Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 12 A Vagabunda · Capítulo 75 de 77
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Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 12

A primeira manhã no quarto de Mercedes não começou com luz, mas com ruído.

Havia, no andar de baixo, uma mulher cantando escalas como quem afia uma faca; mais longe, no pátio, um homem ralhava com um cavalo que não devia compreender francês nem ameaças. Lise acordou antes que alguém batesse à porta. Durante alguns segundos não soube onde estava. O teto era baixo, a parede tinha manchas de umidade em forma de ilhas, e havia, sobre uma cadeira, um xale vermelho com franjas que parecia observar a hóspede como uma dona de casa desconfiada.

Depois ela se lembrou.

A pensão ficara para trás. A mala de Boulogne também. O nome, esse, ainda não.

Mercedes dormia de lado, uma das mãos debaixo do rosto, os cabelos negros espalhados pelo travesseiro. Lise levantou-se devagar para não acordá-la e foi até a bacia. A água estava fria. Quando molhou a nuca, sentiu uma clareza rude, quase cruel, como se o corpo lhe dissesse que nenhuma decisão tomada à noite valia ainda de manhã enquanto não fosse repetida em silêncio.

Ela vestiu o mesmo vestido escuro do dia anterior e amarrou os cabelos com pressa. No espelho pequeno, rachado no canto, viu uma moça cansada demais para parecer fugitiva e limpa demais para parecer trabalhadora antiga da casa. Era uma aparência perigosa: a de quem ainda podia ser reconhecida.

- Assim não - disse uma voz atrás dela.

Mercedes abrira os olhos. Não parecia surpresa por encontrar outra mulher em seu quarto. Parecia apenas ofendida pela escolha do penteado.

- Assim o quê?

- Assim, tudo. O cabelo, a gola, essa cara de quem pede licença à própria sombra. Sorel vai consertar.

Lise quase sorriu.

- Sorel conserta mulheres?

- Não. Homens, às vezes. Mulheres, ele disfarça. É mais honesto.

Pouco depois, Sorel chegou trazendo pão, café aguado e um embrulho de tecido. Bateu uma vez e entrou antes que alguém respondesse, como se a porta fosse uma sugestão teatral. Trazia no rosto a alegria prática dos que gostam de uma emergência porque ela lhes dá permissão para ordenar o mundo.

- Bom. De pé.

- Eu estou de pé - disse Lise.

- Está de pé como filha de alguém. Precisamos que esteja de pé como ninguém.

Ele abriu o embrulho. Havia um avental cinzento, uma blusa usada e uma saia mais curta que a de Lise, remendada junto à barra.

- Isto cheira a sabão e cebola - observou Mercedes.

- Perfeito. Ninguém persegue uma moça que cheira a cebola.

Lise tocou o tecido áspero. Não sentiu humilhação. Sentiu uma coisa mais estranha: alívio. O vestido que trouxera de Boulogne parecia, de repente, uma carta aberta. Cada botão contava alguma coisa sobre a casa do pai, sobre os horários da estação, sobre a educação recebida para não ocupar espaço. A blusa remendada não contava nada. Ou melhor: contava uma mentira útil.

- Vista - disse Sorel. - E prenda o cabelo mais baixo. Mulheres que têm medo prendem alto, para não sentir calor. Mulheres que trabalham prendem baixo, porque não têm tempo de pensar nisso.

Lise obedeceu. Mercedes levantou-se, ajeitou-lhe o lenço na nuca, puxou uma mecha para fora e inclinou a cabeça, avaliando.

- Agora ela parece capaz de mentir por necessidade.

- É o primeiro degrau da liberdade - disse Sorel.

- Não diga frases bonitas antes do café - resmungou Mercedes.

Desceram um por vez. No corredor, Lise ouviu vozes atrás de portas, tosse, risos, uma discussão em espanhol que terminava em gargalhada. Aquela casa possuía uma intimidade barulhenta, sem pudor, onde ninguém parecia ter tempo de vigiar inteiramente a vida alheia. Talvez por isso fosse menos perigosa que a pensão respeitável.

Céleste esperava no fundo do café, perto da porta dos fundos. Tinha os olhos marcados de sono e uma disposição seca.

- Vautrin esteve aqui cedo - disse ela. - Teu irmão foi à pensão.

A palavra irmão atravessou Lise como uma mão fria.

- Ele me viu?

- Não. Viu madame Lenoir, o que talvez seja pior para ele. Ela chorou, acusou a cidade, acusou as moças modernas, acusou o preço do carvão e disse que você saiu sem pagar duas velas.

Sorel serviu café em quatro xícaras lascadas.

- Excelente. Uma dívida pequena torna qualquer fuga mais verossímil.

Céleste não riu.

- Ele não veio sozinho.

Lise pousou a xícara.

- Meu pai?

- Não. Um homem de sobrecasaca clara. Derval acha que é advogado ou coisa parecida. Falava pouco e olhava as janelas.

Derval entrou nesse instante, como se tivesse sido chamado por vaidade. Tirou o chapéu, cumprimentou Céleste com uma inclinação mínima e olhou Lise já transformada pelo avental.

- Melhor - disse. - Mas não basta. O nome ainda te encontra.

- O nome não anda sozinho.

- Anda com dinheiro, mademoiselle. E dinheiro tem pernas excelentes.

Mercedes cruzou os braços.

- Veio assustá-la ou ajudar?

- Hoje, as duas coisas cobram o mesmo preço.

Derval sentou-se sem convite. Falava baixo, e isso obrigava os outros a se aproximarem.

- Armand Marvan perguntou em duas casas perto da estação. Pagou informação inútil e recebeu, em troca, três mentiras e um endereço velho. Por enquanto está perdido. Mas trouxe consigo uma certeza: pensa que a irmã quer ser encontrada antes de ser manchada.

Lise ergueu o rosto.

- Manchada?

- A palavra foi dele, segundo o cocheiro que o trouxe.

A sala pareceu diminuir. Lise já conhecia a moral daquela palavra. Em Boulogne, ela era dita sem precisar ser dita: uma mulher podia perder o futuro por ter sido vista no lugar errado, no horário errado, com a pessoa errada, ou sozinha demais para que alguém inventasse uma pessoa. O medo da mancha servia para manter as filhas dentro de casa e as esposas dentro do casamento. Servia, também, para que um irmão se julgasse salvador quando era apenas carcereiro com luvas novas.

- Ele acha que eu vou agradecer - disse Lise.

- Naturalmente - respondeu Derval. - Homens como teu irmão confundem obediência com gratidão. É um erro confortável.

Antes que alguém respondesse, bateram à porta lateral. Céleste fez sinal para que Lise ficasse atrás do balcão. Um rapaz entrou com uma carta na mão, o boné apertado contra o peito.

- Para mademoiselle Élise Marvan. Disseram que podia estar aqui.

Ninguém se moveu por um segundo.

O nome antigo ocupou a sala com uma autoridade indecente. Mercedes olhou para Lise. Sorel, para a porta. Derval sorriu de leve, não por achar graça, mas por reconhecer uma peça nova no tabuleiro.

- Quem disse? - perguntou Céleste.

- Um senhor no boulevard. Pagou dois sous. Disse que era assunto de família.

- Família paga mal para invadir a vida dos outros - disse Céleste. Pegou a carta. - Pode ir.

O rapaz hesitou.

- Tem resposta?

Lise saiu de trás do balcão. O avental cinzento roçou a madeira.

- Ainda não. Espere lá fora.

Quando a porta se fechou, todos olharam para o envelope. A letra era de Armand: firme, limpa, educada até na ameaça. Lise reconheceu a inclinação das maiúsculas, o modo como ele escrevia o sobrenome com orgulho doméstico, como se cada letra tivesse sido paga pelo pai.

Ela abriu a carta.

Minha irmã,

Não tornarei pública a tua imprudência se aceitares voltar imediatamente. Pai está disposto a perdoar o excesso de nervos, contanto que nenhum escândalo nos obrigue a medidas mais duras. Venho buscar-te antes que tua reputação seja danificada por companhias que não compreendes. Não confundas abandono com liberdade. Uma mulher sem casa passa logo a pertencer à rua.

Armand.

Lise leu até o fim sem alterar a expressão. Depois leu de novo, mais devagar, como se procurasse alguma frase que doesse menos por engano. Não havia. A carta era toda feita da mesma matéria: cuidado usado como corda.

Mercedes arrancou-a de sua mão e leu em voz alta, tropeçando um pouco no francês formal. Ao terminar, cuspiu uma palavra espanhola que ninguém pediu para traduzir.

- Que delicadeza - disse Sorel. - Ele ameaça com gramática correta.

Derval estendeu a mão.

- Posso ficar com ela. É prova.

- Não - disse Lise.

A própria firmeza a surpreendeu. Dobrou a carta, colocou-a sobre o balcão e pegou o envelope.

- Ele mandou isto para Élise Marvan.

Céleste compreendeu antes dos outros.

- E ela?

Lise virou o envelope pelo lado limpo. Pediu uma caneta. Sorel encontrou uma atrás das garrafas. A pena estava ruim; arranhou o papel na primeira palavra. Ainda assim, Lise escreveu sem pressa:

Élise Marvan não reside mais onde foi deixada.

Assinou apenas L.M.

Derval soltou um assobio baixo.

- Isso vai irritá-lo.

- Melhor que iludi-lo.

- Irritar um homem com direito de família pode custar caro.

Lise secou a tinta com o sopro.

- Ser encontrada também.

Céleste pegou o envelope, chamou o rapaz e lhe entregou a resposta sem a carta de Armand.

- Diga ao senhor que recebeu da pessoa indicada. Nada mais. Se ele perguntar como ela estava, diga que estava trabalhando.

O rapaz assentiu, confuso, e saiu correndo.

Por um momento ninguém falou. A resposta já estava fora da sala e, com ela, uma parte da prudência. Lise sentiu medo. Não o medo antigo, imóvel, que a fazia esperar ordens, mas um medo vivo, quase muscular, que pedia movimento. Havia uma diferença entre ser perseguida e responder ao perseguidor. A primeira coisa podia acontecer a qualquer uma. A segunda criava autoria.

Derval levantou-se.

- Agora ele saberá que você não está sozinha.

- Estou? - perguntou Lise.

A pergunta saiu antes que ela pudesse torná-la mais leve. Céleste desviou os olhos para as xícaras. Mercedes fingiu ajustar o xale. Sorel sorriu, mas desta vez sem frase pronta.

Foi Vautrin quem respondeu, entrando pela porta dos fundos com o casaco molhado de garoa.

- Ninguém está sozinha quando incomoda gente suficiente.

Ele trazia notícias. Armand mudara de hotel, o homem de sobrecasaca clara perguntara pelo teatro das Variétés, e o capitão que procurava Madeleine fora visto perto do mercado Saint-Martin. As ameaças, portanto, haviam aprendido a circular.

- O que fazemos? - perguntou Céleste.

Vautrin olhou para Lise.

- Primeiro, ela trabalha.

Mercedes protestou.

- No salão? Com os homens entrando?

- No fundo. Lavando copos, carregando pão, ouvindo sem parecer que ouve. Uma mulher escondida demais parece segredo. Uma mulher ocupada parece mobília.

Lise assentiu.

Durante o resto do dia, suas mãos conheceram uma nova espécie de cansaço. Lavou copos engordurados, levou pratos a uma mesa de costureiras, cortou pão, recolheu guardanapos, aprendeu que os homens que falavam mais alto eram quase sempre os que pagavam mais tarde. Duas vezes ouviu o nome Marvan vindo da rua e sentiu o estômago cair, mas era outro assunto, outro homem, outra família. O mundo, descobriu, estava cheio de nomes capazes de ferir pessoas diferentes.

No fim da tarde, Derval voltou. Trouxe apenas uma frase:

- Ele recebeu.

Lise parou com um copo na mão.

- E?

- Rasgou o envelope. Guardou os pedaços. Isso quer dizer que sentiu o golpe e pretende usá-lo como prova.

- Prova de quê?

- De insolência. De influência alheia. De desvio. Eles encontrarão palavra melhor. Sempre encontram.

A noite caiu sobre Paris com um brilho úmido nas pedras. Quando finalmente subiu ao quarto, Lise encontrou Mercedes costurando uma fita no vestido de cena. A espanhola não perguntou nada. Apenas apontou para o caderno.

- Escreve. Se não escrever, amanhã vai parecer sonho.

Lise sentou-se perto da janela. A mão doía. A pena falhou duas vezes. Na terceira, a frase apareceu inteira:

Hoje meu nome chegou antes de mim. Eu o mandei embora.

Ela ficou olhando a linha até que as letras deixassem de tremer. Lá embaixo, alguém começou a cantar. Não era bonito, mas era forte. Pela primeira vez desde Boulogne, Lise não desejou silêncio.

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