Capítulo 19 - A omelete vai esfriar A Vagabunda · Capítulo 19 de 77
Obra Menu

Capítulo 19 - A omelete vai esfriar

Capítulo 19 - A omelete vai esfriar

Reencontro meu velho amigo no pequeno salão de trabalho, onde Blandine põe a mesa. Suprimi, de uma vez por todas, essa peça triste e inútil que chamam sala de jantar, habitada uma hora em vinte e quatro. É preciso dizer também que Blandine dorme no apartamento e que um cômodo a mais me custaria caro demais.

— Ah, ah, então você conhece Maxime — exclama Hamond, desdobrando o guardanapo.

Eu esperava por isso.

— Eu? Não o conheço de modo algum. Fiz um cachê em casa do irmão dele, onde o encontrei. Só isso.

Omito, por quê?, a primeira entrevista, a intrusão do Grande Passarão, aquecido, em meu camarim.

— Ele conhece você. E a admira muito. Creio mesmo que esteja apaixonado.

Sutil Hamond. Olho-o com esse sentimento felino, risonho e dissimulado que a ingenuidade masculina nos inspira.

— Ele sabe que você gosta de rosas, de bombons de pistache. Encomendou uma coleira para Fossette.

Dou um salto.

— Encomendou uma coleira para Fossette? Afinal, isso não me diz respeito — digo, rindo. — Fossette é uma criatura sem moralidade. Aceitará, conheço-a o suficiente.

— Falamos de você, naturalmente. Eu a julgava muito amiga dele.

— Oh, Hamond, você saberia.

Meu velho amigo baixa os olhos, lisonjeado em seu ciúme amistoso.

— É um rapaz muito gentil, asseguro.

— Quem?

— Maxime. Conheci a mãe dele, que é viúva, em... vejamos, isso deve fazer trinta, não, trinta e cinco anos.

E lá vamos nós. Sou obrigada a sofrer a história dos Dufferein-Chautel, mãe e filhos. Mulher de comando. É ela que dirige tudo. Serrarias nas Ardenas, hectares de florestas, Maxime um pouco preguiçoso, o mais jovem e o mais mimado dos filhos, muito mais inteligente do que parece, trinta e três anos e meio.

— Ora, como eu.

Hamond inclina-se para mim, por cima da pequena mesa, com atenção de miniaturista.

— Você tem trinta e três anos, Renée?

— Infelizmente.

— Não diga. Ninguém saberá.

— Oh, sei bem que no palco...

— Na rua também não.

Hamond não leva o elogio mais longe e retoma a história dos Dufferein-Chautel. Chupo uvas, descontente. O Grande Passarão se insinua em minha casa mais do que permiti. A esta hora, como de costume, Hamond e eu deveríamos remexer velhas lembranças ruins, que florescem semanalmente no aroma amargo das xícaras fumegantes.

Pobre Hamond. É por mim que ele trai seu hábito fúnebre e querido. Sei bem que minha solidão o faz tremer. Se ousasse, ele me diria, paternal alcoviteiro: eis o amante de que você precisa, minha cara. Boa saúde, não joga, não bebe, fortuna suficiente. Você ainda me agradecerá.

Mais quatro dias e deixarei o Empyrée-Clichy.

Sempre que termino uma temporada um pouco longa no café-concerto, sinto, nos últimos dias, a impressão esquisita de uma libertação que eu não havia desejado. Feliz por estar livre, por viver em casa à noite, demoro no entanto a me alegrar, e o gesto de espreguiçar-se dizendo enfim carece de espontaneidade.

Desta vez, porém, creio alegrar-me sinceramente. Sentada no camarim de Brague, enumero ao meu camarada, que não se importa, os trabalhos urgentes que ocuparão minhas férias.

— Você entende, vou mandar recobrir todos os almofadões do divã. Depois empurro o divã bem para o canto e mando pôr uma lâmpada elétrica em cima.

— Ótimo. Vai parecer casa de encontro — diz Brague, grave.

— Como você é idiota. E, enfim, tenho um monte de coisas a fazer. Há tanto tempo não cuido da minha casa.

— Claro — concorda Brague, impassível. — E para quem tudo isso?

— Como, para quem? Para mim, ora.

Brague desvia um instante o rosto do espelho. Um olho já flutua sozinho no azul da maquiagem, cercado por uma sombra formidável.

— Para você? Para você sozinha? Desculpe, mas acho isso bastante tolo. E você pensa que vou deixar a pantomima dormir? Prepare-se para uma dessas partidas para estabelecimentos de primeira ordem na província e no estrangeiro. Além disso, Salomon, o agente, mandou dizer que você passe por lá.

— Oh, já?

Brague, peremptório, dá de ombros.

— Sim, sim, conheço essa. Oh, já. E se eu dissesse que não há nada a fazer, você ficaria aí como mosquito: quando partimos, quando partimos? Vocês são todas iguais.

— Parece mesmo — aprova uma voz melancólica atrás de nós, a de Bouty.

1/1
Menu

Fazer anotação