Capítulo 51 - Há correspondência para mim?
Capítulo 51 - Há correspondência para mim?
Estamos em turnê. Como, durmo, caminho, mimo e danço. Nada de entusiasmo, mas também nada de esforço. Há um único instante de febre em todo o dia: aquele em que pergunto, à porteira do music-hall, se há correspondência para mim.
Leio minhas cartas faminta, encostada ao batente gorduroso da entrada dos artistas, na corrente de ar fétida que cheira a porão e amoníaco. A hora seguinte fica mais pesada, quando não há mais nada a ler, quando decifrei a data do selo e revirei o envelope como se esperasse ver cair dele uma flor, uma imagem.
Não presto atenção às cidades onde tocamos. Conheço-as e não me importo em reconhecê-las. Agarro-me a Brague, que retoma posse desses lugarejos familiares, Reims, Nancy, Belfort, Besançon, como um conquistador bonachão.
— Você viu? A pequena espelunca ainda está na esquina do cais. Aposto que vão me reconhecer quando formos esta noite comer salsicha ao vinho branco.
Ele respira largamente, lança-se nas ruas com alegria de vagabundo, demora-se diante das lojas e sobe às catedrais. Eu o escolto, eu que no ano passado ia à frente dele. Ele me arrasta em sua sombra, e às vezes rebocamos também o Velho Troglodita, que de hábito vai sozinho, esquálido, miserável sob o paletó fino e a calça curta demais.
Onde dorme? Onde come? Ignoro. Brague, interrogado, respondeu brevemente:
— Onde quiser. Não sou ama dele.
Na outra noite, em Nancy, vi o Troglodita em seu camarim. De pé, mordia um pão de uma libra e segurava delicadamente entre dois dedos uma fatia de queijo de cabeça. Aquela refeição de pobre e o movimento voraz de suas mandíbulas apertaram meu coração. Fui procurar Brague.
— Brague, o Troglodita tem com que viver em turnê? Ele ganha quinze francos, não ganha? Por que não se alimenta melhor?
— Ele economiza — respondeu Brague. — Todo mundo economiza em turnê. Nem todo mundo é Vanderbilt ou Renée Néré, para se pagar quartos a cinco francos e cafés com leite servidos na lata. O Troglodita me deve o traje de cena que adiantei para ele. Paga uma moeda por dia. Daqui a vinte dias, se quiser, poderá comer ostras e lavar os pés em coquetel. Isso é problema dele.
Assim repreendida, calei-me. E também faço economias, primeiro por hábito, depois para imitar meus companheiros, para não excitar nem sua inveja nem seu desprezo.
É a amiga de Max, essa mulher que janta refletida no espelho enfumaçado de uma brasserie lorena? Essa viajante de olhos cercados, grande véu amarrado sob o queixo, inteira, do chapéu às botinas, cor de estrada, com o ar indiferente, calmo e insociável de quem não é daqui nem de lugar nenhum?
É a amante de Max, a amante clara que ele estreitava meio nua num quimono rosa, essa comediante fatigada que vem, de espartilho e anágua, procurar na mala de Brague a camisa, a roupa branca do dia seguinte, e guardar suas quinquilharias de lantejoulas?
Todos os dias espero a carta do meu amigo. Todos os dias ela me consola e me decepciona ao mesmo tempo. Ele escreve simplesmente, mas, percebe-se, sem facilidade. Sua bela letra florida retarda o impulso da mão. E sua ternura o embaraça. De sua tristeza, queixa-se com ingenuidade.
Quando tiver dito cem vezes que me ama, e que me censura terrivelmente por tê-lo deixado, o que ainda dirá? Minha mulher querida, minha pequena intelectual de mulher, você vai zombar de mim, mas não me importo. Meu irmão parte para as Ardenas e eu o acompanho. Escreva-me nas Salles-Neuves, na casa de mamãe. Vou tocar dinheiro, dinheiro para nós, para nossa casa, pequena amada.
Assim ele me conta seus atos e gestos, sem comentários, sem guirlandas. Associa-me à sua vida e me chama de sua mulher. Sua cálida solicitude me chega, ele suspeita, toda resfriada sobre o papel, traduzida numa escrita bem equilibrada. De tão longe, que socorro nos dão as palavras? Seria preciso, não sei, seria preciso algum desenho impetuoso, todo incendiado de cores.