Capítulo 26 - Sete e meio por cento A Vagabunda · Capítulo 26 de 77
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Capítulo 26 - Sete e meio por cento

Capítulo 26 - Sete e meio por cento

— Decida-se, ou não se decida, vamos. Serve ou não serve?

Estão os dois ali, Brague e Salomon, empurrando-me com a voz e o olhar. Um ri para me dar confiança, o outro resmunga. A mão pesada de Salomon pousa no meu ombro.

— Para um contrato, é um contrato, penso eu.

Seguro esse contrato datilografado e o releio pela décima vez, com medo de descobrir, entre suas quinze linhas breves, a armadilha escondida, a cláusula turva. Releio sobretudo para ganhar tempo. Depois olho a janela, as cortinas de tule engomado e, atrás delas, o pátio triste e limpo.

Tenho ar de refletir, mas não reflito. Hesitar não é refletir.

Distraidamente, inventario esse escritório em estilo inglês que já vi tantas vezes, ilustrado por fotografias estrangeiras: damas em busto, decotadas, muito penteadas, com sorriso vienense; homens de casaca, dos quais não se pode adivinhar se são cantores ou acrobatas, mímicos ou cavaleiros.

Quarenta dias de turnê a cento e cinquenta francos por dia. Isso faz seis mil francos. Bom tabaco. Mas...

— Mas — digo enfim a Salomon — não quero engordá-lo em seiscentos paus. Dez por cento, afinal, é assassinato.

Recuperei a fala, a arte de me servir dela e o vocabulário adequado. Salomon fica da cor dos próprios cabelos, rosa-tijolo. Seus olhos esquivos também avermelham, mas de sua grossa boca amável se precipita uma torrente de súplicas quase amorosas.

— Minha querida, minha pequena, não comece a dizer bobagens. Um mês, um mês trabalhando no seu itinerário. Pergunte ao Brague. Um mês me arrebentando para encontrar estabelecimentos de primeira ordem, de primeiríssima ordem. Uma divulgação como... como... como a da Otéro, pronto. E é assim que você me agradece? Você não tem coração? Dez por cento? Você devia me dar doze, ouviu?

— Ouvi. Mas não quero engordá-lo em seiscentos paus. Você não vale isso.

Os olhinhos ruivos de Salomon se estreitam ainda mais. Sua mão pesada, no meu ombro, acaricia com vontade de me esmagar.

— Ah, má semente. Está vendo, Brague? Uma criança para quem arranjei o primeiro contrato.

— Uma criança terrivelmente maior de idade, meu velho, e que precisa renovar o guarda-roupa. Meu figurino de A Presa acabou, você sabe. Figurino truque, trinta luíses, mais os sapatos, mais o véu para dançar, enfim, veja os acessórios. Você não me paga isso à parte, velha peste?

— Brague, está vendo? — repete Salomon. — Tenho vergonha dela diante de você. O que vai pensar dela?

— Penso — diz Brague tranquilamente — que ela faria bem em aceitar a turnê e mal em lhe dar seiscentos francos.

— Está bem. Devolvam-me os papéis.

A mão grossa me solta. Salomon, franzido e pálido, volta para o escritório inglês sem nos conceder um olhar.

— Salomon, sem teatro entre nós. Sou ruim como sarna quando começo, e pouco me importa perder um negócio se me aborrecem.

— Senhora — responde Salomon, digno e gelado — a senhora falou comigo como se fala a um homem desprezado, e isso ficou no meu coração.

— Forno velho — intervém Brague sem erguer a voz. — Quando acabar de falar bonito... Seiscentos pela parte dela, quatrocentos e quarenta pela minha. Você nos toma por acrobatas alemães? Dê-me as folhas. Hoje não assinamos. Peço vinte e quatro horas para consultar minha família.

— Então está acabado — atira Salomon, com impetuosidade gaguejante. — Toda essa gente é diretor de estabelecimento chique, gente que não gosta que a enrolem, gente...

— Gente com o traseiro na fritura fervendo, eu sei — interrompe meu camarada. — Então diga a eles que volto amanhã. Você vem, Renée? Salomon, para nós dois, sete e meio por cento. E acho grande e generoso.

Salomon enxuga os olhos secos e a testa molhada.

— Sim, sim, vocês ainda são dois belos porcos.

— Salomon, não se pode dizer que o senhor seja belo, belo...

— Deixe-o, Renée. Esse homem é um amor. Ele fará o que quisermos. Para começar, ele gosta de você. Não é, Salomon?

Mas Salomon emburra. Vira o ombro como uma criança grande e diz com voz chorosa:

— Não. Vão embora. Não quero mais vê-los. Tenho uma verdadeira mágoa. É a primeira vez, desde que faço contratos, que me infligem uma humilhação dessas. Vão, vão. Preciso ficar sozinho. Não quero mais vê-los.

— Está bem. Até amanhã.

— Não, não. Acabou entre nós três.

— Cinco horas?

Salomon, sentado à mesa, levanta para nós o focinho rosa e desolado.

— Cinco horas? Era só o que faltava: ainda perder por causa de vocês meu encontro no Alhambra. Antes das seis, nem pensar. Ouviram?

Desarmada, aperto sua pata curta, e saímos.

O congestionamento da rua torna impossível qualquer conversa, e nos calamos. Temo a solidão relativa do boulevard Malesherbes, onde Brague começará a discutir e a me convencer. Convencida, estou de antemão. Decidida a partir, também.

Hamond não ficará contente. Margot dirá: você tem toda razão, minha filha, e não pensará uma palavra disso; mas me dará excelentes conselhos e três ou quatro caixas de especialidades contra enxaqueca, prisão de ventre e febre.

E Dufferein-Chautel, afinal, o que dirá? Diverte-me pensar na cara dele. Ele se consolará junto de Jadin, só isso. Partir. Quando mesmo?

— A data, Brague? Nem prestei atenção, imagine.

Brague dá de ombros e se coloca perto de mim, entre o pelotão de passantes que esperam, submissos, que o bastão branco corte a fila de carros e nos abra passagem até o refúgio da place Saint-Augustin.

— Se dependesse só de você fechar contratos, minha pobre amiga. Madame grita, Madame monta no cavalo, Madame quer isto, não quer aquilo, e no fim: “nem prestei atenção à data”.

Deixo-o, deferente, saborear sua superioridade. É um dos prazeres mais vivos de Brague tratar-me como novata, aluna desastrada. Corremos, sob o cajado do agente, até o boulevard Malesherbes.

— De 5 de abril a 15 de maio — termina Brague. — Você não tem nada contra? Nada a prende?

— Nada.

Subimos o boulevard, um pouco ofegantes pela névoa de banho morno que se ergue do calçamento molhado. Uma chuva curta, quase tempestuosa, começou o degelo; o piso escuro reflete, alongadas e irisadas, as luzes do gás. O alto da avenida se perde numa fumaça indistinta, avermelhada pelo resto de crepúsculo.

Involuntariamente, volto-me. Olho em torno de mim, procurando... o quê? Nada. Não, nada me prende aqui, nem em outro lugar. Nenhum rosto amado surgirá da neblina como uma flor clara emergindo da água escura para pedir ternamente: não vá.

Partirei, então, mais uma vez. O 5 de abril está longe, estamos em 15 de fevereiro, mas é como se eu já tivesse partido. Brague pode enumerar ao meu ouvido distraído nomes de cidades, hotéis, números, números, números.

— Você está me ouvindo ao menos?

— Estou.

— Então não faz nada daqui até 5 de abril?

— Não que eu saiba.

— Não vê um pequeno ato, uma pequena bobagem qualquer, gênero mundano, que a ocupe até lá?

— Francamente, não.

— Se quiser, procuro para você alguma coisinha por semana.

Deixo meu camarada, agradecendo, tocada por ele querer poupar-me a pane, a ociosidade que desmoraliza, empobrece e desarranja os comediantes sem trabalho.

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