Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 10
Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 10
Lise passou a manhã com a impressão de que havia gente demais dentro de seu quarto. Não pessoas, exatamente. Objetos: a carta, a flor, o fragmento de recibo, o botão de madrepérola, o caderno. Cada coisa pequena exigia lugar, e cada lugar exigia memória.
No café-concerto, Madame Sorel estava diante da bilheteria.
— Hoje você fica perto de mim.
— Fiz algo?
— Ainda não sei.
A lista de reservas vinha curta. Derval não constava. O capitão também não. O jornalista, sim, mas com uma anotação nova: entrada comum, sem recibo. Lise copiou tudo e anotou no caderno: Jornalista vem sem recibo. Ausência de Derval pode ser presença.
Madame Sorel, sem olhar, disse:
— Se está escrevendo outra coisa além da lista, escreva menor.
— A senhora vai tomar?
— Se eu tomar, terei de saber. Se eu souber, terei de decidir. Poupe-me antes que eu fique virtuosa.
Céleste apareceu às seis com um segundo botão de madrepérola na mão.
— A mulher do véu deixou isto. Disse que o primeiro botão prova que ela esteve aqui. O segundo prova que voltou por vontade própria.
Lise não o pegou de imediato.
— Se eu pegar, vira meu.
— Já virou quando você entendeu — disse Céleste.
Madame Sorel fechou o livro.
— Meninas, se vão transformar a bilheteria em confessionário, cobrem entrada.
Lise guardou o botão separado das moedas.
À noite, o jornalista Vautrin chegou cedo. Pediu um bilhete comum e perguntou pelo recibo rasgado.
— Hoje a tinta acabou — disse Lise.
— Foi o que me disseram que você diria. Preciso provar que entrei pagando.
— Por quê?
— Porque às vezes pagar é a única forma de mostrar que não fui convidado.
Madame Sorel o mandou entrar. Antes de sair da janelinha, ele deixou uma moeda de dez cêntimos.
— Para a tinta, quando voltar.
— Não aceite — disse Madame Sorel. — Quase nada é só aquilo que parece.
No segundo intervalo, Octave apareceu.
— Vautrin pergunta por papel rasgado. A moça do véu deixou botão. Você já não tem objetos, Lise. Tem uma história querendo dono.
Uma gritaria veio do corredor lateral. A mulher de véu passou sem véu, rosto claro como vela. Atrás dela, o capitão segurava-lhe o braço.
— Eu disse que sairíamos pela frente — dizia ele.
Lise levantou-se.
— A bilheteria — avisou Madame Sorel.
Lise permaneceu de pé.
— A saída é por ali, monsieur — disse.
— Ela sabe.
— Então talvez não precise ser conduzida.
O capitão apertou o braço da moça. Lise viu, na manga dela, a falta de dois botões.
Vautrin apareceu à porta do salão, bloco na mão.
— Isto não é número — rosnou o capitão.
— Ainda não — disse o jornalista.
Madame Sorel entrou entre eles.
— Monsieur, se pretende criar espetáculo, avise antes. Cobro mais caro.
O capitão soltou a moça.
— Esta casa anda esquecendo seu lugar.
— Nunca — disse Madame Sorel. — É por isso que ainda cobramos na entrada.
A moça veio até a bilheteria. Lise abriu a pequena porta lateral. A mulher passou para dentro, ficando ao seu lado, atrás da madeira. Agora contava. Pelo menos ali.
— Vai escondê-la no caixa? — perguntou o capitão.
Lise respondeu antes de calcular:
— Só guardo o que foi pago.
O silêncio foi tão perigoso que até o salão pareceu escutar. Vautrin escreveu uma linha. Céleste surgiu atrás do capitão, já vestida para o número.
— A sala espera, monsieur. Ou prefere que eu cante sem música?
Foi uma pequena coalizão: a gerente, a artista, o jornalista, a bilheteira, a mulher sem véu. Nada que derrubasse um homem poderoso. Talvez o bastante para fazê-lo escolher outro momento.
Ele escolheu. Saiu pela frente, sozinho.
Quando a porta fechou, a moça atrás da bilheteria soltou o ar.
— Meu nome é Madeleine.
Lise olhou para ela.
— Guarde para quem puder usá-lo bem.
— Você guarda botões?
— Guardo o que não sei devolver.
Madame Sorel decidiu: Madeleine ficaria no camarim de Céleste até a saída dos artistas; depois Vautrin a levaria.
No fechamento, a caixa faltou dez cêntimos. A moeda de Vautrin estava separada.
— Não era da casa — disse Lise.
— Nada é da casa até a casa decidir.
— Hoje eu decidi antes.
Madame Sorel apagou um cigarro que nem acendera direito.
— Você está ficando cara, Lise.
Na saída, Vautrin esperava sob a marquise com Madeleine coberta por um xale de Céleste.
— O recibo? — perguntou ele.
Lise perguntou:
— O que fará com ele?
— Talvez nada. Talvez uma frase. Talvez uma porta aberta se uma porta se fechar.
Madeleine estendeu a mão.
— Então guarde até eu pedir.
Lise assentiu. A aliança não era com o jornalista. Era com a mulher que agora tinha nome.
No quarto, escreveu no caderno: Madeleine: contou quando entrou; contou quando se escondeu; contou quando disse o nome. Depois acrescentou: Prova não pertence a quem encontra. Pertence a quem pode ser destruída sem ela.
Guardou o caderno sob a tábua solta e dormiu com a sensação de que Paris havia enfiado mais uma chave em sua mão sem mostrar a porta.