Capítulo 9 - Eu não voltei
Capítulo 9 - Eu não voltei
Ninguém compreendeu nossa separação. Mas alguém havia compreendido, antes, a minha paciência? Minha longa, covarde e completa complacência? Não é apenas o primeiro perdão que custa. Há perdões que, repetidos, já não parecem gestos: viram uma língua doméstica, um modo de respirar baixo, uma maneira de ocupar pouco espaço para que a casa continue fingindo ordem.
Adolphe descobriu depressa a que raça eu pertencia: a das mulheres que perdoam uma vez e, por uma progressão habilmente conduzida, passam a suportar, depois a aceitar. Que mestre sábio eu tinha nele. Como sabia dosar indulgência e exigência. Quando eu me mostrava resistente demais, acontecia de me bater. Não creio que tivesse grande vontade disso. Um homem tomado pela cólera não bate tão bem. Ele me batia de longe em longe para reforçar o prestígio.
Na época do divórcio, quase me deram todas as culpas para inocentar o belo Taillandy, culpado apenas, diziam, de agradar e trair. Faltou pouco para que eu cedesse, intimidada, devolvida à submissão habitual pelo ruído que se fez ao nosso redor. Como? Ele a engana há oito anos, e é agora que ela resolve se queixar? A frase passava de boca em boca como uma sentença razoável.
Recebi visitas de amigos autoritários, superiores, desses que sabem o que é a vida. Vieram parentes velhos, armados do argumento mais sério e mais vazio do mundo: que quer você, minha filha? O que eu queria? No fundo, sabia perfeitamente. Eu estava farta.
Queria morrer, talvez, antes de arrastar por mais tempo aquela vida humilhada de mulher que tem tudo para ser feliz. Morrer, arriscar a miséria antes do suicídio, mas não rever Adolphe Taillandy. Não aquele Adolphe reservado à intimidade conjugal, capaz de advertir sem erguer a voz, avançando sobre mim sua mandíbula temível, que eu tivesse a bondade de não fazer aquela cara diante da nova modelo.
Morrer, arriscar as piores quedas antes disso, mas não surpreender mais o gesto brusco que esconde uma carta amassada. Não escutar a conversa ao telefone, falsamente banal. Não cruzar o olhar cúmplice do criado. Não ouvir, num tom desprendido, a sugestão de que eu passasse dois dias na casa de minha mãe naquela semana, justamente quando a casa precisava ficar livre.
Partir. Não me rebaixar mais a acompanhar durante um dia inteiro uma das amantes do meu marido enquanto ele, protegido por mim, abraçava outra. Partir e morrer, se fosse preciso, mas não fingir mais que ignorava. Não suportar a espera noturna, os pés gelados no leito grande demais, os planos de vingança que nascem no escuro, incham ao ritmo de um coração envenenado de ciúme e estouram, covardemente, ao som da chave na fechadura, quando a voz conhecida pergunta por que ainda não dormi.
Eu estava farta.
A gente se habitua a não comer, a sofrer dos dentes ou do estômago, até à ausência de alguém amado. À inveja, à espera, à pobreza, talvez. Mas não se adquire o hábito do ciúme. E aconteceu aquilo que Adolphe Taillandy, que pensava em tudo, não havia previsto. Um dia, para receber melhor a senhora Mothier no grande divã do atelier, pôs-me para fora sem cortesia. Eu não voltei.
Não voltei naquela noite, nem na seguinte, nem nas outras. Foi ali que acabou, ou começou, a minha história.
Não insistirei demais no período curto e sombrio de transição em que recebi com a mesma aspereza censuras, conselhos, consolações e até felicitações. Desencorajei os raros amigos tenazes que vinham tocar a campainha do pequeno apartamento alugado ao acaso. Indignada com o simples fato de que alguém pudesse me ver afrontando a opinião pública, essa soberana sacrossanta e ignóbil, cortei com um gesto furioso tudo o que ainda me prendia ao passado.
Então, o quê? O isolamento. Sim, o isolamento, salvo três ou quatro amigos teimosos, desses que resistem aos maus modos como quem se agarra a uma porta em tempestade. Como os recebi mal. Como os amei. E como temi, ao vê-los partir, que não voltassem.
No começo, temi a solidão como se teme um remédio capaz de matar. Depois descobri que apenas continuava a viver só. O treino vinha de longe, da infância; os primeiros anos de casamento mal o haviam interrompido. Retomou, austero, duro a ponto de fazer chorar, desde as primeiras traições conjugais. Quantas mulheres conhecem esse recolhimento em si mesmas, esse dobrar paciente que sucede às lágrimas revoltadas?
Faço-lhes justiça enquanto me consolo: talvez só na dor uma mulher ultrapasse a mediocridade. Sua resistência se torna infinita. Pode-se usá-la, abusar dela, desde que alguma covardia física ou alguma esperança religiosa a desvie da solução simples demais.