Capítulo 41 - A anestesia do amor
Capítulo 41 - A anestesia do amor
Meu velho Hamond se obstinava, havia tantos dias, em ficar em casa, alegando reumatismos, gripe, trabalho urgente, que o intimei a correr até mim. Não demorou mais. Sua aparência discreta e desembaraçada, de parente em visita a recém-casados, duplica minha alegria de revê-lo.
Eis-nos em tête-à-tête afetuoso, como antigamente.
— Como antigamente, Hamond. E, no entanto, que mudança.
— Graças a Deus, minha filha. Você vai enfim ser feliz?
— Feliz?
Olho para ele com sincero espanto.
— Não, não serei feliz. Nem penso nisso. Por que eu seria feliz?
Hamond estala a língua; é sua maneira de me repreender. Acredita num acesso de neurastenia.
— Vamos, vamos, Renée. Então não vai tão bem quanto eu imaginava?
Desato a rir, muito alegre.
— Mas sim, Hamond, vai. Vai bem demais. Começamos, receio, a nos adorar.
— Pois então?
— Pois então. O senhor acha que isso basta para me tornar feliz?
Hamond não consegue deixar de sorrir, e é minha vez de me entristecer.
— Em que tormentos o senhor me lançou outra vez, Hamond? Porque foi o senhor, confesse, foi o senhor. Tormentos — acrescento mais baixo — que eu não trocaria pelas melhores alegrias.
— Ao menos — exclama Hamond, aliviado —, você está salva desse passado que ainda fermentava em você. Eu estava cansado, francamente, de vê-la sombria, desconfiada, recolhida na lembrança e no medo de Taillandy. Perdoe-me, Renée, mas eu teria feito coisas bem feias para presenteá-la com um novo amor.
— Verdade? Acha que um novo amor, como o senhor diz, destrói a lembrança do primeiro, ou a ressuscita?
Desconcertado pela aspereza da minha pergunta, Hamond não sabe o que dizer. Tocou tão desajeitadamente meu ponto doente. E, além disso, é apenas um homem: não sabe. Deve ter amado tantas vezes que já não sabe mais. Sua consternação me enternece.
— Não, meu amigo, não sou feliz. Sou melhor ou pior que isso. Apenas não sei de modo algum para onde vou. Preciso lhe dizer isso antes de ser inteiramente amante de Maxime.
— Ou sua mulher.
— Sua mulher?
— Por que não?
— Porque não quero.
Minha resposta precipitada adiantou-se ao raciocínio; o animal salta para longe da armadilha antes de tê-la visto.
— Isso não tem importância, aliás — diz Hamond, negligente. — É a mesma coisa.
— O senhor acredita que é a mesma coisa? Para o senhor, talvez, e para muitos homens. Mas para mim. Lembre-se, Hamond, do que foi o casamento para mim. Não, não se trata das traições, o senhor se engana. Trata-se da domesticidade conjugal, que faz de tantas esposas uma espécie de babá para adulto.
Procuro as palavras, e elas vêm rápidas demais.
— Ser casada é tremer para que a costeleta do senhor não esteja passada demais, a água mineral não esteja morna, a camisa não esteja mal engomada, o colarinho não esteja mole, o banho não esteja fervendo. É assumir o papel exaustivo de intermediária, de amortecedor, entre o mau humor do senhor, a avareza do senhor, a gulodice, a preguiça do senhor.
— Você esquece a luxúria, Renée — interrompe Hamond docemente.
— Ora, não esqueço. O papel de mediadora, eu digo, entre o senhor e o resto da humanidade. O senhor não pode saber, Hamond, foi tão pouco casado. O casamento é: amarre minha gravata; ponha a criada na rua; corte minhas unhas dos pés; levante-se para me fazer camomila; prepare-me um clister. É: dê-me meu terno novo e arrume minha mala para que eu possa correr ao encontro dela. Intendente, enfermeira, ama-seca. Basta, basta, basta.
Acabo rindo de mim e da longa expressão escandalizada do meu velho amigo.
— Meu Deus, Renée, como você me entristece com essa mania de generalização. “Neste país, todas as criadas são ruivas.” Nem sempre se casa com Taillandy. E lhe juro que, da minha humilde parte, eu teria corado de pedir a uma mulher um desses pequenos serviços que... Bem ao contrário.
Bato palmas.
— Ótimo. Vou saber tudo. Bem ao contrário. Tenho certeza de que o senhor não tinha igual para abotoar botinhas ou tirar os fios de uma saia-tailleur. Ai de mim, nem todo mundo pode se casar com Hamond.
Depois de um silêncio, retomo com verdadeiro cansaço.
— Deixe-me generalizar, como o senhor diz, apesar da única prova de que ainda me sinto exausta. Já não sou bastante jovem, nem bastante entusiasmada, nem bastante generosa para recomeçar o casamento, a vida a dois, se preferir. Deixe-me esperar, enfeitada, ociosa, sozinha no meu quarto fechado, a vinda daquele que me escolheu para harém. Eu gostaria de saber dele apenas sua ternura e seu ardor. Eu gostaria, enfim, de querer do amor somente o amor.
— Conheço muita gente — diz Hamond depois de um silêncio — que chamaria esse amor de libertinagem.
Dou de ombros, irritada por me fazer compreender tão mal.
— Sim — insiste Hamond —, libertinagem. Mas, para mim, que a conheço um pouco, eu adivinharia antes em você uma paixão quimérica, pueril, pelo irrealizável: o casal amoroso, prisioneiro de um quarto morno, isolado por quatro paredes do resto da terra. É o sonho familiar de uma mocinha muito ignorante da vida.
— Ou de uma mulher já madura, Hamond.
Ele protesta com um gesto evasivo e polido, e esquiva uma resposta direta.
— Em todo caso, minha querida filha, isso não é amor.
— Por quê?
Meu velho amigo joga fora a cigarreta com um movimento quase arrebatado.
— Porque sim. Você me disse agora há pouco: o casamento é, para a mulher, uma domesticidade consentida, dolorosa, humilhada; o casamento é “amarre minha gravata, prepare-me um clister, vigie minha costeleta, suporte meu mau humor e minhas traições”. Era preciso dizer amor, e não casamento. Porque é apenas o amor que torna fácil, alegre, gloriosa, a servidão de que você fala.
Ele se anima, e sua voz perde a reserva.
— Você a odeia agora, você a renega, você a vomita, porque já não ama Taillandy. Lembre-se do tempo em que, por amor, a gravata, o banho de pés, a camomila se tornavam símbolos sagrados, reverenciados e terríveis. Lembre-se de seu papel miserável. Eu tremia de indignação ao vê-la empregada em cumplicidades quase de alcoviteira entre Taillandy e suas amigas; mas, no dia em que perdi toda discrição e toda paciência, você me respondeu: amar é obedecer.
Hamond me olha como se exigisse de mim uma honestidade que não sei se ainda possuo.
— Seja franca, Renée, seja lúcida. Diga-me se todas as suas imolações não valem mais, aos seus olhos, desde que recuperou o livre-arbítrio. Você as avalia agora pelo preço justo porque já não ama. Antes, eu a vi em ação, conheço você. Antes, no pior tempo das suas aceitações tristes, até das suas cumplicidades, não gozava inconscientemente da misericordiosa anestesia que o amor dispensa?