Os Condemnados - Bloco 13
A casa é minha!
Entao, do peito que se opprimira espedacado,
saltou a innocencia de tanta miseria. Ela era una
coitada que ninguem soubera defender. O que lhe
acontecera era o resultado do seu desamparo. As
filhas que nao tem mae nem pae sao assin mesno.
O velho quis discutir, gritar. Mas como ela
continuasse, ficou escutando. Baixou a cabeca ante
a eloquencia imprevista que pulava aos golfoes da
bogca tremula e rubra. Terminara. Houve um silencio. E ela disse ainda que nao sahia porque nao
tinha dinheiro e nao tintha onde dormir.
Do ser convulso as lagrimas saltaram naquela
confissao de desgraca. O velho desnorteara-se choroso. Talvez devesse perdoar. Ficou andando para ca
e para la, envenenando-se de funo e de lagrimas
grossas, emquanto ela foi sentidamente se deitar.
Sahira pelas ruas, obedecendo o anatllema da
vespera. A manha era toda cinza no ar, no ceu, na
gente.
Chegou a estacao da Luz. Teve uma vaga repulsa em pensar que podia encontrar a figura importuna do telegraphista. Queria estar so, com a sua
tragedia estalada.
No Jardim Publico aberto, a natureza, despenteada e matinal, arfava ao vento. Atravessou-o eim
regta ; saliu. Encaminhou-se por esquinas populosas
e pobres. Estava no Bom Retiro. Desceria ate la
em baixo, até as varzeas finaes da cidade. Levava,
no seu bojo crescido, o filhinho que vivia, que seria
seu amigo.
Bondes passavam pejados
lopopulares, garotos
brincavam em bandos maltrapiinos,
carrocas iam
lentamente.
Chegara a irma rua sem calcamento que se perdlia no camipo. Penetrou nuuma estrada terrosa aberta
na relva pisada. Em sua frente, desenhou-se a sinuosidade do terreno onde corria o Tiete. Num porto
quieto, carrocas recolhiam areia. E o rio appareceu
de vidro, a flor das margens calvas.
paravam, na distancia . Um caozinho
Vagcas
ladrou.
A cidade mudara de silhueta. Um vento rispido aggrediu-a. O grande Jesus da torre tutelar
do Sagrado Coracao dava-lhe as costas. Pensou va-
OS CONDEMINADOS
gamente em se matar, po.
vinganca, em apparecer
boiando nas aguas glaciaes, como uma Ophhelia de
gravura.
As carrocas enchiam-se lentamente de areia
peneirada. O quadro simples de rude trabalho attraMiu-a. Teve ima vontade de viver assim, entre animaes soltos e gente descalca.
Um cheiro malsao, vindo da embogcadura dos
egottos cidadinos, persistia.
Voltou. Refez o caminho andado. Nao iria
mais para casa. Uma mao persuasiva afastava-a
a conderhnacao, pelos
do refugio antigo,como uma
Kombros. Nao tornaria mais. Alcancou as ruas popilosas. Estava perto do Jardim.
E, de repente, sobre um iyhmenso muro vermellio, desenhou-se, ma pallidez do dia, uma silhueta
lepida de soldado. Trazia uma carabina a tiracolyo
e andava para ca e para la. Logo, além, na continuidade intermina do muro, outro soldado appareceul
como o primeiro, caminhando tambem, vigilante e
solido. Eram os fundos da cadeia da Luz.
Aqueles dois solda bs renovavam-se ali, dia c
noite, para atirar, implacavelmente, sobre os condemnados quie quigessem fugir.
Tomou depressa um bonde que passava para a
cidade. E partiu a
procura do bordel onde Mauro
de-certo estaria dormindo com aquela viciada da
Marguerite.
Ele fet-a entrar no quarto elegante em que
morava, sobre o tumulto de um restaurante nodturno
na Rua Conserheiro Chrispiniano.
claridade fechada, ela viu sobre o leito
exiguo, recoberto por uma colcha felpuda e multicor, uum cao cinzento e enorme, estirado nas duas
patas tranquillas. O animal, sem erguer a cabeca,
balancou a cauda contente.
Mauro foi acariciar-lhe a pelle luzida e grossa.
OS CONDEMINADOS
Ela examinou retratos sermi-nus de mulheres,
em leque, sobre o leito. Sentada a um canto, os seus
olhos esfomeados pediam. Ele deu-lhe duras pratas
para ir almocar.
Passaram o dia juntos, fazendo malas. Ele
partia na manha vindoura para a casa de um tio
materno em Guaratingueta. E, para dormirem, tomou um outro quarto da casa de comodos mobilados.
Havia apenas una lampada perdida num desmesurado abat-jour. O quarto atufava-se de estofos, de
moveis, de pequenos nadas subtis e amaveis. Sobre
O penteador de tres espelhos, fazia parada todo um
arsenal de mystificacoes da belleza. Ela apreciou,
num vago deslumbramento, as escovinhas para maquillages, de diversos tamanhos, os pentes recurvos,
os cosmeticos de todas as cores, os boioes de perfume de todos os estylos, as cremes, os aparadores
complicados das unhas.
Nada (Lisso presta, comentou Mauro dei-
tado, em cuecas ve seda. So ha de bom artigo allemao. E, durarte a guerra, nao vem.
Elye conservava o seu prestigio integral de bello
macho, feito na intimidade das prostituicoes.
E Alma, vendo-o tranquilyo, forte, como se nenhuma sombra pesasse sobre os seus dias, ficou
agcordada, pensando.
Uma pendulazinha ogculta palpitava na sombra.
Os seus olhos haviam-se habituado ao escuro. Ely
percebia a dobra longa das cortinas, as portas talvez. Claridades. estylizavan-se pouco a pouico.
Vinham do interior da casa risos macabros.
Eram os fregueges que chegavam e partiam. O relogiozinho pulsava, regular, impressionante, como
uma voz de outro mundo. A noite andava la fora
de muletas.
Um braco ficara preso sob a cabeca pesada de
Mauro e doia-lhe. Que bom correrem as horas! A
terra andava levando o enterro dos vivos. O enterro
comecava no dia do nascimento de cada uim.