A Estrella de Absyntho - Bloco 26
Ele quiy que tivesse um effeito decorativo, theatral, symbolico, a entrada do ani-
malzinho lanudo e preto, que vinba conduzindo pelos chavelhos curtos, com a cabreira atraz ao longo dos corredores, na madrugada afceza da Casa de Saude.
Pensava em fazer Mary Beatriz receber
o leite tirado a sua vista, das·tetas pendentes
da cabrinha. E foi uma festa para os olhos
da doente que dormira mal, vel-b arrastar-se
ate junlo a cama, assim, naquelle rude servico, seguido da mulher e da irman enfermeira da noite que sorria. Como a cabreira,
envolvida toda num chale negro, fizesse jorrar o leite num copo, ele afastou-se repentinamenie comovido.
Revira uma madrugada de Roma, em
que tinham ambos sahido. Fora num domingo de Paschoa. Haviam tomado o velho caminho de Aqua Acetosa, sob o ceu leve. Havia ainda estrellas, como agora. E haviam
chegado ate uma egreja de padres descalcos,
em plena Campagna. Uma procissao sahia,
pittoresca, com tochas accesas, bandeiras votivas, andores pequeninos, sob o rebate vivo
do campanario.
Depcis foram andando, ele tendo pelo
braco a silhueta moca, um pouco arcada, num
tailleur curto de la, com a gola fechada em
voltas de xadrez pelo pescoco.
E passara por eles, na manha vacillante,
perto de aquedudtos ruidos, alongando-se em
ponta rregular, um rebanho de cabras negras e pelludas, num afastar tremulo de campainhas sonoras.
E agora, numa cama de hospital, Mary
arcava-se mais e bebia o leite grosso e branco
para sarar.
Era uma luta desesperada e surda entre
ele e as, pulsacoes. E lia sempre c lia mais:
"A* hora habitual, Dinazarda chamou
na noite seguinte a irman e lembrou-lhe a
promessa que fizera.
Scheerazada continuou a narrativa:
"Effegtivamente, a rainha partiu no mesmo insiante, e quando chegou a borda do lago, tomou uma pouca de agua na mao e com
ela borrifou o ar, depois de ter pronunciado
aigumas palavras cabalisticas. A cidade reappareceu num momento; os peixes tornaram-se homens, mulheres, creancas; mabometanos, christaos, persas..
Estas escutando?
Estou... sussurrou a doente, descerrando os olhos. - Deixa-me ver o pulso....
-- Nao... nao!
Abriu mais as pupillas de febre e debatia-se. Mas Jorge tomara-lhe o braco muito
branco, fino e longo, de dentro dos lencoes.
Deixara cahir o livro azul a uma almofada.
E olhando' o relogiozinho de praia que lhe
dera em Roma, contou baixo as pulsacoes.
Setenta. Cem. Cento e uma... e duas..
tres... queria diminuir, parar... E dez..
quinze... vinte...
onze...
Quantas? interrogou a enferma.
Cento e cinco.
Estava aterrado. Tomou de ncvo o livro
e continuou a leitura.
Havia tres dias, como Scheerazada, para
afastar a morte que espreitava la fora, contava hisiorias maravilhosas e incriveis, com
genios, dragoes, principes e loucas metempsycMoses...
O Dr. Carlos Pinheiro declarou-lhe inutil
qualqucr tentativa mais de viagem ou de
cura.
Era possivel entao! O Senhor nao o provara bastante ainda! O seu amor que encontrara de novo, na dolorosa convalescenca do
tiro, o seu amor ia morrer!
Uma subita revolta amarga levantava-se
no seio do redivivo.
Mas Jesus, de carne e suor, egualado aos
outros pela Suprema Vontade, tinha ido ajoelhar-se numa hora assim, a um canto de velho parque, so, abandonado aos indiscutiveis
momenlos do seu destino.
Coepit pacere...
Jorge d'Alvellos foi para o seu quarto tomado do medo humano de Jesus.
O padre nao poude mais confessal-a. Ela
voltara duas vezes a se, em silencjos cangados dc soffrimento, sorrindo os seus ultimos
sorrisos.
Fstava agora calada e inerte, de olhos
semi-cerrados. O sacerdote dissera o "Ego te
absolvo a peccatis tuis", definitivo. E comecara o Lxtremo Sacramento.
Per istam sanctam unctionem et suam
piissimam misericordia, indulgeat tibi Dominus quidquid per sensum deliquisti, quidquid
per visum deliquisti!
> E tocava-lhe os olhos, fechando-os para
sempre.
... "quidquid per odoratum, per auditum!..
E tocava-lhe os ouvidos, cerrando-os
para scinpre.
.."quidquid per gustum et locutionem"..
E sellava-lhe a bocca para sempre.
.. 'quidquid per tactum?.
Descobrira-lhe os pes harmonicos e brancos...
... 'quidquid per gressum deliquisti...
Havia terminado.
Eniao, Jorge levantou-se e pediu humildementc a mae para beijal-a. Ela agitava-se
como que comprehendendo. Tinha movimentos vagos na cabeca, ondulacoes nos bracos
descarnados e alvos.
A mae achegou-se com a enfermeira, a
irman, o padre.
Levantaram-na nos hracos, segurando-a,
contencio-a, acalmando-a. Jorge avancou em
solucos:
-Eu quero um beijo teu, eu quero, minha Mary.
Ela ouvira, parecia sorrir. Os outros sustinham-na, soerguendo-a, consolando-a.
Tinham passado assim tres noiles eguaes.
Jorge sentia um alquebramerto
physico
final.
Estava sentado sobre um tamborete baixo, ao lado da agonizante.
No outro leito, a mae e uma senhora de
preto que viera, haviam cedido a fadiga e dormiam juntas.
A inadrugada la fora andava.
.Jorge olhou o pequenino relogio de Roma:
eram quasi tres horas.
Ele resignara-se a solemne chegada desse
momenio que bateria na sua vida como um
ultimo aviso de Deus. Esperava-o como se espera una ordem indiscutivel de partida para
caminhos novos.
O cansaco vencera. Ele cochilava com d
cabega deitada perto do braco grande e inerte
de Mary.
E na noite de agonia, veiw cantar-lhe o
ouvido, solenhne, depois de graves kyries.a
ladainha pausada das rogacoes que acompanhara, no collegio, em creanca, na madrugada de Sao Norbcrto:
Sancte Paule, ora pro nobis!
Sancte Andrea, ora pro nobis!
Padres e seminaristas tinham saMido para
o mafto, a cruz alcada na frente, o tyuribulo e
o hysope. E caminhavam pela aresta escura
de um caminho, sob as ultimas estrellas, entre
as arvores pasmadas. Ao clarao inquieto das
tochas, as batinas alvas oscillavam! na santa
procissao.
Sancte Thoma, ora pro nobis!