Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 5 A Vagabunda · Capítulo 68 de 77
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Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 5

Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 5

Lise acordou com a vela morta, o pescoço duro e a carta achatada debaixo do travesseiro. Por alguns segundos, não soube em que cidade estava. O teto baixo da pensão parecia o teto de qualquer lugar pobre; só a janela, com seu pedaço de Paris acinzentada, devolveu-lhe a verdade.

Havia dormido vestida. As mangas cheiravam a fumaça, metal, sopa e perfume barato. Sacudiu a saia, como se pudesse sacudir também a noite anterior, mas o tecido guardava tudo com fidelidade de testemunha.

Na bacia, a água estava fria. Lavou o rosto e viu no espelho pequeno uma moça menos antiga. Não mais a auxiliar da estação das Tintelleries, ainda não uma mulher de Paris. Um intervalo. Um bilhete sem destino impresso.

A senhoria bateu à porta com dois nós secos.

— Mademoiselle Marvan?

Lise demorou um instante para responder. O nome inteiro já lhe pareceu indiscreto.

— Sim?

— O quarto vence ao meio-dia.

— Pagarei à noite.

— À noite o quarto já pode ser de outra pessoa.

Lise abriu a porta. A mulher era miúda, de cabelo preso com grampos violentos e olhos treinados para medir malas.

— Tenho trabalho — disse Lise.

— Todos dizem isso quando não têm dinheiro.

— Eu tenho trabalho de noite.

— Melhor. Então pode deixar uma garantia de manhã.

A palavra garantia fez Lise olhar, sem querer, para a carta. Estava escondida sob o travesseiro, mas o gesto bastou para a senhoria notar que havia alguma coisa mais preciosa do que moeda naquele quarto.

— Um broche? Uma corrente?

— Não.

— Então pague.

Lise contou o que restava na bolsa. Depois do trem, da sopa não paga, do quarto e do café da véspera, sobravam moedas magras. A senhoria observou a conta com piedade nenhuma.

— Metade agora. A outra metade antes da meia-noite.

— Eu volto depois da meia-noite.

— Então antes de sair.

Era simples. A liberdade, que na estação parecera vento, em Paris tinha horário de cobrança.

Lise pagou a metade e desceu com a carta presa por dentro do corpete. Na rua, comprou um pão pequeno e comeu andando, para não pagar cadeira. A cidade de manhã parecia menos teatral e mais cruel. Sem as lâmpadas, sem os violinos, sem a fumaça que amaciava os rostos, Paris trabalhava. Carroças rangiam, criadas lavavam degraus, homens apressados empurravam mulheres sem pedir desculpa, jornais anunciavam desastres como quem vende fruta.

Ela caminhou até o café-concerto antes da hora, por medo de perder o lugar. Encontrou a porta dos fundos aberta e Madame Sorel sentada na cozinha, diante de uma xícara escura.

— Cedo demais — disse a mulher.

— Não sabia a hora.

— Quem não sabe a hora costuma chegar tarde. Você melhorou a espécie.

Lise ficou de pé.

— Posso ajudar?

Madame Sorel ergueu os olhos. Era uma pergunta perigosa, e as duas souberam disso.

— Pode. Mas aqui ajuda vira função, função vira obrigação, obrigação vira desconto quando sai mal.

— Eu entendo.

— Não entende. Mas está faminta, então aceitará.

Mandou-a separar programas amassados, limpar a janelinha da bilheteria, conferir os talões de ingresso e levar uma lista ao escritório do patron. Lise atravessou o corredor estreito enquanto o lugar ainda estava sem máscara. O palco, vazio, parecia uma boca fechada. As cadeiras de pernas para cima sobre as mesas davam ao salão um aspecto de naufrágio doméstico.

No escritório, um homem calvo escrevia números em colunas. Não se apresentou.

— Da Sorel?

— Sim, monsieur.

— Ela sempre acha meninas com olhos de dívida.

Lise não respondeu.

— Sabe somar?

— Sei.

— Sabe mentir?

— Não sei se bem.

Ele parou a pena e a olhou pela primeira vez.

— Resposta honesta. Péssimo começo.

Carimbou a lista e devolveu-a.

— Diga a Sorel que faltam três garrafas no inventário. Se ela disser que não faltam, diga que eu sei que faltam. Se ela perguntar como, diga que não é assunto dela.

— Sim, monsieur.

— E não repita meu tom. Repita só a frase.

Lise saiu com a impressão de carregar pólvora dobrada em papel. Entregou a mensagem. Madame Sorel ouviu até o fim, sem alterar a expressão.

— Você repetiu o tom?

— Não.

— Tem salvação.

— As garrafas faltam?

— Nunca faça a segunda pergunta antes de saber o preço da primeira.

Ao meio-dia, deram-lhe café ralo e um pedaço de queijo. Não era salário, Madame Sorel explicou. Era adiantamento sobre a possibilidade de ela não cair no meio do serviço.

— E quanto se ganha? — perguntou Lise.

Madame Sorel pegou um lápis.

— Se ficar na bilheteria, um franco e meio por noite. Se conferir caixa sem erro, mais vinte cêntimos. Se fizer recado sem língua, talvez jantar. Se quebrar copo, paga. Se perder bilhete, paga. Se aceitar presente de cliente e o cliente achar que comprou mais que gratidão, paga de outro jeito. Evite.

Lise fez a conta depressa. O quarto, a comida, a lavagem de uma blusa, a sola do sapato que começava a abrir. O dinheiro entrava pequeno e saía adulto.

— Não basta — disse.

— Quase nada basta. A gente escolhe o que falta.

Essa frase acompanhou Lise pelo resto da tarde. Escolher o que falta. Em Boulogne, faltava-lhe ar. Em Paris, faltavam moedas. O primeiro sufocava por dentro; o segundo mordia por fora. Não sabia ainda qual deixava cicatriz mais feia.

Octave chegou com uma rosa de papel presa ao chapéu e uma tosse teatral.

— Minha santa contadora voltou.

— Não sou sua.

Ele levou a mão ao peito.

— Paris inteira começa assim, negando propriedade. Depois descobre o aluguel.

Madame Sorel atirou-lhe um pano.

— Vá ser espirituoso longe das contas.

Mas Octave ficou o bastante para cochichar:

— Derval perguntou por você.

Lise sentiu o corpo reagir antes do pensamento.

— Por mim?

— Pela nova do caixa. É quase um batismo.

— E o que ele quer?

Octave perdeu o sorriso por um instante.

— Derval quer que todos queiram alguma coisa dele. É assim que ele começa.

— Ele manda aqui?

— Ninguém manda onde há dinheiro. O dinheiro é que circula dando ordens.

À noite, a fila voltou. Lise percebeu que já reconhecia tipos: o homem que reclamava para ser notado, o estudante que contava moedas com vergonha agressiva, a senhora velada que comprava azul e entrava depois de todos, os soldados que riam antes de entender. A repetição lhe deu uma competência triste. Ela era mais rápida. Errava menos. Sorria quase nunca.

Às nove, Monsieur Derval apareceu sem luvas, como se a ausência delas fosse intimidade.

— Mademoiselle do caixa.

— Monsieur.

— Hoje já sabe de onde veio?

— Da manhã.

Ele riu, satisfeito por encontrar a mesma resistência.

— E para onde vai?

— Até o fim da fila, se monsieur permitir.

Havia pessoas atrás dele. Isso o obrigou a comprar.

— Vermelho.

Lise destacou o bilhete.

— Dois francos.

Ele pousou três.

— Guarde.

— O preço é dois.

— O resto é pela resposta.

Lise empurrou a moeda de volta.

— Respostas não são vendidas aqui. Só entradas.

O rosto dele não se fechou; pior, interessou-se. Pegou a moeda, devagar.

— Então ainda não sabe onde está.

Madame Sorel, do fundo, disse sem levantar a voz:

— Monsieur Derval, a primeira fila sente saudades.

Ele entrou.

Depois, quando o movimento diminuiu, Madame Sorel aproximou-se.

— Você foi correta.

Lise sentiu um alívio quase infantil.

— Mas foi cara — completou a mulher.

— Cara?

— Homem como Derval paga para que o mundo aceite a moeda dele. Recusar custa. Às vezes vale. Às vezes não. Antes de ser digna, aprenda a calcular.

— E se eu não quiser calcular tudo?

Madame Sorel olhou para ela com uma fadiga antiga.

— Então alguém calculará você.

A frase não era crueldade. Era mapa.

Mais tarde, a pastorinha da véspera passou pela bilheteria sem pintura, enrolada num xale.

— Você é a nova?

— Sou.

— Não deixe Sorel dizer que jantar é salário. Jantar é jantar.

— Obrigada.

— Também não deixe Octave dever favor. Ele paga com piada.

— E Derval?

A mulher parou. Tinha olhos belos e muito cansados.

— Derval não deve. Ele investe.

Foi embora antes que Lise perguntasse em quê.

À meia-noite, a caixa fechou exata. Nem um cêntimo faltando. Lise mostrou o caderno a Madame Sorel com a discrição de quem oferece uma pequena vitória.

— Bom — disse a mulher.

A palavra, seca, aqueceu mais que elogio.

— Amanhã você vem às cinco. Antes da bilheteria, vai copiar a lista de reservas. Tem letra limpa?

— Tenho.

— Então esconda. Letra limpa faz os outros descobrirem serviços.

Pagou-lhe um franco e meio, mais vinte cêntimos. As moedas na palma pareceram pesadas por um segundo. Depois Lise lembrou a senhoria, o quarto, a fome de amanhã. O peso diminuiu.

Na saída, Octave esperava junto à porta dos artistas.

— Você recusou dinheiro de Derval.

— Já sou notícia?

— Neste lugar, virtude é notícia porque dura pouco.

— Então escrevam depressa.

Ele riu, mas sem zombar.

— Cuidado, Lise. Você tem respostas demais para alguém sem proteção.

— E proteção se compra?

— Tudo se compra. O problema é descobrir quem recebe.

Na pensão, pagou a segunda metade do quarto. A senhoria contou as moedas com a lentidão de uma carrasca sem vocação. Quando enfim entregou a chave, Lise sentiu vontade de tomá-la como se fosse um título de propriedade. Era apenas uma noite.

No quarto, tirou os sapatos. A sola direita abriu um pouco mais, mostrando a boca escura do couro gasto. Colocou sobre a mesa as moedas restantes: poucas, mas suas. Depois tirou a carta do corpete e a leu de novo.

A mulher desconhecida havia escrito sobre não pertencer. Lise, naquela noite, entendeu uma coisa que talvez a outra já soubesse: não pertencer não bastava. Era preciso comer, dormir, atravessar corredores, responder a homens de luvas claras, aprender quais moedas não aceitar. A liberdade não era uma porta aberta. Era a habilidade de não ser empurrada pela porta errada.

Dobrou a carta com cuidado.

— Amanhã às cinco — disse para o quarto.

Pareceu pouco. Pareceu imenso.

Antes de dormir, imaginou a estação das Tintelleries. Viu Armand esperando uma explicação que ela já não tinha vontade de escrever. Viu a própria mesa vazia, os bilhetes alinhados, o regulamento pregado na parede. Tudo tão correto, tão pequeno, tão destinado a durar.

Paris, ao contrário, talvez a quebrasse. Mas ao menos teria de tocá-la primeiro.

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