Capítulo 45 - Um país sem passado
Capítulo 45 - Um país sem passado
Já não distingo bem seus traços, pois a noite cai. Mas adivinhei, há pouco, sob a brusquidão da tentativa, tanto cálculo quanto arrebatamento: você estaria presa, não iria mais correr sozinha pelas estradas.
— Pobre Max — digo docemente.
— Está zombando de mim, diga? Fui ridículo?
Ele se humilha gentilmente, com habilidade. Quer trazer meu pensamento de volta ao gesto em si e impedir-me, assim, de pensar em seus motivos verdadeiros. E minto um pouquinho para tranquilizá-lo.
— Não estou zombando de você, Max. Há poucos homens, sabe, que se arriscariam a se lançar como você, grande diabo, sobre uma mulher, sem deixar ali todo o prestígio. É seu jeito de camponês que o salva, e seus olhos de lobo apaixonado. Parecia um trabalhador voltando do serviço ao cair da noite, derrubando uma moça à beira da estrada.
Deixo-o para refazer nos olhos o aro azulado que os aveluda e os torna cambiantes, para vestir um casaco, para prender à cabeça um desses chapéus profundos cuja forma e cujas cores bem escolhidas lembram a Max as Flores animadas de Champfleury, pequenas fadas-flores cobertas por uma papoula virada, uma campânula de lírio-do-vale, um grande íris de pétalas caídas.
Vamos sair, nós dois, e rodar devagar de automóvel na escuridão do Bois. Esses passeios da noite me são caros. Neles, seguro, na sombra, a mão do meu amigo, para saber que ele está ali, para que ele saiba que estou ali.
Posso então fechar os olhos e sonhar que parto com ele para um país desconhecido, onde eu não teria passado, não teria nome, onde renasceria com um rosto novo e um coração ignorante.
Ainda uma semana, e parto?
Partirei de verdade? Há horas, há dias em que duvido. Dias, sobretudo, de primavera precoce, quando meu amigo me leva para fora de Paris, a esses parques batidos, riscados de automóveis e bicicletas, mas que a estação acre e fresca torna misteriosos ainda assim. Uma névoa malva, no fim da tarde, aprofunda as avenidas, e o achado inesperado de uma jacinto silvestre, balançando ao vento três sinos afilados de porcelana azul e ingênua, toma ali o valor de um furto.
Na semana passada, caminhamos por muito tempo, sob um sol matinal, no Bois onde galopam os cavalariços. Estávamos ambos ativos, contentes, pouco falantes, e eu cantarolava uma cançãozinha que faz andar depressa. Na curva de uma alameda de cavalos deserta, paramos, nariz com focinho, diante de uma corça muito jovem, dourada, que perdeu a compostura ao nos ver e parou em vez de fugir.
Ela arquejava de emoção e seus joelhos finos tremiam, mas seus longos olhos, alongados ainda por um traço castanho, como os meus, exprimiam mais embaraço que medo. Eu teria querido tocar suas orelhas, orientadas para nós, peludas como folhas de verbasco, e aquele doce focinho de veludo algodoso. Quando estendi a mão, ela virou a testa num movimento selvagem e desapareceu.
— Você não a teria matado na caça, Max? — perguntei.
— Matar uma corça? Por que não uma mulher? — respondeu ele simplesmente.
Nesse dia, almoçamos em Ville-d'Avray, como todo mundo, naquele restaurante que suspende à beira d'água singulares terraços, terraços para comer e para deitar, e fomos comportados como amantes já saciados. Eu gostava de constatar em Max a mesma serenidade apaixonada de que me impregnam o ar livre, o vento puro, as árvores.
Apoiada nos cotovelos, olhava a água plana do lago, turva, oxidada em alguns pontos, e as aveleiras de amentilhos pendentes. Depois meus olhos voltavam ao bom companheiro da minha vida, com a sólida esperança de edificar para ele uma felicidade tão longa quanto essa própria vida.
Partirei de verdade? Há horas em que me ocupo, como em sonho, da partida. A nécessaire, a manta enrolada, o impermeável, exumados dos armários, reapareceram à luz, amolecidos, costurados, como se estivessem cansados de viagens. Esvaziei com nojo caixas de branco gorduroso rançoso, de vaselina amarelada que cheira a petróleo.
Essas ferramentas do meu ofício, agora as manejo sem amor. E Brague, vindo buscar notícias, foi recebido com tanta distração, com tanta cavalaria, que partiu muito fechado e, o que é mais grave, com um “até logo, cara amiga” do melhor tom. Ora, terei bastante tempo para vê-lo e desanuviá-lo em quarenta dias. Espero-o daqui a pouco, para as últimas instruções. Max virá um pouco mais tarde.