Capítulo 20 - Isso não se desenha
Capítulo 20 - Isso não se desenha
Bouty emagreceu ainda mais desde o mês passado. Cansa-se cada vez mais. Olho-o às escondidas, para não feri-lo, mas o que se pode adivinhar sob aquela máscara vermelha, com os olhos cercados de branco?
Ficamos os três calados, escutando por cima de nossas cabeças a voz de Jadin, alegre demais, cortando a sala como uma fita barata. A canção do muguet, maliciosamente cortada no último verso, arranca risadas do público. O compositor sabia seu ofício. Sabia também onde pôr a obscenidade sem que ela parecesse carregada demais.
— Então é daqui a quatro dias que nos mandam embora? — pergunta de repente o pequeno cômico, erguendo a cabeça.
— Daqui a quatro dias. Eu estava me dando bem aqui. A gente fica tão tranquilo.
— Tranquilo? — protesta Bouty, cético. — Há lugares ainda mais tranquilos, a senhora há de encontrar melhor sem dificuldade. Não falo mal do público, mas ele é um pouco canalha, apesar de tudo. Sei, sei, a gente pode se manter em seu lugar em qualquer parte. Mas, mesmo assim, escute essa gritaria. A senhora acha que uma mulher jovem, sem muita cabeça, levada para a farra e para a folia, aprende aqui dentro a se manter?
Ele pensa em Jadin. Não a acusa; quase a defende. Pobre pequeno Bouty, em quem o amor sofrido desperta de repente uma aristocracia. Ele, que vive do mesmo público que o aplaude, inventa sozinho uma teoria solene: a influência dos meios. Eu não acredito nela, mas o deixo com sua descoberta, porque ela o consola.
Os russos partiram. Antonieff, o grão-duque, também levou seus cães. Para onde? Ninguém sabe. Nenhum de nós teve a curiosidade de perguntar. Outros números vieram tomar seus lugares, contratados por sete dias, por quatro, por quase nada, porque a revista se aproxima. Cruzo no palco, nos corredores, rostos novos que me oferecem meio sorriso, um levantar de sobrancelhas, esse cumprimento discreto e familiar de quem talvez nunca mais se veja.
Do antigo programa, conservaram apenas a nós, Jadin, que criará papéis na revista, Senhor nos proteja, e Bouty. À noite, conversamos melancolicamente, como veteranos do Empyrée-Clichy esquecidos depois da partida de um regimento jovem.
Onde encontrarei outra vez os que conheci aqui? Em Paris, Lyon, Viena, Berlim? Talvez nunca. Talvez em parte alguma. O escritório de Salomon nos reunirá por cinco minutos, entre vozes altas e apertos de mão teatrais, só o tempo de confirmar que ainda existimos, lançar a pergunta indispensável — o que você está fazendo? — e ouvir que vai dando ou que nada se desenha.
Nada se desenha. É com essa perífrase vaga que meus companheiros errantes disfarçam a pane, a parada forçada, o aperto de dinheiro, a miséria. Nunca confessam. Uma vaidade heroica os sustenta e os torna queridos para mim.
Alguns, empurrados ao limite, conseguem um papel pequeno num teatro de verdade e, coisa estranha, não se gabam disso. Esperam ali, pacientes e obscuros, o retorno da sorte, o contrato de music-hall, a hora abençoada em que voltarão, sob a saia de lantejoulas ou o fraque cheirando a benzina, a enfrentar novamente o halo do projetor.
— Não, nada se desenha — dirão alguns, e logo acrescentarão: — Vou reaparecer no cinema.
O cinematógrafo, que ameaçou arruinar os humildes artistas de café-concerto, agora os salva. Eles se dobram a um trabalho anônimo e sem glória, que não amam, que desarranja seus horários de refeição, passeio e ensaio. Centenas vivem disso nas épocas de desemprego; alguns até enriquecem. Mas, se o cinema também transborda de figurantes e vedetes, que fazer?
— Nada se desenha.
A frase cai com ar ao mesmo tempo desprendido e sério. A mão balança o chapéu ou um par de luvas velhas. O corpo se apruma dentro de um sobretudo vistoso, desses que cobrem tudo: colete gasto, paletó cansado, calça amarelada nos joelhos. O essencial, o indispensável, não é possuir um terno limpo; é possuir um sobretudo com presença, capaz de impressionar o diretor ou o agente, e de permitir que se diga, com bravura de rentista: nada se desenha.
Onde estaremos no mês que vem?
À noite, Bouty ronda pelo corredor dos camarins, desamparado, tossindo baixinho, até que entreabro minha porta e o convido a sentar-se um instante comigo. Ele acomoda seus rins de cão magro numa cadeira frágil, de tinta branca descascada, e recolhe os pés sob o corpo para não atrapalhar meus movimentos. Brague vem juntar-se a nós e se agacha junto ao cano quente do aquecedor. De pé entre os dois, termino de me vestir, e minha saia vermelha, bordada de desenhos amarelos, passa por eles como um leque.
Não temos vontade de falar, mas tagarelamos. Lutamos contra uma necessidade surda de calar, de nos apertar uns contra os outros e nos enternecer.
Brague é quem conserva melhor sua atividade curiosa e lúcida, seu apetite comercial pelo futuro. Para mim, o futuro aqui ou ali importa menos. Meu gosto tardio, um pouco adquirido e artificial, pelas viagens combina bem com um fatalismo de pequena burguesa. Sou boêmia agora, sim, conduzida pelas turnês de cidade em cidade; mas uma boêmia ordeira, atenta a remendar ela mesma suas roupas bem escovadas.
Quase sempre carrego comigo minha pequena fortuna. No saco de camurça, os trocados ficam de um lado, a prata do outro, o ouro escondido numa algibeira secreta.
Vagabunda, está bem. Mas uma vagabunda que se resigna a girar em círculo, no mesmo lugar, como estes companheiros, estes irmãos. As partidas me entristecem e me embriagam, é verdade. Alguma coisa de mim fica suspensa em tudo o que atravesso: países novos, céus limpos ou nublados, mares sob chuva cor de pérola cinzenta.
Às vezes me parece que deixo atrás de mim mil pequenos fantasmas parecidos comigo, enrolados na correnteza, embalados na folha, dispersos na nuvem. Mas o último fantasma, o mais semelhante de todos, não permanece sentado junto à minha lareira, sonhador e prudente, inclinado sobre um livro que esquece de ler?