Capítulo 37 - Messalina ao meio-dia A Vagabunda · Capítulo 37 de 77
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Capítulo 37 - Messalina ao meio-dia

Capítulo 37 - Messalina ao meio-dia

Será preciso falar com Margot, confessar-lhe o acontecimento, esse golpe de sol que incendeia minha vida. Pois está feito: nós nos amamos. Está feito e, além disso, estou resolvida.

Mandei ao diabo todas as minhas lembranças-e-lamentos, minha mania, como digo, do filigrana sentimental, e meus se, meus pois, meus mas, meus entretanto.

Vemo-nos a toda hora. Ele me arrasta, me atordoa com sua presença, impede-me de pensar. Decide, quase ordena, e eu lhe faço, ao mesmo tempo que a homenagem da minha liberdade, a do meu orgulho, pois tolero que chegue à minha casa uma abundância gastadora de flores, de frutos do verão próximo. E trago, presa ao pescoço, uma pequena flecha cintilante, como se cravada na garganta, toda sangrante de rubis.

E, no entanto, não somos amantes.

Paciente agora, Max se impõe e me impõe noivados estranhamente deprimentes que, em menos de uma semana, já nos deixaram um pouco mais magros e lânguidos. Não é vício nele: é coqueteria de homem que quer se fazer desejar e deixar-me, ao mesmo tempo e por quanto tempo eu quiser, um falacioso livre-arbítrio.

Não me resta grande coisa a desejar, aliás. Agora tremo apenas diante desse ardor ignorado, surgido de mim ao primeiro contato, sempre selvagemente pronto a obedecê-lo.

A hora que nos juntará por inteiro, sim, ele tem razão em adiá-la. Sei agora tudo o que valho e a magnificência do dom que ele receberá. Seu desejo mais exaltado eu ultrapassarei, tenho certeza. Que ele colha um pouco, se quiser, de seu pomar.

E ele quer muitas vezes.

Para meu prazer e para minha inquietação, o acaso pôs nesse rapaz grande, de beleza simples e simétrica, um amante sutil, criado para a mulher, tão adivinhador que sua carícia parece pensar ao mesmo tempo que meu desejo. Ele me faz lembrar, e enrubesço, a frase de uma pequena camarada luxuriosa do music-hall, que me gabava a habilidade de um novo amante:

— Minha cara, a gente mesma não faria melhor.

Mas será preciso avisar Margot. Pobre Margot, que esqueço. Quanto a Hamond, desapareceu. Sabe tudo, graças a Max, e se afasta de minha morada como um parente discreto.

E Brague. Ah, a cara de Brague no nosso último ensaio.

Sua mais bela careta de Pierrot acolheu minha chegada no automóvel de Max, mas ele ainda não disse nada. Demonstrou até uma cortesia singular e imerecida, pois naquela manhã fui desajeitada, ausente, pronta a corar e a pedir desculpa.

Enfim, ele explodiu:

— Vá embora. Volte para lá. Tome tudo o que quiser e só reapareça aqui quando estiver satisfeita até aqui.

Quanto mais eu ria, mais ele fulminava, semelhante a um pequeno diabo asiático.

— Ria, vá, ria. Se visse a cara que você está usando.

— Minha cara?

— Ela quer, ela pede, essa sua cara. Não levante esses olhos para mim, Messalina. Vocês estão vendo? — gritava, tomando deuses invisíveis por testemunhas. — Ela mostra esses olhos em pleno meio-dia. E quando eu peço, para a cena de amor da Dríade, que ponha tudo isso no palco, que molhe um pouco esse olhar, ela me aparece com cara de primeira comunhão.

— Dá para ver mesmo? — perguntei a Max, que me levava para casa.

O espelho, o mesmo que outro dia refletiu meu glorioso rosto de derrota, enquadra um rosto afinado, com sorriso desafiante de raposa amável. Não sei que chama, porém, passa e repassa nele, colorindo-o, se posso dizer, com uma juventude esgotada.

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