Capítulo 49 - Cinquenta por cento
Capítulo 49 - Cinquenta por cento
Adeus, meu amigo amado. A mala está fechada. Minha bela bolsa em couro de porco, meu traje de viagem, o longo véu escuro que envolverá meu chapéu, esperam meu despertar de amanhã, alinhados sobre nosso grande divã, tristes e obedientes. Já partida, abrigada de você, abrigada da minha própria fraqueza, dou-me a alegria de escrever minha primeira carta de amor.
Você receberá este bilhete amanhã de manhã, justamente na hora em que eu deixar Paris. Não é nada além de um adeus, um até logo escrito antes de dormir, para que saiba que o amo tanto, que me prendo tanto a você. Estou desolada por deixá-lo.
Não esqueça que me prometeu escrever o tempo todo e consolar Fossette. Eu prometo trazer de volta uma Renée cansada de rodar, emagrecida de solidão e livre de tudo, salvo de você.
Sua.
A sombra rápida de uma ponte passa sobre minhas pálpebras fechadas. Abro os olhos e vejo fugir, à esquerda do trem, o pequeno campo de batatas que conheço tão bem, encolhido contra a muralha alta das fortificações.
Estou sozinha no vagão. Brague, severamente econômico, viaja em segunda classe com o Velho Troglodita. Um dia chuvoso, fraco como uma aurora cinzenta, pesa sobre o campo onde a fumaça das fábricas se arrasta. São oito horas, e é a primeira hora da primeira manhã da minha viagem. Depois de um breve abatimento que sucedeu a agitação da partida, eu caíra numa imobilidade carrancuda que me fazia esperar o sono. Ai de mim.
Levanto-me para proceder, maquinalmente, aos preparativos de velha viajante: estendo a manta de pelo de camelo, inflo os dois travesseiros de borracha cobertos de seda, um para os rins, outro para a nuca, e escondo os cabelos nus sob um véu acobreado como eles. Faço isso metodicamente, cuidadosamente, enquanto uma cólera indizível e súbita torna minhas mãos trêmulas.
Uma verdadeira fúria, sim, e contra mim mesma. Parto. Cada volta da roda me afasta de Paris. Parto, enquanto uma primavera gelada perola em botões duros na ponta dos carvalhos. Tudo está frio, úmido de uma neblina que ainda cheira a inverno. Parto quando poderia, a esta hora, florescer de prazer contra o flanco quente de um amante.
Parece-me que minha cólera cava em mim um apetite devorador por tudo que é bom, luxuoso, fácil, egoísta. Uma necessidade de me deixar rolar pela encosta mais macia, de fechar os braços e os lábios sobre uma felicidade tardia, tangível, comum e deliciosa.
Tudo me é fastidioso nesta periferia conhecida, nestas vilas pálidas onde burguesas de camisola bocejam, levantando tarde para encurtar os dias vazios. Eu não deveria ter deixado Brague. Deveria ter permanecido com ele no capitonê azul-sujo dos compartimentos de segunda classe, entre a conversa cordial, o cheiro humano do vagão cheio, a fumaça dos cigarros baratos.
O ta-ta-lam do trem, que ouço contra a vontade, serve de acompanhamento ao motivo de dança da Dríade, que cantarolo com obstinação maníaca. Quanto tempo vai durar este estado de diminuição? Pois me sinto diminuída, enfraquecida, como sangrada.
Nos meus dias mais tristes, a visão de uma paisagem medíocre, desde que fugisse rápida à minha direita e à minha esquerda, desde que se velasse por instantes numa fumaça desenrolada e cardada nas sebes de espinho, agia sobre mim como um tônico curador. Hoje, não. Tenho frio. Um mau sono da manhã me entorpece, e creio mais desmaiar que adormecer, agitada por sonhos aritméticos, infantis, nos quais retorna esta pergunta cansativa: se deixei lá longe metade de mim mesma, perdi então cinquenta por cento do meu valor primitivo?