Capítulo 55 - Não venha A Vagabunda · Capítulo 55 de 77
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Capítulo 55 - Não venha

Capítulo 55 - Não venha

Sem defesa, permeável a esse excesso, embora previsto, de perfumes, de cor, de calor, deixo-me surpreender, levar, convencer. Será possível que uma doçura assim não tenha perigo?

A Cannebière ensurdecedora formiga a meus pés, sob a sacada, a Cannebière que não repousa nem de dia nem de noite, e onde a vadiagem adquire a importância, a segurança de uma função. Se me inclino, posso ver cintilar no fim da rua, atrás da renda geométrica dos cordames, a água do porto, um pedaço de mar de azul espesso, dançando em pequenas ondas curtas.

Minha mão, no parapeito da sacada, amarrota o último bilhete do meu amigo, que responde à minha carta de Lyon. Ele se lembra ali, fora de propósito, de que minha camarada Amalia Barally não gostava de homens. Não deixou de, como ser normal e bem equilibrado que é, macular um pouco minha velha amiga, zombando dela, e nomear vício aquilo que não compreende.

Para que explicar? Duas mulheres enlaçadas nunca serão para ele mais que um grupo malicioso, e não a imagem melancólica e tocante de duas fraquezas talvez refugiadas uma nos braços da outra para dormir, chorar, fugir do homem tantas vezes mau e saborear, melhor que qualquer prazer, a amarga felicidade de se sentirem semelhantes, íntimas, esquecidas.

Para que escrever, pleitear, discutir? Meu voluptuoso amigo só compreende o amor.

21 de abril.

Não faça isso. Não faça isso, eu lhe suplico. Desembarcar aqui sem aviso, você não pensou nisso seriamente, pensou?

O que eu faria se o visse de repente entrar no meu camarim, como há cinco meses no Empyrée-Clichy? Meu Deus, eu o guardaria, você não duvida. É por isso que não deve vir. Eu o guardaria, meu querido, contra meu coração, contra minha garganta tantas vezes acariciada, contra minha boca que perde a flor por não ser mais beijada. Ah, como eu o guardaria. É por isso que não deve vir.

Pare de invocar nossa necessidade mútua de retomar coragem, de buscar um no outro a energia de uma nova separação. Deixe-me sozinha com meu ofício, que você não ama. Faltam vinte dias para eu voltar, vamos. Deixe-me cumprir minha turnê com uma consciência vagamente militar, uma aplicação de trabalhadora honesta, à qual não se deve misturar nossa felicidade.

Sua carta me assustou, meu querido. Acreditei que ia vê-lo entrar. Pense em não estragar sua amiga. Não lhe prodigue nem a pena nem a alegria imprevistas.

Renée.

O toldo de lona bate as asas acima de nós, ventilando de sombra e luz a varanda do restaurante onde acabamos de almoçar no porto. Brague lê os jornais e, de tempos em tempos, exclama e fala. Mas não parece se dirigir a mim. Fala consigo mesmo, com ninguém. Não o escuto, mal o vejo. Um hábito já longo suprimiu entre nós a polidez, a coqueteria, o pudor, todas as mentiras.

Acabamos de comer ouriços, tomates, brandade de bacalhau. Há diante de nós, entre o mar oleoso que lambe o flanco dos barcos e a balaustrada de madeira vazada que fecha esta varanda, uma faixa de calçamento por onde desfilam pessoas apressadas com rostos felizes de ociosos. Há flores frescas, cravos duramente amarrados em maços como alho-poró, mergulhados em baldes verdes. Há uma banca carregada de bananas negras que cheiram a éter e de conchas escorrendo água do mar: ouriços, violetas, amêijoas, mexilhões azuis, praires, todos abertos entre limões e frascos de vinagre rosado.

Refresco a mão no ventre da bilha branca, bordada como um melão, que sua sobre a mesa. Tudo o que está aqui me pertence e me possui. Amanhã, não acreditarei levar comigo esta imagem, mas parece-me que uma sombra minha, desprendida de mim como uma folha, ficará aqui, um pouco curvada de fadiga, a mão transparente estendida e pousada no flanco de uma bilha invisível.

Contemplo meu reino mutável como se quase o tivesse perdido.

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