Capítulo 3 - A mulher no espelho A Vagabunda · Capítulo 3 de 77
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Capítulo 3 - A mulher no espelho

Capítulo 3 - A mulher no espelho

O quarto não me oferece consolo. O calor cheira a remédio, a cadela resmunga da cesta sem mover o corpo, Blandine esqueceu a bolsa de água quente e a noite inteira parece ter sido montada para me lembrar que, por mais barulho que eu atravesse no palco, volto sempre a este silêncio.

Posso procurar debaixo da cama, atrás da porta, nos cantos mal iluminados: não há ninguém. O grande espelho já não devolve a cigana pintada do music-hall. Devolve apenas a mulher limpa demais, cansada demais, privada do disfarce que a ribalta faz parecer necessário. E essa mulher sou eu, sem número, sem luz, sem orquestra que a salve.

Não vou escapar esta noite ao velho interrogatório. Sozinha, e para sempre talvez. Sozinha cedo demais. Já passei dos trinta sem me sentir arruinada por isso, porque meu rosto vale menos pela regularidade dos traços do que pela vida que ainda passa por ele: a cor do olhar, o riso desconfiado, esse ar de bicho que aprendeu a escapar e, ainda assim, se lembra melhor da jaula do que da floresta.

Há dias em que a solidão me embriaga. Neles, viver sem dono nem testemunha parece o luxo mais claro do mundo. Mas há outros em que ela sabe a tônico ruim, e outros ainda em que vira veneno, sobe pela garganta e bate a cabeça da gente contra as paredes. Esta noite, não sei que forma ela vai tomar. Só sei que, quando eu me deitar entre lençóis frios, o estremecimento do corpo talvez seja medo, talvez prazer, talvez apenas hábito.

Brague já me disse, com a rudeza dos homens práticos, que eu vivo só porque quero. E é verdade. Quero. Quero mesmo. Mas querer não impede a vertigem. Querer não anula o instante em que uma mulher sente o peso da própria liberdade como se segurasse um copo forte demais para mãos já cansadas.

Olho para mim e vejo uma figura torta de exaustão: boca desencorajada, ombros frouxos, cabelos pedindo escova, unhas mal limpas do vermelho do palco. Ainda preciso de um longo banho, de um minucioso trabalho de restauração, como se também em casa eu tivesse de remontar o personagem antes que ele desabe de todo. E, no entanto, ninguém vai me chicotear de volta à vida. Não há espectador, amante, marido, criado devoto. Há só essa mulher que precisa recomeçar a partir de si mesma.

Talvez por isso eu me fale tanto por dentro. Converso com a cadela, com o fogo, com o reflexo, como fazem os reclusos e os velhos prisioneiros. Sou livre, repito. Livre. Mas a liberdade, quando não encontra em que se gastar, inventa manias de cela. Ritma os pensamentos, redige frases, ensaia diálogos com o vazio. Não falo sozinha por loucura; falo para dar forma ao que, sem isso, me esmagaria.

Do outro lado do espelho mora ainda aquela definição alheia que nunca me perdoaram: uma mulher de letras que se desviou, que fez teatro, que desceu para o café-concerto. Não me chamam atriz. Não me devolvem plenamente o nome da profissão que escolhi. Continuo sendo, para muitos, uma escritora mal desviada de sua via correta. É curioso: não escrevo mais, quase não me autorizo o luxo de escrever, mas sigo julgada por esse antigo parentesco com as palavras.

Escrever. O verbo ainda me fere como uma sede. Escrever seria esquecer a hora, deixar a mão correr atrás da imagem exata, perder-se no prazer inútil e soberano de fixar um brilho, uma frase, um inseto verbal que pousa e foge. Mas escrever pede tempo, e o tempo é justamente o que meu trabalho consome antes que eu possa transformá-lo em outra coisa. O desejo volta de vez em quando como coceira em cicatriz: breve, agudo, humilhante.

Entre o palco e a página, entre o corpo alugado à cena e a inteligência que ainda sonha em redigir a si mesma, permaneço suspensa. Talvez eu seja isto, afinal: uma mulher que resiste sem síntese, sustentada pela disciplina de trabalhar e pela insolência de continuar pensando.

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