Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 10 A Vagabunda · Capítulo 73 de 77
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Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 10

Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 10

Lise passou a manhã com a impressão de que havia gente demais dentro de seu quarto. Não pessoas, exatamente. Objetos: a carta, a flor, o fragmento de recibo, o botão de madrepérola, o caderno. Cada coisa pequena exigia lugar, e cada lugar exigia memória.

No café-concerto, Madame Sorel estava diante da bilheteria.

— Hoje você fica perto de mim.

— Fiz algo?

— Ainda não sei.

A lista de reservas vinha curta. Derval não constava. O capitão também não. O jornalista, sim, mas com uma anotação nova: entrada comum, sem recibo. Lise copiou tudo e anotou no caderno: Jornalista vem sem recibo. Ausência de Derval pode ser presença.

Madame Sorel, sem olhar, disse:

— Se está escrevendo outra coisa além da lista, escreva menor.

— A senhora vai tomar?

— Se eu tomar, terei de saber. Se eu souber, terei de decidir. Poupe-me antes que eu fique virtuosa.

Céleste apareceu às seis com um segundo botão de madrepérola na mão.

— A mulher do véu deixou isto. Disse que o primeiro botão prova que ela esteve aqui. O segundo prova que voltou por vontade própria.

Lise não o pegou de imediato.

— Se eu pegar, vira meu.

— Já virou quando você entendeu — disse Céleste.

Madame Sorel fechou o livro.

— Meninas, se vão transformar a bilheteria em confessionário, cobrem entrada.

Lise guardou o botão separado das moedas.

À noite, o jornalista Vautrin chegou cedo. Pediu um bilhete comum e perguntou pelo recibo rasgado.

— Hoje a tinta acabou — disse Lise.

— Foi o que me disseram que você diria. Preciso provar que entrei pagando.

— Por quê?

— Porque às vezes pagar é a única forma de mostrar que não fui convidado.

Madame Sorel o mandou entrar. Antes de sair da janelinha, ele deixou uma moeda de dez cêntimos.

— Para a tinta, quando voltar.

— Não aceite — disse Madame Sorel. — Quase nada é só aquilo que parece.

No segundo intervalo, Octave apareceu.

— Vautrin pergunta por papel rasgado. A moça do véu deixou botão. Você já não tem objetos, Lise. Tem uma história querendo dono.

Uma gritaria veio do corredor lateral. A mulher de véu passou sem véu, rosto claro como vela. Atrás dela, o capitão segurava-lhe o braço.

— Eu disse que sairíamos pela frente — dizia ele.

Lise levantou-se.

— A bilheteria — avisou Madame Sorel.

Lise permaneceu de pé.

— A saída é por ali, monsieur — disse.

— Ela sabe.

— Então talvez não precise ser conduzida.

O capitão apertou o braço da moça. Lise viu, na manga dela, a falta de dois botões.

Vautrin apareceu à porta do salão, bloco na mão.

— Isto não é número — rosnou o capitão.

— Ainda não — disse o jornalista.

Madame Sorel entrou entre eles.

— Monsieur, se pretende criar espetáculo, avise antes. Cobro mais caro.

O capitão soltou a moça.

— Esta casa anda esquecendo seu lugar.

— Nunca — disse Madame Sorel. — É por isso que ainda cobramos na entrada.

A moça veio até a bilheteria. Lise abriu a pequena porta lateral. A mulher passou para dentro, ficando ao seu lado, atrás da madeira. Agora contava. Pelo menos ali.

— Vai escondê-la no caixa? — perguntou o capitão.

Lise respondeu antes de calcular:

— Só guardo o que foi pago.

O silêncio foi tão perigoso que até o salão pareceu escutar. Vautrin escreveu uma linha. Céleste surgiu atrás do capitão, já vestida para o número.

— A sala espera, monsieur. Ou prefere que eu cante sem música?

Foi uma pequena coalizão: a gerente, a artista, o jornalista, a bilheteira, a mulher sem véu. Nada que derrubasse um homem poderoso. Talvez o bastante para fazê-lo escolher outro momento.

Ele escolheu. Saiu pela frente, sozinho.

Quando a porta fechou, a moça atrás da bilheteria soltou o ar.

— Meu nome é Madeleine.

Lise olhou para ela.

— Guarde para quem puder usá-lo bem.

— Você guarda botões?

— Guardo o que não sei devolver.

Madame Sorel decidiu: Madeleine ficaria no camarim de Céleste até a saída dos artistas; depois Vautrin a levaria.

No fechamento, a caixa faltou dez cêntimos. A moeda de Vautrin estava separada.

— Não era da casa — disse Lise.

— Nada é da casa até a casa decidir.

— Hoje eu decidi antes.

Madame Sorel apagou um cigarro que nem acendera direito.

— Você está ficando cara, Lise.

Na saída, Vautrin esperava sob a marquise com Madeleine coberta por um xale de Céleste.

— O recibo? — perguntou ele.

Lise perguntou:

— O que fará com ele?

— Talvez nada. Talvez uma frase. Talvez uma porta aberta se uma porta se fechar.

Madeleine estendeu a mão.

— Então guarde até eu pedir.

Lise assentiu. A aliança não era com o jornalista. Era com a mulher que agora tinha nome.

No quarto, escreveu no caderno: Madeleine: contou quando entrou; contou quando se escondeu; contou quando disse o nome. Depois acrescentou: Prova não pertence a quem encontra. Pertence a quem pode ser destruída sem ela.

Guardou o caderno sob a tábua solta e dormiu com a sensação de que Paris havia enfiado mais uma chave em sua mão sem mostrar a porta.

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