Capítulo 27 - A mulher adormecida A Vagabunda · Capítulo 27 de 77
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Capítulo 27 - A mulher adormecida

Capítulo 27 - A mulher adormecida

Três cabeças se levantam quando entro no salão de trabalho: as de Hamond, Fossette e Dufferein-Chautel. Apertados os três sob o abat-jour rosa, em torno de uma pequena mesa, jogavam cartas enquanto me esperavam. Fossette sabe jogar à maneira dos bulls; empoleirada numa cadeira, segue o vaivém das mãos, pronta a abocanhar no ar uma carta lançada longe demais.

Hamond exclama enfim; Fossette responde com seu latido rouco; Dufferein-Chautel não diz nada, mas por pouco também não late.

A acolhida alegre e a luz velada, depois da névoa fétida da rua, clareiam-me o coração. É num impulso de alegria afetuosa que exclamo:

— Boa noite. Vocês sabem? Eu vou partir.

— Você parte? Como assim? Quando?

Sem me deter no que a entonação de meu enamorado toma, apesar dele, de breve e inquisitorial, enrolo as luvas e tiro o chapéu.

— Conto durante o jantar. Vocês dois ficam. Já é quase um jantar de despedida. Fiquem tranquilos, continuem a partida. Vou mandar Blandine buscar costeletas e vou pôr um robe. Estou tão cansada.

Quando volto, perdida nas dobras de um quimono de flanela rosa, acho nos dois, Hamond e Dufferein-Chautel, um ar despreocupado demais de gente que combinou alguma coisa. Que importa? Meu adorador se beneficia esta noite de um otimismo que se estende por toda a natureza. Convido-o, para molhar a turnê, a nos oferecer o Saint-Marceaux do merceeiro vizinho, e ele corre, sem chapéu, trazendo duas garrafas debaixo dos braços.

Febril, um pouco tonta, pouso sobre meu enamorado um olhar desarmado que ele nunca viu em mim. Rio alto, com um riso que ele nunca ouviu. Jogo sobre o ombro a manga larga do quimono, descobrindo um braço mais claro que a roupa, um braço cor de polpa de banana, como ele diz. Sinto-me atenciosa, gentil. Por dois tostões lhe estenderia a face. Que importa? Eu parto. Não verei mais esse rapaz. Quarenta dias? Até lá estaremos todos mortos, sem dúvida.

Pobre enamorado, como fui má com ele, afinal. Acho-o amável, limpo, bem penteado, agradável, como alguém que não se tornará a ver. Pois, quando eu voltar, terei esquecido dele, e ele também terá me esquecido, com a pequena Jadin, ou com outra. Antes com a pequena Jadin.

— Hein? Essa pequena Jadin.

Lancei em voz alta essa exclamação que me parece supremamente engraçada.

Meu enamorado, que custa a rir esta noite, olha-me franzindo suas sobrancelhas de carvoeiro.

— O que tem essa pequena Jadin?

— Você a achou a seu gosto outro dia, não achou? No Empyrée-Clichy?

Dufferein-Chautel inclina-se, intrigado. Seu rosto atravessa a zona de sombra do abat-jour, e distingo a nuance de suas pupilas castanhas, ferozes e salpicadas como certas ágatas.

— Você estava na sala? Não a vi.

Esvazio minha taça antes de responder, misteriosa:

— Aí está.

— Então você estava lá? Sim, ela é gentil, a pequena Jadin. Você a conhece? Acho-a muito gentil.

— Mais do que eu?

Eu teria merecido que ele respondesse a essa palavra imprudente, imbecil, indigna de mim, com outra coisa além de um silêncio espantado. Tenho vontade de brigar. Mas que importa? Vou embora.

Conto meu itinerário: toda a volta da França, mas só cidades grandes; divulgação como a da Otéro; os belos lugares que veremos, o sol que encontraremos no Midi, e... e...

O champanhe, três taças bastam, por fim entorpece minha tagarelice feliz. Falar, que gasto de energia para quem permanece muda dias inteiros. Meus dois amigos fumam agora e, por trás do véu de fumaça, recuam, recuam. Como estou longe, já partida, dispersa, refugiada na viagem. As vozes deles se abafam, se afastam, misturadas a roncos de trem, apitos, ao balanço redondo de uma orquestra imaginária. Ah, doce partida, doce sono, que me leva para uma margem invisível.

— O quê? São seis horas? Está bem, obrigado... Ah, é o senhor?

Eu dormia, e sonhava viagem. Um rapaz de hotel batia com o punho na porta do meu sonho, gritando que eram seis horas. E me reencontro sentada de sobressalto no fundo do velho divã, onde o cansaço e a leve embriaguez me adormeceram. De pé diante de mim, o Grande Passarão ocupa toda a altura do quarto. Meus olhos, abertos depressa demais, piscam contra a lâmpada, e as bordas do abat-jour, as quinas da mesa iluminada ferem meus olhos como lâminas brilhantes.

— É o senhor? Onde está Hamond?

— Hamond acabou de sair.

— Que horas são?

— Meia-noite.

— Meia-noite?

Dormi mais de uma hora. Maquinalmente, levanto os cabelos achatados, penteando-os com os dedos, depois puxo a borda do robe até a ponta das chinelas.

— Meia-noite. Por que o senhor não foi embora com Hamond?

— Tememos que a senhora se assustasse ao acordar sozinha aqui. Então fiquei.

Ele zomba de mim? Não distingo seu rosto, tão alto na sombra.

— Eu estava cansada, entende.

— Entendo perfeitamente.

Que tom seco é esse, que repreende? Caio das nuvens. Se eu fosse medrosa, teria bela ocasião para gritar por socorro, sozinha com esse indivíduo negro que me fala lá de cima. Talvez ele também tenha bebido, mas mais do que eu?

— Diga, Dufferein-Chautel, o senhor está passando mal?

— Não estou passando mal.

Ele se põe em movimento. Graças a Deus: eu já me cansara de vê-lo fazer papel de menir tão perto de mim.

— Não estou passando mal. Estou com raiva.

— Ah, ah.

Reflito um momento, depois acrescento, bastante tola:

— É porque vou embora?

Dufferein-Chautel para.

— Porque você vai embora? Eu não pensava nisso. Já que ainda está aqui, não preciso pensar que irá embora. Não. Tenho raiva de você. Tenho raiva porque você dormia.

— Sim?

— É insensato dormir assim. Diante dos outros. Diante de Hamond. E até diante de mim. Vê-se bem que você não sabe que rosto tem quando dorme. Ou então faz de propósito, e isso é indigno de você.

Ele se senta bruscamente, como se se quebrasse em três, e fica muito perto, o rosto à altura do meu.

— Quando dorme, você não parece dormir. Parece... enfim, parece ter fechado os olhos para esconder uma alegria mais forte do que você. Perfeitamente. Não tem rosto de mulher adormecida. Você entende o que quero dizer, por Deus. É revoltante. Quando penso que deve ter dormido desse modo diante de um monte de gente, não sei o que faria com você.

Está sentado de lado numa cadeira frágil e desvia meio rosto transtornado, cortado por duas grandes rugas, uma na testa, outra ao longo da face, como se a explosão de sua cólera o tivesse rachado. Não tenho medo. Ao contrário: é um alívio reencontrá-lo sincero, parecido com o homem que entrou, dois meses atrás, no meu camarim.

Eis, portanto, diante de mim, com sua fúria infantil, sua teimosia animal, sua sinceridade calculada, meu inimigo, meu atormentador: o amor. Ai, não há como enganar-se. Já vi essa testa, esses olhos, essa convulsão das mãos presas uma à outra. Sim, vi tudo isso no tempo em que Adolphe Taillandy me desejava.

Mas o que farei deste? Não estou ofendida, nem sequer, ou tão pouco, comovida. Mas o que farei? Como responder? Esse silêncio que se prolonga se torna mais intolerável que sua confissão. Se ele pudesse ir embora. Mas não se move. Não arrisco o menor gesto, com medo de que um suspiro, uma ondulação do robe, baste para reanimar meu adversário. Já não ouso dizer meu enamorado. Não, ele me ama demais.

— É tudo o que você me diz?

O som de sua voz, suavizada, me causa prazer tão vivo que sorrio de alívio, libertada do silêncio irrespirável.

— Ora, eu realmente não vejo...

Ele se volta para mim com uma gentileza incômoda de cão grande.

— É verdade, você não vê. Oh, que talento você tem para não ver. Quando se trata de mim, você não vê, não vê nada. Olha através de mim, sorri por cima de mim, fala ao lado de mim. E eu finjo não ver que você não vê. Como é esperto. Como é digno de você e de mim.

— Escute, Dufferein-Chautel...

— E você me chama Dufferein-Chautel. Sei muito bem que tenho um nome ridículo, nome de deputado, de industrial ou de diretor do Comptoir d'Escompte. Não é minha culpa. Sim, sim, ria. Ainda é sorte, acrescenta mais baixo, que eu a faça rir.

— Vamos, como quer que eu o chame? Dufferein ou Chautel? Duduffe? Maxime, simplesmente? Max? Ah, por favor, dê-me o espelho de mão ali, sobre a mesinha, e o lenço de pó. Devo estar com um rosto terrível. Champanhe, sono e nada de pó no nariz.

— Isso não importa — diz ele com impaciência. — Para quem quer se empóar a esta hora?

— Para mim, antes de tudo. E depois para o senhor.

— Para mim não vale a pena. Você me trata como um homem que a corteja. E se eu fosse, simplesmente, um homem que a ama?

Olho-o, mais desconfiada do que jamais estive, desconcertada por encontrar nele, assim que se trata de amor entre nós, uma inteligência, uma desenvoltura especiais, bem escondidas sob suas aparências de Grande Passarão. A aptidão para o amor, sim, é isso que adivinho nele, é nisso que ele me supera e me atrapalha.

— Diga-me francamente, Renée. É odioso para você, indiferente ou vagamente agradável saber que eu a amo?

Ele não é ultrajante, não é humilde nem choroso; não tem nada de tímido, nada de sinuoso. Imitando sua simplicidade, respondo, encorajada:

— Não sei absolutamente nada.

— Era o que eu pensava — diz ele, grave. — Então...

— Então?

— Só me resta ir embora.

— É meia-noite e meia.

— Não, você não entendeu. Quero dizer: não vê-la mais, deixar Paris.

— Deixar Paris? Por quê? — digo honestamente. — Não é necessário. E eu não o proibi de me ver.

Ele sacode os ombros.

— Eu me entendo. Quando as coisas não vão bem, quando tenho... aborrecimentos, enfim, vou para casa.

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