A Estrella de Absyntho - Bloco 09 A Trilogia do Exílio · Capítulo 36 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 09

Eu era a bella adormecida no bosque de minha cama... Ele

vein...

E accordou-te?

Nao. Dormiu comigo.

Quem?

Alma ficara

momento pensativa.

Disse:

Foi um sonho mau.

Mas com quem sonhaste? Com ele?

Com o teu cafageste?

Ela olhou-o num assomo rapido de odio,

quis levantar-se, mas ele tomara-lhe os bra-

cos violentos, tentando derrubal-a sobre os

travesseiros.

Amassas-me o chapeu, bruto!

Insensivel, Jorge proseguiu:

Conta! Sonhaste com ele?

Sonhei.

Foi um sonho?

Quem sabe?

Como?

Jorge largara-a, deitara-se de novo. Alo cloche de palha rustica,rema compoz

tomou a bolsa matinal de missangas.

Vens comigo?

Espera... disse ele.

Ergueu-se, vestiu-se, emquanto, sentada,

Alma olhava sem ver.

Num regresso de psicose angustiada,

Jorge sentira logo um odio renovado contra

a desgraca que lhe fizera a maior humilhacao da vida.

Nos encontros coin o desconhecido que

continuava a gingar e a sorrir pelo Triangulo, numa indifferenca natural e bem vestida,

o esculptor tinha impetos de destruil-o. Chegou a enroscar-se numa premeditacao de as-

sassinato, por toda uma semana. Esperalo-ia

a volta de um baile no deserto'escuro da Rua

da Boa Morte. Tinha confianca na sua firmeza. Ninguem poderia descobrir, pois ninguem sabia.

Perdia-se horas e horas num circulo vicioso de idea fixa: queria saber somente do

outro, seguil-o, arratal-o. Uma vez, viu-o no

centro, acompanhando uma menina alta,de

luto. Sorriam numa mutua sympatlia conversando. Pararam um instante a vitrina de

uma casa de modas. E na outra semana, pela

noite, num dos seus passeios dolorosos pelos

bairros distantes, o esculptor surprehendeu a

mesma silhueta de luto, em sua frente. Passou por ela num subito interesse, ela sorriulhe na sombra.

Onde mora?

Aqui perto..

E acompanhou-a a um rendez-yous da

vizinhanca. No ambiente vulgar do quarto

mobilado, ela despiu-se num velho habito de

prostituicao. Era banal, sem intelligencia, sem

altractivos. Ele manteve-se frio, incoherente,

absurdo. A mulher chamou-o de viciado, depois perguntou-lhe se sabia anegdotas. Quiz

excitalo inutilmente. Ele pagou e saiu.

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Mauro atirou-se num impeto de morte.

Ela quiy salvar-se, correr para o quarto de

Milagre. Arrastava-se de cocoras, gemendo, O

rosto marcado de horror.

Ele agarrara-a e batia. Espedacou-a contra um movel. Voltou como um fugitivo. Saiu.

Ela ficou estirada no sobrado, Parecia

que ihe tivessem arrancado qualquer coisa

la dentro.

Na alva estrellada, Jorge d'Alvellos accorrido pediu a Deus, de joelhos no patamar

solitario, que fizesse parar a terra, para que

nao amanhecesse.

La dentro, junto de Milagre que dormia

embrutecida da vigilia, Alma gritava, estracaIhada de perfuracoes.

Estava desfigurado. Saiu cambaleando.

Voltou com o clinico do bairro, na manha in-

sensivel e luminosa. O homem velho e baixote interrogou-a.

-Foi um tombo da escada. Rolei até em

baixo..

E de novo torcia-se, gritando.

Ele nao quis intervir. Podia ser um caso

grave. Aconselhou o internamento num hospital popular.

Numa reorganisacao de forcas perdidas,

Jorge d'Alvellos murmurou providencias desMilagre partiu, buscar um taxi.

coynexas.

O automovel atravessou a portaria

engradada em negro da Rua Cezario Motta, contornou suavemente o jardim de. cactjs e cyprestes, e estacou a primeira porta da larga

entrada em tijolo da Santa Casa de Misericordia. Havia uma ambulancia parada um

pouco adeante. Jorge gritou por uma padiola

ao enfermeiro da Aisstencia que o olhava.

Depositaram-na na sala da entrada, a esquerda.

Jorge ficou alli, um instante, inerte, idiota, vendo-a quasr no chao, sobre aquela maca de feridos. Depois, penetrou desabaladamente pelos corredores extensos, pedindo

pelo amor de Deus que lhe deixassein falar

com uma irma de caridade.

O medico que conversava com outro sobre a janellinha de Krause, aberta, pela manha, na cabeca de uma trepanada, explicou

lhe que era preciso intervir logo. Houvera

um alarmante comeco de paralysia intestinal. D. Alma soffria de-certo de uma velha

annexite. A queda precipitou o material

seeptico na cavidade. Apresentava todos os

symptomas... Fora um horroroso desastre...

Calfira a tarde. Pugeram-na entre lencoes na maca rolante da pejada enfermaria.

E 'o carrinho seguiu entre camas curiosas, ate

a sala grande de operacoes, clara, rigorosa,

na sua installacao de armarios e boioes, onde desinfegtantes punham cheiros acres e cores amargas -- verde, roxo, laranja.

Por cima, desenhava-se vazio o amphitheatro donde os estudantes assistiam as licoes vivas do hospital.

Sem pinga de sangue ne rosto ciironado,

reconduziram-na cautelosamente para a maca horizontal. No cortejo de irmas e enfermeiras, Jorge ia, automatico, solemne.

Estavam na terceira manha de hospital.

Alma resistira ao choque operatorio. Mas O

nariz se afilara extremamente entre os olhos

roxos e baixados. Amarella de cera, a doente

passara assim todo o dia e a noite; depois

tivera, pouco a pouco, uma normalizacao de

estado geral, sem vomitos, que puzera doidas

esperancas no coracao de Jorge e fizera mesmo o medico interno pensar que a salvava.

A febre nao subira nas crises da tarde.

Mas agora, ao anoitecer daquelle dia, Irman

Maria retirara o thermometro marcando quase

quarenta graus.

Jorge sentiu gelo na espinha e veiq perscrutal-a. Ela parecia dormir; descerrou O

martyrio dos olhos e, vendo-o extadtico, disse :

Eu nao queria morrer... Era tao bom

quando tu chegavas em casa... La fora, a

fanfarra do quartel...

Aterrado de estar so, ouvindo-a, élle chamou nervosamente a irman que agasalhava

oulra doente. Ela veiu na sua roupagem

branca.

-Irmay! supplicou-a enferma, da-me o

crucifixo..

A freira desprendeu a grande cruz de

metal que lhe pendia do peito e, ajoelhandose, fez Alma beijal-a.

Deixa-o comigo, Irman!

Deixo, filha.

Jorge, meu Jorge, que castigo! Vou

morrer..

Ele quig falar, protestar, mas ficou

olhando-a, imovel, petrificado. Uma sensacao fria penetrara-o, conservou-se dolorosa

nas espaduas, nos bracos, nas pernas; e teve

a certeza physica de que sabiria dalli, mataria Mauro e rebentaria os miolos a bala.

A tarde descera num

imaculado azul

la fora: era Junho sem frio.

A sala sussurrante cahia em sombra. A

enfermeira da noite veid saudar a doente e

accender as luzes centraes que espalharam

dos abat-jours de vidro, sobre os leitos inquietos, uma claridade offensiva. Apagaramnas depois, para deixar somente ao fundo

uma lampada prebaga.

Jorge ia e vinha, olhando tudo: a passadeira incolor, a marcar un caminho sem fim,

entre as camas, as doentes largadas como

trouxas, as convalencentes em riscadinho..

Alma que o detivera, a principio, junto ao

leito, deixava-o agora.

Mas ele parecia

perseguido por uma

idea. Achegou-se, anQiado, opprimido de solugos. Ficaram naquelle silencio de desastre.

Clle. Quero pedir-te

Alma! Exclamou ?

uma coisa... Crés em Deus, eu tambem. Tenho, desde creanca, uma oracao miraculosa.

Vamos resar juntos!

Quero, disse a enferma, pondo nelle

os olhos verdes, maguados e distanfes.

Entao,

da sala, Jormurmurio

ge leu em um papel o psalmo 90 de David.

Alma acompanhava-o em tom fragil, de maos

juntas sobre os seios. Jorge tinha inflexoes

ardentes que se perdiam no sussurro das febres. Depois, a della seguia, credula, terna,

supplicante.

"Ele é o meu Deus. Nelle porei toda

a minha esperanca, porque me livrou dos lacos dos infernaes cacadores e da rigorosa palavra.

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