A Estrella de Absyntho - Bloco 17
Os prestitos sahiam como procissoes, com devotos a seguir os carros, numa conviccao tenebrosa, segurando fios coloridos de serpentinas como
fitas bentas de andores.
Isso fizera Alma dizer-lhe no apno anterior:
-O Carnaval aqui é serio, quem rir vae
preso..
O esculptor teve os olhos obscurecidos de
agua e seguiu.
Deixara momentaneamente todo trabalho.
No atelier apenas se comprazia em ver, completar, affirmar a maquetle iniciada do relevo.
Subiu as escadas, fechou-se.
La fora, na rua chuvosa e festiva, passavam as vezes sons idiotas de cornetas.
Na noite cahida, veiu pela Varzea com
bondes illuminados e gente aos grupos. Pierrots lamentosos passavam. Um sujeito de barbas posticas mostrou-lhe uma enorme bengala
de papelao da plataforma de um bonde. Um
apache sem mascara deu um pincho desgracioso para o lado delle e accendeu-lhe uma
luz no rosto. Um menino com a cara suja de
rolha estendeu-lhe na mao. tres serpentinas
utilizadas e pediu-lhe um tostao.
A populacao na Ladeira Joao Alfredo
adensava-se. O artista desviou-se do Triangulo: entrou para comer alguma coisa num restaurante do Largo do Palacio. Serviram-lhe
demoradamente um menu brasileiro. Pedira
o melhor vinho da casa: trouxeram-lhe uma
garrafa de Bordeaux. Deshabituado pela longa abstinencia, achou azedo o vinho no primeiro gole; depois com a comida sedca, foi
mudando de paladar; e agora, num subito
conforto physico, olhava a vida.
A sala do restaurante estava quasi deserta. Garcons portuguezes de bigodeiras passavam, serviam. Ele notara, installado a uma
mesa da entrada, um homem conversando com
um domino amarello. Tinham acabado de jantar e o domino baixara a mascara. E parecera-lhe que o nao perdia de vista. Devia ser
um homem alto. Se fosse Mauro Glade?
Jorge, logo depois da morte de Alma, pen-
sara na possibilidade de um encontro funesto
com o assassino. Mas a hypothese perdera-se
com a normalidade quotidiana da vida do esculptor.
O mascarado olhava-o sempre. Seria o
bandido? O bandido...
Jorge d'Alvellos constatou que tinha no
bolso da calca o pequeno revolver Browning
trazido da Belgica. Sete balas!
O domino pediu licor; bebeu suspendendo cautelosamente a mascara.
Nao era.
compariheiro pagou, saíram.
Jorge ficara so, na sala, onde as mesas
vazias punham a sua nota de toalhas brancas. Pelo chao, havia confetti, destrocos de
serpentinas. La fora, o carnaval rodava.
Viu a nota, liquidou-a e foi tanbem para
a rua.
Esquecera-se de tomar um licor. A lingua
guardava um travo do vinho que o café ralo,
servido numa grande chicara, nao apagara.
Estava no tumulto da Rua 15 de Novembro.
As carruagens, regressadas do corso, sugcediam-se de vagar, parando, indo em cortejo,
no estreito corredor que a multidao acotovellada lhes deixava.
Um mascarado ruivo, gingando, interpelou Jorge:
Voce me conhece, palheta!
E o esculptor incorporado insensivelmente ao batuque coleetivo, na mesma marcha
automatica de cem mil pessoas andando, na
zanzarra desencontrada, informe e constante,
foi pensando.
Automoveis de luxuria e carros altos, inflammados, paravam na gloria das luzes e
das trompas. Muiheres encarapetavam-se aos
grupos, revelando pernas elegantes, a dizer, a
contar que, naquella hora, um toldo de taxi
valia um throno e um loup divinisava.
E corpos juvenis esmagavam-se docemente contra Jorge d'Alvellos, no aperto geral e
risonho. Esbarravam na suas, maos suadas de
mocas, bracos suados; sob as saias, iam pernas suadas tropecando...
Continuou aos esfregamentos, as atracadellas. E foi envolvendo-o, persuasiva como
uma revelacao, a volupia premeditaaa e conseguida que ia alli, nos carros sensuaes, com
nus quast despidos, nadegas curvas, aberturas desenvoltas de pernas. O mesmo fremito
passava nas bogcas rubras, nos seios entrevistos por inteiro, no cheiro adivinhado das axil
las. Carrocoes uniformizados atravancavam
a arteria urbana. Delles sahiam cantos de vozes femininas. E Jorge so viu pares unidos,
enlacados, promessas de beijos e contactos.
Encontrou uma confeitaria ruidosa,entrou.
E emquanto esperava o garcon a uma
mesa do fundo, um pierrot cor de ouro, palaciano, com oito voltas de tule negro ao pescoco e ponpons fartos nos punhos, veiu para o
seu lado, flexuoso, sorrindo com dentes alvos
pela boeca vermelha. Dois olhos interessados
olharain-no pelas aberturas do loup. Seguiamno um outro pierrot sem mascara, baixo, desengoncado, cor de rapadura na barba mal feita, e um rapaz inexpressivo e loiro. Sentaramse alli, a outra mesa. Mas o pierrot cor de ouro
gritou-lhe:
Boa noite! Esta triste?
E numa offensiva risonha, convidativa,
levantou-se e perfumou-o longamente com o
jorro frio de ether. Ele defendeu-se; depois,
como ela persistia, correu, saiu tocado de
esperanca. Comprou adeante um lanca-perfume. Ia voltar. O pierrot saiu sozinho para
comprar tambem. Num tumulto intimo, Jorge
atirou-se, conteve-a. Ela reconheceu-o e ficaram aYi um minuto, na multidao ululante,
longe da vida, num pleno e recolhido lethargo
de perfumes trocados, persuasivos.
Queres vir comigo, pierrot de ouro?
Procuravam-na os dois homens deixados
no bar.
Jorge insistiu:
Vem!
E ela murmurou, numa risonha promessa:
- Depois..
Ele ia seguil-a, vingar-se de todas as tristezas da terra, ter aquela bocca, aquele corpo flexuoso, que lhe lembrava os modelos de
outrora.:.
Ela atravessara correndo acompanhada
de un bando novo de mascaras. A multidao
tumultuava. Jorge quiz passar. Mas, no turbilhao de um prestito, com a alta voz dos clarins, o incendio phantastico dos fachos, as patas dos cavallos, viu-se con.tido, agarrado, preso ao carnaval monstruoso dos outros.
Em pijama, no leito de bronzc fosco do
seu quarto, deixara escoar-se la fora, a longa
festa nogturna de segunda-feira. Nao pretendia sahir. Para que? O pierrot cor de ouro?
Passara, como tudo que proinette, que faz desejar, entrever.
Quem nao teve um pierrot cor de ouro na
vida?
De fora, da rua asphaltada e larga, vinha
um cascatear continuo de vehiculos rodando,
arfar de motores, gritos, cornetas.
O musico Torresvedras viera na tarde fina e limpa surprehendelo no atelier. E saíram juntos, attrahidos pelo imprevisto das
coisas, na diregcao do Triangulo.