Universo da obra
Universo da obra
Capítulo 1 - Pronta cedo demaisDez e meia. Outra vez estou pronta cedo demais. Brague, meu camarada de pantomima, zomba disso como se fosse uma doença infantil que eu me recusasse a curar. Ele diz que, se dependesse de mim, a gente passaria base às sete e meia, entre um aperitivo e outro, só para não correr o risco de faltar tempo ao desespero.
Três anos de music-hall e teatro não me ensinaram a chegar com atraso elegante. Continuo pronta cedo demais, condenada a esses minutos vazios em que a mulher pintada me espera do outro lado do espelho. Se eu não abro um livro já relido, se eu não finjo interesse por um jornal amarrotado sobre a mesa de maquiagem, fico a sós com ela: a conselheira de pálpebras arroxeadas, boca vermelha demais, maçãs do rosto acesas como flores de jardim em febre.
Ela me pergunta, sem piedade, o que faço naquela gaiola branca, cercada por paredes riscadas por mãos ociosas, nervosas, presas. Em torno de mim, os nomes cortados no gesso, os desenhos indecentes, as iniciais grudadas umas às outras parecem restos de uma multidão feminina que passou por aqui sem se salvar. O teto vibra com os passos dos dançarinos lá em cima, como se eu estivesse dentro de um moinho. E a pergunta volta, sempre a mesma: por que aqui, por que assim, por que sozinha?
É a hora mais nítida e mais perigosa da noite. Nela, deposito minha fé inteira no acaso. Já não espero dele delicadeza. Ele me recolhe quando afundo e me sacode como um cão de resgate que salva mordendo. Ainda assim, confio. Cada vez que tudo ameaça se romper, alguma pequena aventura reaparece e fecha, com um elo improvisado, o colar dos meus dias.
O chão treme. Os russos se aquecem. Minha noite tem relógios infalíveis: uma cantora, depois os cães, depois a tosse de Jadin no ferro da escada, depois Bouty, depois os dançarinos, e por fim eu. Há conforto nessa engrenagem. Quando cada ruído chega na hora certa, o coração pode fingir que o mundo inteiro obedece a uma partitura.
Mas o frio nas mãos me desmente. O branco líquido racha sobre os dedos. É sábado: deixam que o público popular aqueça a sala com o próprio tumulto, e ninguém se lembra das loges dos artistas. Ali dentro, o corpo treme antes mesmo da entrada, como se fosse preciso sofrer um pouco para merecer a luz.
Um soco estala na porta. É Brague, já mascarado, sério, exato, com sua paciência de homem que sabe montar um número como quem monta uma armadilha. Subimos. No alto da escada de ferro, o calor seco do palco me envolve com sua sujeira familiar. Enquanto ele acerta o cenário e vigia cada detalhe com sua mania minuciosa, aproximo o olho do círculo luminoso no pano e espreito a sala.
Ela é bonita desse jeito sombrio que o bairro prefere: fumaça suspensa, gritos prontos, mulheres enfeitadas nas frisas como jardineiras brilhantes e, atrás delas, uma massa escura que tanto pode aplaudir quanto insultar com a mesma alegria. É para esse povo que eu me preparo. É diante dele que, em poucos minutos, deixarei de me pertencer.
Porque é isso que a cena ainda me oferece: um breve alívio de mim mesma. Quando a música pega meu corpo, quando a luz me endurece os contornos e a disciplina do número me fecha por dentro, tudo se simplifica. Eu já não preciso pensar se sou livre, se sou infeliz, se sou desejável, se estou perdida. Basta cair no momento certo, cruzar o palco, suportar a violência combinada sem desmanchar o rosto. Debaixo da brutalidade da ribalta, encontro uma espécie de proteção.
E, por alguns minutos, a mulher do espelho se cala.
Adaptação/revisão em português contemporâneo de La Vagabonde, de Colette, publicada originalmente em 1910 por P. Ollendorff, Paris. A proposta é reconstruir capítulo por capítulo a partir da edição em domínio público preservada pelo Internet Archive/Open Library, mantendo o ambiente do music-hall parisiense, a independência de Renée Néré e a tensão íntima entre desejo, trabalho e liberdade.
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