Capítulo 4 - Jadin não veio
Capítulo 4 - Jadin não veio
Escrever seria um luxo. A vida, em vez disso, insiste em apresentar faturas, procuradores, agentes teatrais e o ofício bruto de continuar viva. Desde que passei a viver só, foi preciso primeiro sobreviver, depois divorciar-me, depois sobreviver de novo. A reflexão mais fina acaba sempre interrompida por um sino, uma conta, uma necessidade urgente. Às duas da manhã, não me resta filosofia suficiente para isso. Amanhã é domingo, haverá matinê e soirée no Empyrée-Clichy, e a única sabedoria razoável seria dormir.
Mas o domingo não chega com descanso. Chega aos gritos. Antes mesmo que o corpo tenha acabado de despertar, Brague irrompe como uma pancada: mexa-se, depressa, Jadin não veio. A frase me atinge antes que eu esteja inteira dentro do dia. Não veio? Doente? Não, diz ele, com o sarcasmo seco dos bastidores: doente em bomba. O resultado é simples e brutal. Nós entraremos vinte minutos antes. E isso, para um público de bairro numa matinê de domingo, equivale a uma pequena guerra.
Corro para a loge tremendo de pressa e irritação. Jadin não está. Pela primeira vez em muito tempo, a ideia do atraso me fere como um verdadeiro desastre. O público do domingo não tem a paciência educada das salas que fingem civilidade. Se o deixamos com fome entre dois números, ele responde sozinho: berros, pontas de cigarro, cascas de laranja, impaciência de animais mal servidos. O espetáculo popular não perdoa o vazio.
No fundo, ninguém parece surpreso. Eu, sim. Os outros já farejavam a fuga havia dias. Jadin carregava no próprio corpo os sinais de uma ascensão rápida demais para dezoito anos. Saltara quase sem transição do boulevard exterior para o palco, espantada de ganhar dinheiro cantando. Era ainda novata demais para o concert e jovem demais para compreender que a chance, quando agarra uma pobre, quase sempre aperta mais do que ampara.
Ela cantava como quem ainda trazia a rua no peito. Havia na sua voz áspera de contralto uma franqueza quase insolente. Em cena, era uma pequena apache rosada e emburrada, com vestido comprido demais, cabelo sem brilho de vedete e um corpo que parecia ainda puxar, de viés, o peso de uma vida anterior. O público adorava justamente isso: a falta de acabamento, a alegria súbita, o relâmpago de realidade bruta metido no meio da canção sentimental.
Jadin sabia reconhecer, na segunda galeria, as antigas cumplicidades do bairro. Interrompia a própria canção para berrar um cumprimento, ria como colegial, batia na coxa com uma felicidade quase infantil. A directrice prometia para a próxima temporada o “lumineux” e um lugar mais alto no programa. O dinheiro melhor, claro, ficava sempre para depois. O mundo do palco distribui promessas com muito mais generosidade do que distribui salário.
Agora ela não vem. O régisseur rosna que não é gripe, que a moça caiu atravessada num “pieu” mais rentável. Encontrou alguém de fora do bairro, alguém com jantar ou quarto ou promessa mais imediata que a disciplina do café-concerto. É preciso viver, dizem todos, com a indiferença triste de quem já viu esse filme demais. Viver, no caso de Jadin, sempre quis dizer agarrar a oportunidade antes que ela sumisse, mesmo quando ela tinha cara de cilada.
A ausência dela abre um buraco no corredor. O bastidor inteiro comenta, adivinha, ri, sentencia. Brague continua prático. Eu continuo atrasada dentro de mim. Há momentos em que o music-hall se revela por inteiro: não como fantasia, mas como uma oficina de emergências, onde cada corpo pode faltar de um instante para outro e ainda assim a máquina precisa continuar girando.
E ela gira. Porque não há tempo para sentir falta de ninguém quando a plateia já começa a bater os talheres nos copos.