Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 4
Spin-off - A Passageira das Tintelleries - Capítulo 4
A mulher de preto chamava-se Madame Sorel, e não explicou a Lise se era dona, gerente, caixa, mãe das artistas ou carcereira. Talvez fosse tudo isso, conforme a hora. Entregou-lhe uma gaveta de troco, um caderno de capa mole e uma advertência:
— Aqui, menina, dinheiro nunca se deixa sozinho. Homem bêbado rouba com a mão, artista rouba com o atraso, empresário rouba com contrato. Você confere tudo.
Lise assentiu.
— E não faça essa cara de convento. Assusta freguês pobre e diverte freguês rico.
Octave, encostado ao batente, achou graça.
— Eu disse que era santa.
— Você diz muita coisa porque nunca paga por nenhuma — respondeu Madame Sorel.
O trabalho começou antes que Lise compreendesse o trabalho. Havia uma janelinha de madeira, uma pilha de bilhetes amarelos, outra de bilhetes azuis, uma terceira vermelha, que custava mais e dava direito a mesa mais próxima do palco. Ela aprendeu depressa: os amarelos para quem queria rir barato; os azuis para quem queria ser visto rindo; os vermelhos para quem desejava ser visto olhando.
— Nunca entregue vermelho a homem que conta moeda demais — disse Madame Sorel. — Ele fará escândalo por se sentir pobre na primeira fila.
Às sete, a fila começou. Não era fila como na estação, onde cada pessoa carregava destino. Ali carregavam apetite. Homens de chapéu bom, empregados de paletó puído, dois estudantes, um casal que fingia respeitabilidade, três soldados com cheiro de vinho, uma senhora velada que comprou bilhete azul sem erguer o rosto.
Lise cobrava, destacava, devolvia troco, ouvia.
— A nova canta hoje?
— Tem dança espanhola?
— A ruiva ainda mostra as pernas?
— O patrão está?
— Menina, sorria um pouco, isso aqui não é enterro.
Ela sorria quando era útil e calava quando era melhor. Descobriu que calar não era ausência. Era ferramenta. O silêncio certo fazia o freguês repetir a pergunta de modo menos insolente, ou desistir, ou revelar mais do que pretendia.
Madame Sorel a observava sem elogio. Lise preferiu isso. Elogio, em sua vida antiga, quase sempre vinha antes de uma coleira.
Do lado de dentro, o café-concerto acordava aos pedaços. Uma porta se abria e lançava música desafinada. Outra devolvia cheiro de pó de arroz. A cada passagem rápida pelo corredor, Lise via fragmentos: uma panturrilha erguida sobre cadeira, uma boca sendo pintada em vermelho agressivo, mãos masculinas ajustando um refletor, uma menina enfiando algodão na ponta do sapato.
O espetáculo, antes de começar, parecia uma oficina de remendos. Nada nascia inteiro. Tudo era preso por alfinete, goma, suor, mentira e pressa.
Às oito, Madame Sorel a levou até a lateral da sala.
— Olhe.
Lise olhou.
O salão, que por fora parecia pequeno, crescia no escuro. Mesas redondas, copos, fumaça, olhos. Muitos olhos. O palco era baixo, quase vulnerável, com cortinas cor de vinho cansado. Acima dele, lâmpadas a gás faziam uma claridade que não iluminava pessoas: arrancava-as de si mesmas.
Uma cantora entrou vestida de pastorinha, embora ninguém em sã consciência confiasse ovelhas àquela mulher. Cantou com uma voz fina, esperta, e o público riu antes da piada, como se tivesse pago também pela obrigação de rir.
Lise sentiu vergonha por ela. Depois percebeu que a cantora não tinha vergonha nenhuma. Sua boca sorria, seus olhos contavam mesas, avaliavam gorjetas, mediam perigo. Cantava e vigiava. Oferecia-se e se guardava. Era uma arte mais difícil do que parecer bonita.
— Está vendo? — perguntou Madame Sorel.
— Estou.
— Não está. Mas vai.
Voltaram à bilheteria. O movimento aumentou. Lise errou troco uma vez; Madame Sorel bateu com dois dedos no caderno, seca como régua.
— O erro sai do seu jantar.
— Sim, madame.
— Não diga sim como criada. Diga sim como quem ouviu.
Lise ergueu os olhos.
— Ouvi.
Madame Sorel quase sorriu.
Às nove e meia, Octave apareceu com uma bandeja de copos vazios e uma pluma azul atrás da orelha.
— Sobrevive?
— Até agora.
— Péssimo sinal. Quem sobrevive na primeira noite volta na segunda.
— E quem não sobrevive?
— Casa, geralmente.
Lise pensou em Armand. Pela primeira vez desde a Gare du Nord, o nome não lhe apertou o peito; irritou-a. Não por ele, talvez, mas pela facilidade com que sua memória vinha acompanhada de móveis, horários e uma chave grande demais.
— Então voltarei amanhã — disse.
Octave inclinou a cabeça, como quem reconhece uma pequena insolência recém-nascida.
— Voilà. A santa já perdeu uma pena.
Quando ele saiu, Lise tocou discretamente o corpete. A carta continuava ali. Durante a noite, em vários momentos, esquecera-se dela. Essa descoberta a inquietou. A carta havia sido porta, quase milagre; mas Paris começava a produzir suas próprias urgências. Talvez toda fuga precise trair a chama que a acendeu.
Perto das onze, um homem de luvas claras comprou bilhete vermelho e não entrou. Ficou diante da janelinha olhando para Lise como se o bilhete fosse apenas desculpa.
— Nova?
— Sim.
— De onde?
— Do caixa, monsieur.
Ele riu.
— Tem espírito.
— Tenho troco.
O riso dele diminuiu. Não por ofensa; por cálculo. Lise reconheceu aquele olhar. Era o mesmo que vira em homens na estação quando avaliavam se uma mulher viajava sozinha por necessidade, pecado ou disponibilidade. O mesmo mundo, apenas com música.
Madame Sorel surgiu atrás dela sem ruído.
— Monsieur Derval, a sala espera sua generosidade.
O homem ergueu o chapéu e entrou.
Lise soltou o ar.
— Ele é perigoso?
— Todos são. Alguns também pagam bem.
— Como se sabe a diferença?
— Não se sabe. Cobra-se antes.
À meia-noite, a bilheteria fechou. Lise contou a gaveta duas vezes, os dedos sujos de tinta dos bilhetes e metal. Faltavam dez cêntimos. Madame Sorel olhou o caderno, depois a moça.
— Primeira noite. Eu esqueço.
Lise, exausta, quase agradeceu. Conteve-se a tempo.
— Amanhã não faltarão.
— Amanhã faltará outra coisa. Sempre falta.
Deram-lhe uma tigela de sopa morna na cozinha, entre artistas sem pintura e homens sem importância. Sem maquiagem, a pastorinha parecia mais velha e mais triste; comendo pão, parecia invencível.
Lise comeu devagar, para aumentar a refeição. Ninguém lhe perguntou de onde vinha. Ninguém lhe perguntou para onde ia. Era uma delicadeza ou uma indiferença; naquele momento, ela não quis distinguir.
Quando saiu, Paris cheirava a chuva, cinza e vinho derramado. Subiu até a pensão com os pés ardendo, mas sem a mesma ignorância da tarde. Tinha um quarto por mais uma noite, uma possível ocupação e a certeza nova de que ser olhada não era o mesmo que ser vista.
No quarto, tirou a carta da desconhecida e a colocou sob o travesseiro.
— Hoje eu também calei — murmurou.
Não sabia se falava com a carta, com a mulher que a escrevera ou consigo mesma. Talvez com as três.
Adormeceu antes de apagar a vela, e sonhou com uma estação iluminada onde todos os bilhetes eram vermelhos e nenhuma partida tinha destino escrito.