Capítulo 43 - Presa
Capítulo 43 - Presa
— O que acha disso, diga, Grande-Serino querido?
Ele chegou ali muito suavemente, tão presente já ao meu coração que continuo, com ele, meu exame de consciência.
— O que acha da criança que nós teríamos? É Hamond que quer uma, imagine.
Meu amigo abre uma boca de Pierrot, toda redonda e estupefata, arregala olhos enormes e exclama:
— Magnífico. Viva Hamond. Ele terá seu menino. Agora mesmo, Renée, se você quiser.
Defendo-me, pois ele me empurra da pior e da melhor maneira, mordendo um pouco, beijando muito, com aquele ar faminto que me dá exatamente o medo necessário.
— Uma criança — grita ele —, uma pequena nossa. Eu não tinha pensado nisso. Renée, como Hamond é inteligente. Essa ideia é genial.
— Acha, meu querido? Bruto egoísta que você é. Não se importa nem um pouco que eu fique deformada, feia, e que eu sofra, não é?
Ele ri ainda e me derruba no divã, mantida na ponta dos braços estendidos.
— Deformada? Feia? Você é que é uma tola, madame. Você ficará magnífica, a criança também, e nós nos divertiremos loucamente.
Cessa de rir de repente e franze as sobrancelhas ferozes sobre os olhos doces.
— E, ao menos, você já não poderia me deixar, nem correr sozinha pelas estradas, hein? Você estaria presa.
Presa. Abandono-me e brinco mollemente com os dedos que me seguram. Mas o abandono é também a astúcia dos fracos. Presa. Ele disse bem, com egoísmo arrebatado. Eu o tinha julgado como ele é quando o chamava, rindo, de burguês monogâmico, pai de família de canto de lareira.
Eu poderia então acabar minha vida pacificamente, aninhada em sua grande sombra? Seus olhos fiéis ainda me amariam quando meus encantos tivessem murchado um palmo? Ah, que diferença, que diferença com o outro.
Salvo que o outro também falava como dono e sabia dizer baixinho, apertando-me com punho rude: ande direito, eu a tenho. Sofro. Tenho dor das diferenças entre eles; tenho dor das semelhanças. E acaricio a testa deste, ignorante, inocente, dizendo-lhe:
— Meu pequeno.
— Não me chame de seu pequeno, querida. Isso me deixa ridículo.
— Eu o deixarei ridículo se quiser. Você é meu pequeno porque é mais jovem que sua idade, porque sofreu muito pouco, amou muito pouco, porque não é mau. Escute-me, meu pequeno: vou partir sem você.
— Não sem mim, Renée.
Como ele gritou. Estremeço de tristeza e de prazer.
— Sem você, meu querido, sem você. É preciso. Escute-me. Não, Max, eu falarei mesmo assim, depois. Escute, Max. Você não quer, então? Não pode me esperar? Não me ama o suficiente?
Ele se arranca de minhas mãos e se afasta de mim violentamente.
— O suficiente? O suficiente? Ah, esses raciocínios de mulher. Eu não te amo o suficiente se te sigo, e não o suficiente se fico. Confesse: se eu tivesse respondido “está bem, querida, vou esperar”, o que teria pensado de mim? E você, que parte quando poderia não partir, como quer que eu acredite que me ama? Aliás...
Ele se planta diante de mim, testa adiante, desconfiado.
— Aliás, você nunca me disse.
— O quê?
— Que me ama.
Sinto-me corar, como se ele me surpreendesse em falta.
— Você nunca me disse — repete, teimoso.
— Oh, Max.
— Você me disse... você me disse: querido, meu Grande-Serino amado, Max, meu amigo querido. Você se queixou em voz alta, como se cantasse, no dia em que...
— Max.
— Sim, naquele dia em que não pôde impedir de me chamar “meu amor”. Mas você não me disse: eu te amo.
É verdade. Eu esperava, loucamente, que ele não percebesse. Um dia, outro belo dia, suspirava tão forte em seus braços que a palavra “te amo” exalou de mim como um suspiro um pouco mais alto, e logo me tornei muda e fria.
Te amo. Não quero mais dizer isso, não quero mais dizer nunca. Não quero mais ouvir essa voz, minha voz de outrora, quebrada, baixa, murmurar irresistivelmente a palavra de outrora. Só que não sei outra. Não há outra.
— Diga, diga que me ama. Diga, eu lhe peço.
Meu amigo se ajoelhou diante de mim, e sua prece imperiosa não me dará repouso. Sorrio para ele de muito perto, como se resistisse por jogo, e tenho de repente vontade de machucá-lo, para que ele também sofra um pouco. Mas ele é tão doce, tão distante da minha dor. Por que carregá-lo com ela? Ele não merece.
— Pobre querido. Não seja mau, não fique triste. Sim, eu o amo. Eu te amo, oh, eu te amo. Mas não quero te dizer. Sou tão orgulhosa, no fundo, se soubesse.
Apoiado ao meu peito, ele fecha os olhos, aceita minha mentira com terna segurança e continua a me ouvir dizer “eu te amo” quando já não falo.