Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 2
Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 2
Élise não voltou para casa. Essa foi a primeira coisa verdadeiramente sua que fez na vida, e quase riu ao perceber como era uma ação pobre: não voltar. Nenhum gesto heroico, nenhuma porta batida, nenhuma declaração diante da mãe e do retrato de Armand. Apenas a recusa de seguir a rua conhecida.
Às quatro e dez, entregou a caixa dos bilhetes ao guarda noturno, disse que o tio mandara conferir uma encomenda no depósito, e atravessou o pátio com o mesmo passo de sempre. A mentira funcionou porque era pequena. As grandes mentiras exigem teatro; as pequenas se parecem com obediência.
O ar cheirava a carvão molhado. Boulogne ainda dormia, mas o porto nunca dormia de todo. Havia correntes batendo em algum lugar, madeira rangendo, uma voz que xingava em inglês, o grito de uma ave invisível. Élise caminhou sem mala. Quem foge sem mala parece menos fugitiva, pensou. Parece apenas atrasada.
Trazia no bolso três francos e quarenta, uma escova de cabelo, o canivete pequeno que usava para raspar cera do balcão e a carta da desconhecida escondida junto ao peito. Isso lhe pareceu, por alguns minutos, equipamento suficiente para atravessar o mundo.
Depois sentiu frio.
O frio teve o bom senso de chegar antes do remorso. Entrou pelas mangas, pelo pescoço, pelos sapatos úmidos, e a fez pensar em coisas práticas: comida, assento, o preço do bilhete até Paris. A liberdade, vista de perto, tinha dedos azuis.
Na bilheteria principal, comprou passagem com um colega sonolento que mal ergueu os olhos.
— Vai a Paris, Élise?
— Meu tio pediu.
Ele carimbou o papel sem curiosidade. Mais uma mentira pequena, mais uma porta aberta.
Só quando guardou o bilhete percebeu que as mãos tremiam. Não era medo de ser impedida. Era medo de não ser. Uma parte absurda dela esperava que o mundo se levantasse em bloco: o tio na porta, a mãe de xale, Armand muito pálido, todos dizendo seu nome com escândalo. Mas ninguém veio. A cidade aceitava perdê-la com uma facilidade ofensiva.
O trem chegou mais sujo que majestoso, cuspindo vapor baixo. Élise entrou num vagão de terceira classe e escolheu o canto mais perto da janela. Havia uma mulher com uma cesta de galinhas coberta por pano, dois soldados adormecidos, um caixeiro lendo jornal de véspera e uma menina de olhos enormes que segurava uma boneca sem braço.
Ninguém lhe perguntou nada. Essa indiferença foi sua primeira paisagem.
Quando o trem se moveu, Élise esperou que alguma coisa dentro dela se quebrasse com barulho. Não aconteceu. A estação escorregou para trás, os postes se repetiram, as casas baixas perderam nome, e ela continuou inteira. Inteira demais. A culpa, que ela imaginara como punhal, era por enquanto uma costura apertada.
Abriu o bilhete no colo, como se precisasse confirmar que o destino estava impresso. Paris. A palavra não lhe prometia felicidade. Prometia anonimato, e isso bastava.
A menina da boneca a observava.
— A senhora vai trabalhar?
Élise quase respondeu que não era senhora. Quase respondeu que não sabia. Em vez disso, disse:
— Vou procurar.
A mãe da menina, atrás da cesta, soltou um riso curto.
— Em Paris, quem procura acha. O problema é o que acha.
Élise sorriu por educação e virou-se para a janela. Campos pálidos começavam a clarear. A madrugada tornava tudo honesto demais: árvores sem folhas, cercas tortas, poças de água metálica, vacas paradas como móveis esquecidos. O mundo não se enfeitava para recebê-la.
Foi então que pensou na mãe. Não na mãe chorando, como convinha a uma filha ingrata imaginar, mas na mãe mexendo o café, percebendo a cadeira vazia, franzindo a testa antes de sentir medo. Esse intervalo a feriu: o instante em que a ausência ainda parece atraso.
Tirou o formulário dobrado do bolso. Minha querida mãe, não me espere para o almoço. Ridículo. Cruel. Infantil. Acrescentou, com o lápis gasto da bilheteria:
Não fugi de você. Fugi do que todos já tinham arrumado para mim.
Leu a frase e sentiu vergonha. Parecia frase de romance barato, desses que as moças compravam escondidas e depois fingiam condenar. Mas era verdadeira, e a verdade raramente se preocupa em parecer distinta.
Dobrou o papel de novo. Mandaria de Paris. Talvez. Se encontrasse coragem para dar endereço à própria desobediência.
O caixeiro fechou o jornal e puxou conversa.
— A senhorita tem família em Paris?
Élise hesitou. A carta da desconhecida queimou contra sua pele, como se aconselhasse silêncio. Mas o silêncio absoluto parecia suspeito.
— Uma prima.
— Em que bairro?
— Montmartre.
Ele a olhou com interesse novo, que ela não soube se era censura ou convite.
— Artista?
Élise pensou em dizer costureira, criada, enfermeira, qualquer coisa limpa. Mas a palavra artista abrira diante dela uma porta inesperada, e por ela entrava um cheiro de pó, gás, perfume barato e cortina.
— Talvez.
O caixeiro riu.
— Ninguém é talvez artista em Montmartre. Ou é, ou passa fome.
Élise não respondeu. Gostou da frase. Era grosseira e clara. A vida inteira lhe tinham oferecido destinos em que a fome não aparecia, mas a alma era posta em regime. Talvez fosse justo experimentar o contrário por algum tempo.
O trem avançava. Cada estação menor parecia uma chance de descer e corrigir tudo. Ela observava as placas, deixava que os nomes passassem, e a cada nome perdido sentia crescer uma coisa que não era coragem ainda, mas se parecia com uma febre útil.
Ao meio-dia, Paris começou antes de Paris: muros, fumaça, terrenos baldios, roupa pendurada, fábricas, janelas demais. Élise apertou o envelope da desconhecida dentro do corpete. Sem aquela carta, talvez tivesse voltado. Com ela, não se sentia guiada; sentia-se autorizada.
Na Gare du Nord, a multidão a engoliu sem esforço.
Por um instante, ela ficou parada sob a abóbada enorme, tonta de barulho e carvão. Ninguém ali sabia seu nome. Ninguém esperava que se casasse. Ninguém lhe devia proteção. Era uma liberdade brutal, quase indelicada.
Élise deu dois passos e percebeu que não sabia para onde ir.
Então riu. Baixinho primeiro, depois com um soluço que era meio riso, meio susto. A primeira vitória era essa: estar perdida por escolha própria.