Os Condemnados - Bloco 13 A Trilogia do Exílio · Capítulo 13 de 87
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Os Condemnados - Bloco 13

A casa é minha!

Entao, do peito que se opprimira espedacado,

saltou a innocencia de tanta miseria. Ela era una

coitada que ninguem soubera defender. O que lhe

acontecera era o resultado do seu desamparo. As

filhas que nao tem mae nem pae sao assin mesno.

O velho quis discutir, gritar. Mas como ela

continuasse, ficou escutando. Baixou a cabeca ante

a eloquencia imprevista que pulava aos golfoes da

bogca tremula e rubra. Terminara. Houve um silencio. E ela disse ainda que nao sahia porque nao

tinha dinheiro e nao tintha onde dormir.

Do ser convulso as lagrimas saltaram naquela

confissao de desgraca. O velho desnorteara-se choroso. Talvez devesse perdoar. Ficou andando para ca

e para la, envenenando-se de funo e de lagrimas

grossas, emquanto ela foi sentidamente se deitar.

Sahira pelas ruas, obedecendo o anatllema da

vespera. A manha era toda cinza no ar, no ceu, na

gente.

Chegou a estacao da Luz. Teve uma vaga repulsa em pensar que podia encontrar a figura importuna do telegraphista. Queria estar so, com a sua

tragedia estalada.

No Jardim Publico aberto, a natureza, despenteada e matinal, arfava ao vento. Atravessou-o eim

regta ; saliu. Encaminhou-se por esquinas populosas

e pobres. Estava no Bom Retiro. Desceria ate la

em baixo, até as varzeas finaes da cidade. Levava,

no seu bojo crescido, o filhinho que vivia, que seria

seu amigo.

Bondes passavam pejados

lopopulares, garotos

brincavam em bandos maltrapiinos,

carrocas iam

lentamente.

Chegara a irma rua sem calcamento que se perdlia no camipo. Penetrou nuuma estrada terrosa aberta

na relva pisada. Em sua frente, desenhou-se a sinuosidade do terreno onde corria o Tiete. Num porto

quieto, carrocas recolhiam areia. E o rio appareceu

de vidro, a flor das margens calvas.

paravam, na distancia . Um caozinho

Vagcas

ladrou.

A cidade mudara de silhueta. Um vento rispido aggrediu-a. O grande Jesus da torre tutelar

do Sagrado Coracao dava-lhe as costas. Pensou va-

OS CONDEMINADOS

gamente em se matar, po.

vinganca, em apparecer

boiando nas aguas glaciaes, como uma Ophhelia de

gravura.

As carrocas enchiam-se lentamente de areia

peneirada. O quadro simples de rude trabalho attraMiu-a. Teve ima vontade de viver assim, entre animaes soltos e gente descalca.

Um cheiro malsao, vindo da embogcadura dos

egottos cidadinos, persistia.

Voltou. Refez o caminho andado. Nao iria

mais para casa. Uma mao persuasiva afastava-a

a conderhnacao, pelos

do refugio antigo,como uma

Kombros. Nao tornaria mais. Alcancou as ruas popilosas. Estava perto do Jardim.

E, de repente, sobre um iyhmenso muro vermellio, desenhou-se, ma pallidez do dia, uma silhueta

lepida de soldado. Trazia uma carabina a tiracolyo

e andava para ca e para la. Logo, além, na continuidade intermina do muro, outro soldado appareceul

como o primeiro, caminhando tambem, vigilante e

solido. Eram os fundos da cadeia da Luz.

Aqueles dois solda bs renovavam-se ali, dia c

noite, para atirar, implacavelmente, sobre os condemnados quie quigessem fugir.

Tomou depressa um bonde que passava para a

cidade. E partiu a

procura do bordel onde Mauro

de-certo estaria dormindo com aquela viciada da

Marguerite.

Ele fet-a entrar no quarto elegante em que

morava, sobre o tumulto de um restaurante nodturno

na Rua Conserheiro Chrispiniano.

claridade fechada, ela viu sobre o leito

exiguo, recoberto por uma colcha felpuda e multicor, uum cao cinzento e enorme, estirado nas duas

patas tranquillas. O animal, sem erguer a cabeca,

balancou a cauda contente.

Mauro foi acariciar-lhe a pelle luzida e grossa.

OS CONDEMINADOS

Ela examinou retratos sermi-nus de mulheres,

em leque, sobre o leito. Sentada a um canto, os seus

olhos esfomeados pediam. Ele deu-lhe duras pratas

para ir almocar.

Passaram o dia juntos, fazendo malas. Ele

partia na manha vindoura para a casa de um tio

materno em Guaratingueta. E, para dormirem, tomou um outro quarto da casa de comodos mobilados.

Havia apenas una lampada perdida num desmesurado abat-jour. O quarto atufava-se de estofos, de

moveis, de pequenos nadas subtis e amaveis. Sobre

O penteador de tres espelhos, fazia parada todo um

arsenal de mystificacoes da belleza. Ela apreciou,

num vago deslumbramento, as escovinhas para maquillages, de diversos tamanhos, os pentes recurvos,

os cosmeticos de todas as cores, os boioes de perfume de todos os estylos, as cremes, os aparadores

complicados das unhas.

Nada (Lisso presta, comentou Mauro dei-

tado, em cuecas ve seda. So ha de bom artigo allemao. E, durarte a guerra, nao vem.

Elye conservava o seu prestigio integral de bello

macho, feito na intimidade das prostituicoes.

E Alma, vendo-o tranquilyo, forte, como se nenhuma sombra pesasse sobre os seus dias, ficou

agcordada, pensando.

Uma pendulazinha ogculta palpitava na sombra.

Os seus olhos haviam-se habituado ao escuro. Ely

percebia a dobra longa das cortinas, as portas talvez. Claridades. estylizavan-se pouco a pouico.

Vinham do interior da casa risos macabros.

Eram os fregueges que chegavam e partiam. O relogiozinho pulsava, regular, impressionante, como

uma voz de outro mundo. A noite andava la fora

de muletas.

Um braco ficara preso sob a cabeca pesada de

Mauro e doia-lhe. Que bom correrem as horas! A

terra andava levando o enterro dos vivos. O enterro

comecava no dia do nascimento de cada uim.

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