Capítulo 24 - No Olympe's bar
Capítulo 24 - No Olympe's bar
— Venha comer hoje à noite no Olympe — disse-me Brague no ensaio. — Depois a gente vai dar boa-noite aos colegas da revista, no Empyrée-Clichy.
Não me engano: não se trata de um convite para jantar. Somos dois camaradas, e o protocolo, pois há um, da camaradagem entre artistas bane qualquer ambiguidade.
Encontro Brague, portanto, no Olympe's bar, de reputação duvidosa. Duvidosa? Preocupo-me muito com isso. Libertada do cuidado com minha reputação, atravesso sem apreensão e sem prazer a soleira desse pequeno restaurante de Montmartre, silencioso das sete às dez, trepidante no resto da noite de um barulho bastante fabricado, feito de gritos, louças e guitarras.
Eu vinha jantar aqui algumas vezes, depressa, sozinha ou com Brague, no mês passado, antes de seguirmos para o Empyrée-Clichy.
Uma criada provinciana, pacífica e lenta no meio dos chamados, serve-nos esta noite carne salgada com repolho, papa saudável, volumosa, pesada para os estômagos debilitados das pobres pequenas prostitutas do bairro, que comem perto de nós, sozinhas, com esse ar feroz que têm, diante de um prato cheio, os animais e as mulheres insuficientemente alimentados.
Ah, o lugar nem sempre é alegre.
Brague, zombeteiro e no fundo apiedado, comenta duas mulheres que acabaram de entrar: jovens, magras, com chapéus idiotas balançando sobre os cachos. Uma delas impressiona, com uma postura de cabeça de insolência furiosa. Sua magreza revoltada parece quase graciosa dentro de uma bainha estreita de liberty rosa, comprada de segunda mão. Nesta noite glacial de fevereiro, ela tem por abrigo uma espécie de capa leve, também de liberty, azul, bordada de prata, já desbotada.
Está gelada, enlouquecida de frio, e seus olhos cinzentos, exasperados, repelem qualquer compaixão. Parece pronta a insultar e arranhar o primeiro que disser, enternecido: pobre menina.
A espécie não é rara neste país montmartrois: essas moças que morrem de miséria e orgulho, belas em seu desnudamento ruidoso. Encontro-as aqui e ali, arrastando seus trapos leves de mesa em mesa nos serões da Butte, alegres, bêbadas, raivosas, a dentada pronta, nunca doces, nunca ternas, amuadas contra o ofício e trabalhando mesmo assim.
Os homens as chamam de pequenas desgraçadas com um riso de desprezo satisfeito, porque elas pertencem à raça que não cede, que não confessa fome, frio nem amor; que morre dizendo não estou doente; que sangra sob os golpes, mas devolve.
Sim, conheço um pouco essas mulheres. É nelas que penso olhando a pequena criatura congelada e orgulhosa que acaba de entrar no Olympe, como se elas me dessem um ensinamento vago, um exemplo contra toda fraqueza.
Um meio silêncio faminto reina no bar. Dois rapazes maquiados trocam réplicas pontudas de uma ponta à outra da sala, sem convicção. Uma menina baixa, que janta uma menta com água enquanto espera o jantar improvável, devolve-lhes a fala com moleza. Uma cadela buldogue, prenha a ponto de estourar, respira com esforço sobre o tapete puído, o ventre redondo marcado de tetas salientes.
Brague e eu conversamos, amolecidos pelo calor do gás. Penso em todos os restaurantes medíocres de todas as cidades que nos viram assim à mesa, cansados, indiferentes e curiosos, diante de comidas estranhas. Brague opõe aos vinhos ruins dos bufês de estação e dos hotéis um estômago de bronze; eu, se a vitela burguesa ou o cordeiro à moda da casa resistem aos meus dentes, recupero-me no queijo e na omelete.
— Diga, Brague. Aquele homem de costas não é Stéphane, o Dançarino?
— Onde? É sim. Com uma mulher.
Uma tal mulher, de fato, que fico estupefata diante daquela morena cinquentona de lábio sombreado. Como se sentisse nosso olhar, Stéphane vira-se de lado para nos lançar um daqueles olhares de entendimento que, no teatro, significam segredo, mistério, e que são discretos o bastante para serem vistos por uma sala inteira.
— Pobre sujeito — murmura Brague. — Está ganhando o dinheiro dele. O café, senhorita, e vamos embora.
O café é uma tinta negro-oliva, que deixa nas paredes das xícaras uma mancha tenaz. Mas, de tanto não beber bom café, adquiri o gosto dessas tisanas quentes, amargas, cheirando a alcaçuz e quinino. No nosso ofício, passa-se sem carne; sem café, não.
Por mais depressa que nos sirvam, Stéphane, o Dançarino, vai embora antes de nós, pois patina na revista do Empyrée-Clichy, atrás de sua madura companheira. Sem vergonha, esboça para nós, às costas dela, o gesto do atleta que levanta duzentos quilos, e temos a covardia de rir.
Depois deixamos esse lugar triste que chamam de prazer, onde tudo cochila a esta hora sob as lâmpadas rosadas: a cadela prenha, as meninas exaustas, a criada camponesa e o gerente de bigodes encerados.