Capítulo 47 - Promiscuidade
Capítulo 47 - Promiscuidade
Não, a turnê não o aborrece; mas a mim, sim, um pouco. Minhas coisas de music-hall são pobres coisas, precisas, comerciais, às quais eu não gostaria de misturar meu amigo, meu querido amigo preguiçoso.
Brague, muito gentil quando quer, sorri para Max.
— O senhor permite? É a cozinha do ofício que estamos preparando aqui, e me gabo de ser um cozinheiro econômico, que não deixa nada se perder e não faz a alça dançar.
— Mas por favor — exclama Max. — Ao contrário, isso vai me divertir, eu que não conheço nada. Vou me instruir.
Mentiroso. Para um homem a quem isso diverte, tem ar bem mau e bem triste.
— Retomo — começa Brague. — Na última turnê, a de setembro, nós comemos, se você lembra, até dez e onze francos de excesso de bagagem por dia, como se fôssemos Carnegie.
— Não o tempo todo, Brague.
— Não o tempo todo. Houve dias de três francos, de quatro francos de excesso. Já é demais. Da minha parte, estou farto. O que você tem de bagagem além da mala de mão?
— Meu baú preto.
— O grande? É delírio. Não quero.
Max tosse.
— Eis o que você vai fazer: usará o meu. Em cima, figurinos de cena. Segundo compartimento: nossa roupa branca, suas camisas, suas calças, suas meias, minhas camisas, meus ceroulões, et cetera.
Max se agita.
— E, no fundo, sapatos, roupa de troca para você e para mim, miudezas, et cetera. Entendeu?
— Sim, não é bobo.
— Entretanto... — diz Max.
— Desse modo — prossegue Brague — temos um só volume grande. O Troglodita que se arranje; a mãe dele, que trabalha com plumas, lhe emprestará um cesto. Um, no total. Supressão do excesso, redução das gorjetas aos carregadores das estações, aos rapazes de teatro, et cetera. Se não economizarmos cem sous por dia cada um, aceito virar tenor. Você troca de roupa branca de quanto em quanto tempo, em turnê?
Fico vermelha por causa de Max.
— A cada dois dias.
— Isso é com você. Como se lava roupa nas grandes cidades, Lyon, Marselha, Toulouse, Bordeaux, conto doze camisas e doze calcinhas, o resto em proporção. Sou grande e generoso? Enfim, confio em você para ser razoável.
— Fique tranquilo.
Brague se levanta, aperta a mão de Max.
— Vê que se despacha depressa, monsieur. E você: encontro na estação, às sete e quinze, terça-feira de manhã.
Acompanho-o até a antessala e, quando volto, uma tempestade de protestos, lamentações e censuras me acolhe.
— Renée, isso é monstruoso. Não é possível. Você perdeu a cabeça. Suas camisas, suas camisas, e suas calcinhas curtas, meu amor querido, misturadas aos ceroulões desse indivíduo. E suas meias com as dele, talvez. E tudo isso para economizar cem sous por dia. Que derrisão e que miséria.
— Como, que miséria? Isso dá duzentos francos.
— Ora, eu sei. Uma mesquinharia dessas.
Contenho uma resposta que o feriria: onde teria aprendido, a criança mimada, que o dinheiro, o dinheiro que se ganha, é uma coisa respeitável, séria, que se maneja com solicitude e de que se fala gravemente?
Ele enxuga a testa com um belo lenço de seda violeta. Há algum tempo, meu amigo demonstra extremo cuidado de elegância: camisas magníficas, lenços combinados às gravatas, sapatos com polainas de camurça. Não deixei de notar, pois o menor detalhe de traje ganha, nesse querido Grande-Serino de nuca um pouco pesada, uma importância quase chocante.
— Por que consente nisso? — pergunta ele, acusador. — É odiosa, essa promiscuidade.
Promiscuidade. Eu esperava a palavra. Usa-se muito: a promiscuidade dos bastidores.
— Diga-me, querido — afino entre dois dedos as pontas de seu bigode sedoso, de um negro tostado —, se fossem suas camisas e seus ceroulões, não seria promiscuidade? Pense bem: sou apenas uma pequena café-concerto muito razoável, que vive do seu ofício.
Ele me aperta de repente e me esmaga um pouco, de propósito.
— Que o diabo carregue seu ofício. Ah, quando eu a tiver inteiramente para mim, você verá. Eu lhe darei vagões de luxo, flores enchendo o bagageiro, vestidos e vestidos, e tudo que eu encontrar de belo, e tudo que eu inventar.
Sua bela voz sombria enobrece a promessa banal. Ouço vibrar, sob as palavras comuns, o desejo de pôr aos meus pés o universo inteiro.
Vestidos? É verdade, ele deve achar severa e monótona minha crisálida neutra de tailleurs cinzentos, marrons, azul-escuros, que troco, quando a ribalta se acende, por gazes pintadas, paetês luminosos, saias irisadas, rodopiantes.
Vagões de luxo? Para quê? Não vão mais longe que os outros.