Capítulo 6 - Quarenta dias sem pensar
Capítulo 6 - Quarenta dias sem pensar
Brague esfrega as mãos como quem acaba de fechar uma conta boa. Estamos bem, diz ele. Quarenta dias sem pensar. Para ele, isso é uma bênção operacional: o espetáculo agrada, a casa respira, a revista nova ainda não exige pânico. Quarenta dias de rotina, entradas, saídas, maquilagem, aplausos, cansaço e nenhum abismo a nomear.
Eu quase o invejo. Não pensar: que talento raro. Eu tenho quarenta dias, tenho o ano inteiro, tenho talvez a vida inteira para pensar. Pensar no que faço com esses dons que me concedem com uma polidez envernizada: mímica precisa, dicção limpa, corpo impecável. A lista é gentil. Gentil demais, até. Mas gentileza também pode ser uma sala sem porta. Para onde tudo isso leva?
Vejo chegar uma crise escura com a regularidade de uma velha conhecida. Não me assusto. Conheço suas fases, seus truques, seus horários. Ela sobe primeiro como uma névoa no peito, depois aperta o pensamento, depois tenta me convencer de que nada começa nem termina. Sei que vou vencê-la outra vez, e sei também que ninguém vai perceber. Há dores que uma mulher de palco aprende a esconder melhor do que um erro de luz.
Brague me observa de lado, com aquele olho pequeno que fura mais do que pergunta. Só encontra uma frase banal: você está na lua, hein? Talvez eu esteja. Talvez a lua seja apenas o nome que os outros dão ao lugar para onde fugimos quando o corpo continua obedecendo e a alma se atrasa.
De volta à loge, lavo as mãos tingidas de um vermelho de groselha. A água leva a cor aos poucos, como se eu tivesse acabado de tocar em alguma cena violenta. Diante do espelho, encontro a outra: a conselheira pintada, a mulher artificial que me olha com uma gravidade quase inimiga. Medimo-nos em silêncio, dignas uma da outra. Ela conhece meus disfarces. Eu conheço sua crueldade.
Sofrer, lamentar, prolongar pela insônia as horas mais profundas da noite: nada disso me será poupado. E, no entanto, caminho para esse território com uma espécie de alegria fúnebre, a serenidade resistente de quem ainda é jovem o bastante para aguentar e velha o bastante para saber o nome do golpe. Duas disciplinas me salvaram muitas vezes: esconder o pensamento e escurecer os cílios.
Batem à porta. Respondo para entrar sem pensar, ainda presa à conversa muda com meu reflexo. Não é Brague. Não é a velha camareira. É um desconhecido: alto, seco, escuro, a cabeça descoberta, o corpo inteiro inclinado numa cortesia rígida demais para ser natural.
Ele dispara uma frase ensaiada. Veio me aplaudir durante a semana, pede desculpas pela visita inconveniente, diz admirar meu talento, minha presença, minha figura. Procura palavras nobres para um gesto que não tem nobreza nenhuma. Fico calada. Estou úmida de suor, sem fôlego ainda, o vestido meio aberto, as mãos mal secas. Olho para ele com tanta ferocidade que a frase morre antes de encontrar um fim digno.
Penso se devo dar-lhe uma bofetada. Marcaria em suas faces ossudas os dedos ainda molhados de água avermelhada. Penso se devo gritar e jogar contra aquela figura angulosa, de bigode escuro, o vocabulário que os bastidores e a rua ensinam depressa. Mas há nele qualquer coisa que interrompe a minha violência: olhos tristes, fundos, quase de carvão apagado.
Talvez meu silêncio diga o bastante. O homem muda de expressão. Reconhece, tarde demais, que foi tolo e grosseiro. Pede que eu o ponha para fora, mas não antes de deixar aos meus pés uma homenagem respeitosa. Inclina-se outra vez como quem vai embora. E não vai. Espera meio segundo pelo benefício do arrependimento, pequeno cálculo masculino que me irrita justamente porque funciona.
Digo então com doçura seca o que teria dito com brutalidade um minuto antes: vá embora. Sorrio até, quase boa menina, indicando a porta. Ele não sorri. Fica ali, a testa avançada, o punho fechado, desajeitado e quase ameaçador, como um lenhador vestido para uma sala que não lhe pertence. A luz bate nos cabelos escuros, lisos demais, enquanto os olhos escapam no fundo das órbitas.
Ele não ri porque me deseja. E esse desejo não me oferece prazer algum; pesa nele como uma arma carregada no lugar errado. Ele não me quer bem. Ele me quer. A diferença é suficiente para tornar o ar pequeno.
Pergunto se não vai embora. Ele desperta, apressado, cobre-se de desculpas, e eu termino por ele a fórmula polida que já vinha tropeçando. A piada não vale muito, mas ele ri enfim. Por um instante perde aquele ar duro que me desarmava. Tenta ainda pedir outra coisa. Não deixo. Empurro-o para fora com a ponta do dedo, lembrando-lhe que estou molhada, cansada, prestes a adoecer se continuar dentro daquele vestido que me ferveu o corpo.
Quando falo em tirar o vestido, a sombra retorna ao rosto dele. Fecho a porta e passo a chave. Do outro lado, sua voz abafada ainda insiste: queria saber se gosto de flores, e quais. Respondo que me deixe em paz. Não lhe pergunto seus poetas favoritos, nem se prefere o mar ou a montanha. Quero apenas que vá embora.
Finalmente, silêncio. Esse grande homem desastrado, bruto e quase simples, teve ao menos uma utilidade: cortou a crise escura. Por hoje, já é alguma coisa.