A Estrella de Absyntho - Bloco 09
Eu era a bella adormecida no bosque de minha cama... Ele
vein...
E accordou-te?
Nao. Dormiu comigo.
Quem?
Alma ficara
momento pensativa.
Disse:
Foi um sonho mau.
Mas com quem sonhaste? Com ele?
Com o teu cafageste?
Ela olhou-o num assomo rapido de odio,
quis levantar-se, mas ele tomara-lhe os bra-
cos violentos, tentando derrubal-a sobre os
travesseiros.
Amassas-me o chapeu, bruto!
Insensivel, Jorge proseguiu:
Conta! Sonhaste com ele?
Sonhei.
Foi um sonho?
Quem sabe?
Como?
Jorge largara-a, deitara-se de novo. Alo cloche de palha rustica,rema compoz
tomou a bolsa matinal de missangas.
Vens comigo?
Espera... disse ele.
Ergueu-se, vestiu-se, emquanto, sentada,
Alma olhava sem ver.
Num regresso de psicose angustiada,
Jorge sentira logo um odio renovado contra
a desgraca que lhe fizera a maior humilhacao da vida.
Nos encontros coin o desconhecido que
continuava a gingar e a sorrir pelo Triangulo, numa indifferenca natural e bem vestida,
o esculptor tinha impetos de destruil-o. Chegou a enroscar-se numa premeditacao de as-
sassinato, por toda uma semana. Esperalo-ia
a volta de um baile no deserto'escuro da Rua
da Boa Morte. Tinha confianca na sua firmeza. Ninguem poderia descobrir, pois ninguem sabia.
Perdia-se horas e horas num circulo vicioso de idea fixa: queria saber somente do
outro, seguil-o, arratal-o. Uma vez, viu-o no
centro, acompanhando uma menina alta,de
luto. Sorriam numa mutua sympatlia conversando. Pararam um instante a vitrina de
uma casa de modas. E na outra semana, pela
noite, num dos seus passeios dolorosos pelos
bairros distantes, o esculptor surprehendeu a
mesma silhueta de luto, em sua frente. Passou por ela num subito interesse, ela sorriulhe na sombra.
Onde mora?
Aqui perto..
E acompanhou-a a um rendez-yous da
vizinhanca. No ambiente vulgar do quarto
mobilado, ela despiu-se num velho habito de
prostituicao. Era banal, sem intelligencia, sem
altractivos. Ele manteve-se frio, incoherente,
absurdo. A mulher chamou-o de viciado, depois perguntou-lhe se sabia anegdotas. Quiz
excitalo inutilmente. Ele pagou e saiu.
78—
Mauro atirou-se num impeto de morte.
Ela quiy salvar-se, correr para o quarto de
Milagre. Arrastava-se de cocoras, gemendo, O
rosto marcado de horror.
Ele agarrara-a e batia. Espedacou-a contra um movel. Voltou como um fugitivo. Saiu.
Ela ficou estirada no sobrado, Parecia
que ihe tivessem arrancado qualquer coisa
la dentro.
Na alva estrellada, Jorge d'Alvellos accorrido pediu a Deus, de joelhos no patamar
solitario, que fizesse parar a terra, para que
nao amanhecesse.
La dentro, junto de Milagre que dormia
embrutecida da vigilia, Alma gritava, estracaIhada de perfuracoes.
Estava desfigurado. Saiu cambaleando.
Voltou com o clinico do bairro, na manha in-
sensivel e luminosa. O homem velho e baixote interrogou-a.
-Foi um tombo da escada. Rolei até em
baixo..
E de novo torcia-se, gritando.
Ele nao quis intervir. Podia ser um caso
grave. Aconselhou o internamento num hospital popular.
Numa reorganisacao de forcas perdidas,
Jorge d'Alvellos murmurou providencias desMilagre partiu, buscar um taxi.
coynexas.
O automovel atravessou a portaria
engradada em negro da Rua Cezario Motta, contornou suavemente o jardim de. cactjs e cyprestes, e estacou a primeira porta da larga
entrada em tijolo da Santa Casa de Misericordia. Havia uma ambulancia parada um
pouco adeante. Jorge gritou por uma padiola
ao enfermeiro da Aisstencia que o olhava.
Depositaram-na na sala da entrada, a esquerda.
Jorge ficou alli, um instante, inerte, idiota, vendo-a quasr no chao, sobre aquela maca de feridos. Depois, penetrou desabaladamente pelos corredores extensos, pedindo
pelo amor de Deus que lhe deixassein falar
com uma irma de caridade.
O medico que conversava com outro sobre a janellinha de Krause, aberta, pela manha, na cabeca de uma trepanada, explicou
lhe que era preciso intervir logo. Houvera
um alarmante comeco de paralysia intestinal. D. Alma soffria de-certo de uma velha
annexite. A queda precipitou o material
seeptico na cavidade. Apresentava todos os
symptomas... Fora um horroroso desastre...
Calfira a tarde. Pugeram-na entre lencoes na maca rolante da pejada enfermaria.
E 'o carrinho seguiu entre camas curiosas, ate
a sala grande de operacoes, clara, rigorosa,
na sua installacao de armarios e boioes, onde desinfegtantes punham cheiros acres e cores amargas -- verde, roxo, laranja.
Por cima, desenhava-se vazio o amphitheatro donde os estudantes assistiam as licoes vivas do hospital.
Sem pinga de sangue ne rosto ciironado,
reconduziram-na cautelosamente para a maca horizontal. No cortejo de irmas e enfermeiras, Jorge ia, automatico, solemne.
Estavam na terceira manha de hospital.
Alma resistira ao choque operatorio. Mas O
nariz se afilara extremamente entre os olhos
roxos e baixados. Amarella de cera, a doente
passara assim todo o dia e a noite; depois
tivera, pouco a pouco, uma normalizacao de
estado geral, sem vomitos, que puzera doidas
esperancas no coracao de Jorge e fizera mesmo o medico interno pensar que a salvava.
A febre nao subira nas crises da tarde.
Mas agora, ao anoitecer daquelle dia, Irman
Maria retirara o thermometro marcando quase
quarenta graus.
Jorge sentiu gelo na espinha e veiq perscrutal-a. Ela parecia dormir; descerrou O
martyrio dos olhos e, vendo-o extadtico, disse :
Eu nao queria morrer... Era tao bom
quando tu chegavas em casa... La fora, a
fanfarra do quartel...
Aterrado de estar so, ouvindo-a, élle chamou nervosamente a irman que agasalhava
oulra doente. Ela veiu na sua roupagem
branca.
-Irmay! supplicou-a enferma, da-me o
crucifixo..
A freira desprendeu a grande cruz de
metal que lhe pendia do peito e, ajoelhandose, fez Alma beijal-a.
Deixa-o comigo, Irman!
Deixo, filha.
Jorge, meu Jorge, que castigo! Vou
morrer..
Ele quig falar, protestar, mas ficou
olhando-a, imovel, petrificado. Uma sensacao fria penetrara-o, conservou-se dolorosa
nas espaduas, nos bracos, nas pernas; e teve
a certeza physica de que sabiria dalli, mataria Mauro e rebentaria os miolos a bala.
A tarde descera num
imaculado azul
la fora: era Junho sem frio.
A sala sussurrante cahia em sombra. A
enfermeira da noite veid saudar a doente e
accender as luzes centraes que espalharam
dos abat-jours de vidro, sobre os leitos inquietos, uma claridade offensiva. Apagaramnas depois, para deixar somente ao fundo
uma lampada prebaga.
Jorge ia e vinha, olhando tudo: a passadeira incolor, a marcar un caminho sem fim,
entre as camas, as doentes largadas como
trouxas, as convalencentes em riscadinho..
Alma que o detivera, a principio, junto ao
leito, deixava-o agora.
Mas ele parecia
perseguido por uma
idea. Achegou-se, anQiado, opprimido de solugos. Ficaram naquelle silencio de desastre.
Clle. Quero pedir-te
Alma! Exclamou ?
uma coisa... Crés em Deus, eu tambem. Tenho, desde creanca, uma oracao miraculosa.
Vamos resar juntos!
Quero, disse a enferma, pondo nelle
os olhos verdes, maguados e distanfes.
Entao,
da sala, Jormurmurio
ge leu em um papel o psalmo 90 de David.
Alma acompanhava-o em tom fragil, de maos
juntas sobre os seios. Jorge tinha inflexoes
ardentes que se perdiam no sussurro das febres. Depois, a della seguia, credula, terna,
supplicante.
"Ele é o meu Deus. Nelle porei toda
a minha esperanca, porque me livrou dos lacos dos infernaes cacadores e da rigorosa palavra.