Os Condemnados - Bloco 02 A Trilogia do Exílio · Capítulo 2 de 87
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Os Condemnados - Bloco 02

Recitava Bouilhet:

Tu n'as jamais eté, dans tes jours les plus rares

Qu'un banal instrument sous mon archet vainqueur,

Et, come un air qui sonne au bois creux des guitares,

J'ai fait chanter mon reve au vide de ton coeur.

Descia

desencontradamente

Pontepara

Grande. Largata-ia. Revelara-se de uma perversao

inacreditavel.

Terrivel, lancinante, gritava pela Avenida Tiradentes.

Chegou a ponte. Havia gente parada. O rio,

grosso e nogturno, rodava. E ele ficou chorando

baixo, ao grande ar do parapeito, entre lampeoes.

O velho Lucas, recolhido ante o oratorio pequenino e sem vidro dos filhos fallecidos, com santos

nas paredes internas e uma corte de figuras celestes

de diversos tamanhos, trazidos ainda do Amazonas,

rezava por todas as madrugadas palidas ou azues.

Nada queria da vida que lhe dera alguma coisa e lhe

tirara mais do que lhe dera. Tinha o cao pequenino,

a neta ruiva, o moleque. E sabia que Deus o esperava

no fim da tarde vacillante dos seus dias.

Oh! Mas aqueMes

s bigodes estragavam-lhe O

rosto. E a vergonha daquillo tudo, sem lagrimas,

sem palavras... A Odette!

Alma caminhava como uma pessoa ferida. Nao

I nas ruas populosas.

Carregava um

via ninguem

amargor de predestinada dentro do pequeno coragosto suffiocante da vida invadira-lhe a

cao.

bogca, a garganta, as narinas. Entregara-se ja a tres

homens differentes. E agora Mauro exigia que eYla

sahisse de casa. Era dercerto mesmo a tola, a estipida, que ele dizia, aos berros e aos sogcos. Nao

podia deixar o velho avo assim. Depois que éfle

morresse, sim. Iria ao fim da terra, aos trambolhoes

cheios de lagrimas e com beijos as vezes. Uma deslumbrada loucura parava-lhe os olhos verdes no

fundo das olheiras.

Passou por ela alguem. Era sublime a vida assim nos pulsos implacaveis de Mauro. Mais... mais..

o ele nao sabia ter piedade... como era forte...

Como

como era tinico...

Alguem passou por ela. Tinha que sabir, deixar tuido, a casa, o velho, o caoginho com que

brincava.

Desceu longamente a Rua Florencio de Abreu.

Chegou a Luz. Tomou a diredcao do sobrado, no

begco terroso.

Joao do Carmo

duas vezes

cumprimentara-a

sem ser visto. Seguia-a de longe.

Uma surprehendente confianca voltara-lhe naquella caminhada, com o seu amor na frente.

moleque contara-lhe que o outro tinha deixado de passar por la.

Devia procural-a, affrontar uma situacao definitiva. Alma era o apoio poetico da sua desgarrada

existencia. Escrever-lhe-ia outra carta. Era verdade

que o avo atrapalhava-lhes os planos. Nao consentiria talvez no casamento. De-certo era o uinico estorvo da sua felicidade.

Na calma fosca da tarde, Joao do Carmo dirigiu-se para o clube alacre nas margens do Tieté. Ia

nadar na gloria dos seus musculos tesos. Havia de

vencer a resistencia do tremulo velho, amigo do

cao.

vezes, um enegrecimento baiNo emtanto, as

xava sobre aquela tonteira.

Se, ao menos, Mauro a amasse. Se encontrasse

nelle a correspondencia dos exaltados sentidos. Sabia que o adunco caften a trahia. Ao atravessarem

agora o largo claro do Paysandu, no demorado

odcaso azul, vira-o sorrir para uma sacada. Tivera

impetos de gritar aí

mesmo. Mas uma vergonha

absurda, cheia da sua virgindade invencida, contivera-a, dissuadira-a. Seria possivel entao! Tudo

no mundo era trahicao premeditada, engano maldoso!

Mesmo os santos, de pé, no esburacado oratorio,

nao a defendiam. Ela queria so uma coisa, so um

milagre -- o amor de Mauro, a fidelidade de Mauro.

Ou entao, pelo menos, que ele nao lhe jogasse ao

rosto a sua facilidade de conquistas, o seu deboche

insolente.

Sonhava de novo no leito, depois do jantar rapido, enfastiado, rolando a vermelha

cabeca nos

travesseiros molles. Qual.. se eMe lhe quiyesse bem

durasse a sla

seria por um instante, emquanto

Depois,

ela

ficaria

mocidade rendosa.

como

essas outras, que aprendera a’ conhecer na

casa

de D. Rosaura. Nao havia mesmo nada de bom

na vida.

ATRILOGIADOEXILIO

O remedio estava no champagne loiro, fervendo

as palitadas nas tacas crystalinas e largas do rendez-vous.

A existencia

era isso: uma

torturada kermesse... Barracas ao vento, bandeiras, muitas bandeiras e a charanga do pponographo de gdela monstruosa na sala escura, encerada e vasta, ou o son

do piano.. Dansar... como elye a enlacava, o seu

querido, o seu macho recuurvo de olhos de platina!

Queria un beijo, um beijo so e eMe lhe negava...

Do fundo do seu ser maravilhado, bemdizia-o pela

recusa. Era preciso subir, galgar, vencer obstaculos

intransponiveis para que ele lhe concedesse o beijo

supplicado.

Decidiram nervosamente.

Saíram, num taxi.

Na Luz, ela teve um fatalizado receio. O avo

talvez ja estivesse em casa. Que importava? Reagia

um pouco na suave bebedeira que a tomara. Ia fugir,

deixar para sempre o velho, o moleque, o caozinho.

Teve um sorriso cruel.

Pararam longe, a esquina. Mauro ficou esperando-a, sem dizer nada, no fundo de couro.

Ela penetrou. O relogio antigo marcou a hora

em seis badaladas metallicas, regulares, interminas.

Ena trazia comsigo uma triste tenacidade. Num

susto, esvagiou as gavetas da comoda antiga, tirou

duas blusas, duas camisas de dormir e as lembrancas compromettedoras de Mauro, um vidro quase

vagio de perfume, um baton de rouge.

Estacou. Ouvira ao seu lado, no outro quarto,

passadas vacillantes. Se ele viesse interrogala! Se

ele abrisse a porta de repente!

Estava toda gelada. Mas o velho sentara-se de

novo.

Viu Mauro la fora, esperando-a. Nao tinha

tempo de se comover, de dizer adeus aos antigos

Amarrotou tudo num embrulho, desceu

moveis...

cautelosa.

E abalou para o taxi, fazendo que nao enxergava a vizinhanca.

TRILOGIA DOEXILIO

telegraphista

ningem,num

morava

sem

quarto de sobrado antigo, na Avenida Tiradentes.

Para entrar, subia por corredores com degraus,

atravessava um cubiculo que atulhavam

imensas

malas etiquetadas de um vizirho. O quarto tinha

a cama estreita, a mesa, livros e cadeiras e uma so

janepla, clareando o papel desbotado das paredes.

Sobre o leito, pendia uma gravura destacada

de livro. Era Charles Baudelaire. Tinha um velho

retrato da mae morta, sobre a mesa desordenada.

Pairava sobre os seus dias o sonho de uima vida

tranquilya com Alma, sob a guarda dos antigos deuestacao ferroviaria minuscula.

ses tutelares, numa

Premeditava o agcesso na sua carreira longa e honesta. Levando o sonho fulvo pelo braco musculoso,

deixaria Sao Paulo, os baf-baf das manobras enfumacadas na gare magnifica, a solidao literaria e O

Esporte no rio.

A familia, perdera-a em Pernambuco: um:

man louca num hospicio, um irmao padre. Depoi. da

infancia livre, tivera uma educacao confusa num

collegio franceg.

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