A Escada - Bloco 13
Dois agregados chamavam-se Bentinho
e Seu Luiz.
Eram taciturnos e magros.
O mar tivera rugidos a noite. Pela manha de neblina azul, muito cedo, punha sob a
janela do chale negro, entre arvores, uma rustica fanfarra. E era sempre grande e inquie
to, liquido, festivo e sem fim.
Jorge vira cair a tarde sem se mover do
degrau de pedra bruta da encosta. Tinha os
pes nus, doloridos de cardos. Sentia nas menores ramificacoes musculares uma carga de
vida nova. Rehabilitava-se fisicamente, dolorosamente.
A ESCADA VERMELHA
Carlos Bairao nao tornara mais. Decerlo teria yoltado a Sao Paulo num novo enlevo sexual, prosseguindo a sua vida delapida
da de grande burgues.
Talvez Claro Dutra viesse ve-lo.
Dar-se-ia ao incomodo?
E Marcos Gurgel? Podia ter regressado
para junto de Nora.
Uma real impossibilidade de demarches
fatalizava os olhos de Jorge diante do mar
que o cercava. Aquela primeira semana acalmara-lhe as nervosas precipitacoes do instinto. Ante o oceano largo, as serras e a floresta do litoral, tinha uma sensacao de eternidade imovel. Para que correr, afligir-se, chorar? A vida naquele casto ermo, era isenta
dos fervilhamentos das podridoes. A propria
fisiologia aproximava-o da animalidade dos
passaros da terra e do mar. Havia festas de
velas brancas para os seus olhos nas manhas
extaticas. Uma fita de neblina anelava o reconcavo. A gente bca da ilha trabalhava calmamente. Seu Luiz, num gorro de marinhei-
OSWALD DE ANDRADE
ro, varria as boas folhas tombadas nos caminhos de pedra, nos pontilhoes, nas veredas terrosas. Uma proa de transatlantico, rumando para Santos, destacava-se vagarosamente do cabo abrupto dos morros.
Ia tudo calmo e pacifico.
Entretanto no intimo de Jorge um espinho ficara, apostemando-lhe a tranquilidade. A lembranca de Nora inquietava-o. Que
seria feito dos olhos amendoados e claros
nos cilios irrequietos?
mais pudesse ve-la. Em
Talvez nunca
torno dele crescera decerto a onda dos desafetos, das perseguicoes encorajadas, dos martirios planejados. Se tivesse permanecido em
Sao Paulo, enlouqueceria talvez pela porta
facil das manias de perseguicoes. Um amigo
que passasse sem lhe tirar o chapeu, uma saudacao mais fria, um olhar indiferente criavam-lhe na cabeca alarmada uma conviccao
funesta de desprestigio humano. Sabiam de
todas as suas miserias, aumentadas, glosadas
A EsCADA VERMELHA
num juri perene. Um implacavel veredito
parecia acompanha-lo. Dscutia longamente a
sem razao daquela hostilidade nos bancos
dos parques, ao vento, na solidao benefica do
seu quarto.
Mas subitamente o desmentiam. Claro
Dutra oferecera-lhe o asilo encantado da Hlha,
onde o apertava uma vontade de crer novamente, naquelas horas imoveis.
A dedicacao do maritimo Quim Joao, a
amizade da gente pescadora, tudo o confortava. Sobre ele velava meia-duzia de devotacoes.
O ceu alaranjava-se do lado do ocaso. O
mar estava muito verde no recanto de pedras.
Um grilo chamava a noite quieta, outro
alem respondia, outro, outro. Ele deixou o
chale antes que o sol recolhesse.