e, depois do almoço, brincamos de nos causar tristeza.
Ele me fala de Adolphe Taillandy, não para me ferir, mas para evocar o tempo em que ele, Hamond, era feliz. Eu lhe falo de sua jovem e cruel mulher, tomada em casamento com loucura e fugida quatro meses depois com alguém que já nem importa nomear.
Compramos assim tardes inteiras de melancolia negra. Saímos delas exaustos, a face envelhecida, a boca seca de repetir tantas coisas desoladoras, jurando não recomeçar. No sábado seguinte nos reencontramos à minha mesa, contentes e incorrigíveis: Hamond traz uma anedota inédita sobre Adolphe, e eu tiro de uma gaveta, para vê-lo fungar lágrimas, uma fotografia em que seguro pelo braço a pequena senhora Hamond, loura, agressiva, reta como uma serpente apoiada na própria cauda.
Mas esta manhã nosso almoço não anda. Hamond, alegre e gelado, trouxe-me belas uvas negras de dezembro, de um azul de ameixa, cada grão uma pequena bolsa cheia de água doce e insípida. Mesmo assim, a maldita soirée escurece o dia inteiro.
À meia-noite e um quarto, Brague e eu chegamos à avenue du Bois. Belo hotel. Deve-se entediar ali suntuosamente. O criado imponente que nos conduz ao salão reservado aos artistas oferece ajuda para tirar meu casaco de pele. Recuso com aspereza. Acha ele que vou esperar o prazer desses senhores e senhoras vestida de quatro colares azuis, um escaravelho alado e alguns metros de gaze?
Muito mais bem-educado do que eu, o criado não insiste e nos deixa a sós. Brague se alonga diante de um espelho. Sob a máscara branca, dentro da ampla roupa de Pierrot, parece de uma magreza imaterial. Ele também não gosta de cachê em salão. Não que a barreira de fogo lhe faça tanta falta quanto a mim, mas estima pouco o que chama de cliente dos salões, e devolve ao espectador mundano um pouco da indiferença maldosa que recebe dele.
— Você acredita — diz, estendendo-me um pequeno cartão — que essa gente algum dia será capaz de escrever meu nome direito? Puseram Bragne no programa.
Ferido no fundo, desaparece por trás de uma cortina verde, comprimindo a boca fina e vermelha, porque outro criado imponente acaba de chamá-lo, com cortesia, pelo nome estropiado.
Dentro de quinze minutos será minha vez. Olho-me e me acho feia, privada da eletricidade crua que, no camarim, cobre as paredes brancas, banha os espelhos, penetra e aveluda a maquiagem. Haverá tapete sobre o estrado? Terão se dignado, como diz Brague, a arranjar uma pequena ribalta? A peruca de Salomé aperta minhas têmporas e reforça a enxaqueca. Tenho frio.
— É tua vez, minha velha. Vai lá entregar tua pequena mercadoria.
Brague já voltou, já enxugou a máscara branca riscada de suor, já vestiu o casaco enquanto fala.
— Gente fina, dá para ver. Não fazem muito barulho. Conversam, claro, mas não riem alto demais. Toma, aqui estão dois francos e quinze pela minha parte do táxi. Eu vou embora.
— Não me espera?
— Para quê? Você vai para os Ternes e eu para Montmartre. Não combina. E amanhã dou aula às nove. Boa noite. Até amanhã.
Então é minha vez. A pequena pianista raquítica está no posto. Enrolo ao redor do corpo, com uma mão nervosa de medo, o véu que constitui quase todo o figurino, redondo, violeta e azul, quinze metros de volta.
A princípio não distingo nada através da trama fina da minha gaiola de gaze. Meus pés nus, conscientes, tateiam a lã curta e dura de um belo tapete persa. Não há ribalta.
Um breve prelúdio desperta e torce a crisálida azulada que represento, desata lentamente meus membros. Aos poucos, o véu se afrouxa, infla, voa, cai, e me revela aos olhos dos que estão ali, que se calaram para me olhar depois de sua tagarelice furiosa.
Eu os vejo. Apesar de mim, vejo-os. Ó chama protetora, quem poderia obrigar-te a nascer sob meus pés? Dançando, rastejando, girando, eu os vejo, e reconheço alguns rostos.