Os Condemnados - Bloco 02
Recitava Bouilhet:
Tu n'as jamais eté, dans tes jours les plus rares
Qu'un banal instrument sous mon archet vainqueur,
Et, come un air qui sonne au bois creux des guitares,
J'ai fait chanter mon reve au vide de ton coeur.
Descia
desencontradamente
Pontepara
Grande. Largata-ia. Revelara-se de uma perversao
inacreditavel.
Terrivel, lancinante, gritava pela Avenida Tiradentes.
Chegou a ponte. Havia gente parada. O rio,
grosso e nogturno, rodava. E ele ficou chorando
baixo, ao grande ar do parapeito, entre lampeoes.
O velho Lucas, recolhido ante o oratorio pequenino e sem vidro dos filhos fallecidos, com santos
nas paredes internas e uma corte de figuras celestes
de diversos tamanhos, trazidos ainda do Amazonas,
rezava por todas as madrugadas palidas ou azues.
Nada queria da vida que lhe dera alguma coisa e lhe
tirara mais do que lhe dera. Tinha o cao pequenino,
a neta ruiva, o moleque. E sabia que Deus o esperava
no fim da tarde vacillante dos seus dias.
Oh! Mas aqueMes
s bigodes estragavam-lhe O
rosto. E a vergonha daquillo tudo, sem lagrimas,
sem palavras... A Odette!
Alma caminhava como uma pessoa ferida. Nao
I nas ruas populosas.
Carregava um
via ninguem
amargor de predestinada dentro do pequeno coragosto suffiocante da vida invadira-lhe a
cao.
bogca, a garganta, as narinas. Entregara-se ja a tres
homens differentes. E agora Mauro exigia que eYla
sahisse de casa. Era dercerto mesmo a tola, a estipida, que ele dizia, aos berros e aos sogcos. Nao
podia deixar o velho avo assim. Depois que éfle
morresse, sim. Iria ao fim da terra, aos trambolhoes
cheios de lagrimas e com beijos as vezes. Uma deslumbrada loucura parava-lhe os olhos verdes no
fundo das olheiras.
Passou por ela alguem. Era sublime a vida assim nos pulsos implacaveis de Mauro. Mais... mais..
o ele nao sabia ter piedade... como era forte...
Como
como era tinico...
Alguem passou por ela. Tinha que sabir, deixar tuido, a casa, o velho, o caoginho com que
brincava.
Desceu longamente a Rua Florencio de Abreu.
Chegou a Luz. Tomou a diredcao do sobrado, no
begco terroso.
Joao do Carmo
duas vezes
cumprimentara-a
sem ser visto. Seguia-a de longe.
Uma surprehendente confianca voltara-lhe naquella caminhada, com o seu amor na frente.
moleque contara-lhe que o outro tinha deixado de passar por la.
Devia procural-a, affrontar uma situacao definitiva. Alma era o apoio poetico da sua desgarrada
existencia. Escrever-lhe-ia outra carta. Era verdade
que o avo atrapalhava-lhes os planos. Nao consentiria talvez no casamento. De-certo era o uinico estorvo da sua felicidade.
Na calma fosca da tarde, Joao do Carmo dirigiu-se para o clube alacre nas margens do Tieté. Ia
nadar na gloria dos seus musculos tesos. Havia de
vencer a resistencia do tremulo velho, amigo do
cao.
vezes, um enegrecimento baiNo emtanto, as
xava sobre aquela tonteira.
Se, ao menos, Mauro a amasse. Se encontrasse
nelle a correspondencia dos exaltados sentidos. Sabia que o adunco caften a trahia. Ao atravessarem
agora o largo claro do Paysandu, no demorado
odcaso azul, vira-o sorrir para uma sacada. Tivera
impetos de gritar aí
mesmo. Mas uma vergonha
absurda, cheia da sua virgindade invencida, contivera-a, dissuadira-a. Seria possivel entao! Tudo
no mundo era trahicao premeditada, engano maldoso!
Mesmo os santos, de pé, no esburacado oratorio,
nao a defendiam. Ela queria so uma coisa, so um
milagre -- o amor de Mauro, a fidelidade de Mauro.
Ou entao, pelo menos, que ele nao lhe jogasse ao
rosto a sua facilidade de conquistas, o seu deboche
insolente.
Sonhava de novo no leito, depois do jantar rapido, enfastiado, rolando a vermelha
cabeca nos
travesseiros molles. Qual.. se eMe lhe quiyesse bem
durasse a sla
seria por um instante, emquanto
Depois,
ela
ficaria
mocidade rendosa.
como
essas outras, que aprendera a’ conhecer na
casa
de D. Rosaura. Nao havia mesmo nada de bom
na vida.
ATRILOGIADOEXILIO
O remedio estava no champagne loiro, fervendo
as palitadas nas tacas crystalinas e largas do rendez-vous.
A existencia
era isso: uma
torturada kermesse... Barracas ao vento, bandeiras, muitas bandeiras e a charanga do pponographo de gdela monstruosa na sala escura, encerada e vasta, ou o son
do piano.. Dansar... como elye a enlacava, o seu
querido, o seu macho recuurvo de olhos de platina!
Queria un beijo, um beijo so e eMe lhe negava...
Do fundo do seu ser maravilhado, bemdizia-o pela
recusa. Era preciso subir, galgar, vencer obstaculos
intransponiveis para que ele lhe concedesse o beijo
supplicado.
Decidiram nervosamente.
Saíram, num taxi.
Na Luz, ela teve um fatalizado receio. O avo
talvez ja estivesse em casa. Que importava? Reagia
um pouco na suave bebedeira que a tomara. Ia fugir,
deixar para sempre o velho, o moleque, o caozinho.
Teve um sorriso cruel.
Pararam longe, a esquina. Mauro ficou esperando-a, sem dizer nada, no fundo de couro.
Ela penetrou. O relogio antigo marcou a hora
em seis badaladas metallicas, regulares, interminas.
Ena trazia comsigo uma triste tenacidade. Num
susto, esvagiou as gavetas da comoda antiga, tirou
duas blusas, duas camisas de dormir e as lembrancas compromettedoras de Mauro, um vidro quase
vagio de perfume, um baton de rouge.
Estacou. Ouvira ao seu lado, no outro quarto,
passadas vacillantes. Se ele viesse interrogala! Se
ele abrisse a porta de repente!
Estava toda gelada. Mas o velho sentara-se de
novo.
Viu Mauro la fora, esperando-a. Nao tinha
tempo de se comover, de dizer adeus aos antigos
Amarrotou tudo num embrulho, desceu
moveis...
cautelosa.
E abalou para o taxi, fazendo que nao enxergava a vizinhanca.
TRILOGIA DOEXILIO
telegraphista
ningem,num
morava
sem
quarto de sobrado antigo, na Avenida Tiradentes.
Para entrar, subia por corredores com degraus,
atravessava um cubiculo que atulhavam
imensas
malas etiquetadas de um vizirho. O quarto tinha
a cama estreita, a mesa, livros e cadeiras e uma so
janepla, clareando o papel desbotado das paredes.
Sobre o leito, pendia uma gravura destacada
de livro. Era Charles Baudelaire. Tinha um velho
retrato da mae morta, sobre a mesa desordenada.
Pairava sobre os seus dias o sonho de uima vida
tranquilya com Alma, sob a guarda dos antigos deuestacao ferroviaria minuscula.
ses tutelares, numa
Premeditava o agcesso na sua carreira longa e honesta. Levando o sonho fulvo pelo braco musculoso,
deixaria Sao Paulo, os baf-baf das manobras enfumacadas na gare magnifica, a solidao literaria e O
Esporte no rio.
A familia, perdera-a em Pernambuco: um:
man louca num hospicio, um irmao padre. Depoi. da
infancia livre, tivera uma educacao confusa num
collegio franceg.