A Estrella de Absyntho - Bloco 17 A Trilogia do Exílio · Capítulo 44 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 17

Os prestitos sahiam como procissoes, com devotos a seguir os carros, numa conviccao tenebrosa, segurando fios coloridos de serpentinas como

fitas bentas de andores.

Isso fizera Alma dizer-lhe no apno anterior:

-O Carnaval aqui é serio, quem rir vae

preso..

O esculptor teve os olhos obscurecidos de

agua e seguiu.

Deixara momentaneamente todo trabalho.

No atelier apenas se comprazia em ver, completar, affirmar a maquetle iniciada do relevo.

Subiu as escadas, fechou-se.

La fora, na rua chuvosa e festiva, passavam as vezes sons idiotas de cornetas.

Na noite cahida, veiu pela Varzea com

bondes illuminados e gente aos grupos. Pierrots lamentosos passavam. Um sujeito de barbas posticas mostrou-lhe uma enorme bengala

de papelao da plataforma de um bonde. Um

apache sem mascara deu um pincho desgracioso para o lado delle e accendeu-lhe uma

luz no rosto. Um menino com a cara suja de

rolha estendeu-lhe na mao. tres serpentinas

utilizadas e pediu-lhe um tostao.

A populacao na Ladeira Joao Alfredo

adensava-se. O artista desviou-se do Triangulo: entrou para comer alguma coisa num restaurante do Largo do Palacio. Serviram-lhe

demoradamente um menu brasileiro. Pedira

o melhor vinho da casa: trouxeram-lhe uma

garrafa de Bordeaux. Deshabituado pela longa abstinencia, achou azedo o vinho no primeiro gole; depois com a comida sedca, foi

mudando de paladar; e agora, num subito

conforto physico, olhava a vida.

A sala do restaurante estava quasi deserta. Garcons portuguezes de bigodeiras passavam, serviam. Ele notara, installado a uma

mesa da entrada, um homem conversando com

um domino amarello. Tinham acabado de jantar e o domino baixara a mascara. E parecera-lhe que o nao perdia de vista. Devia ser

um homem alto. Se fosse Mauro Glade?

Jorge, logo depois da morte de Alma, pen-

sara na possibilidade de um encontro funesto

com o assassino. Mas a hypothese perdera-se

com a normalidade quotidiana da vida do esculptor.

O mascarado olhava-o sempre. Seria o

bandido? O bandido...

Jorge d'Alvellos constatou que tinha no

bolso da calca o pequeno revolver Browning

trazido da Belgica. Sete balas!

O domino pediu licor; bebeu suspendendo cautelosamente a mascara.

Nao era.

compariheiro pagou, saíram.

Jorge ficara so, na sala, onde as mesas

vazias punham a sua nota de toalhas brancas. Pelo chao, havia confetti, destrocos de

serpentinas. La fora, o carnaval rodava.

Viu a nota, liquidou-a e foi tanbem para

a rua.

Esquecera-se de tomar um licor. A lingua

guardava um travo do vinho que o café ralo,

servido numa grande chicara, nao apagara.

Estava no tumulto da Rua 15 de Novembro.

As carruagens, regressadas do corso, sugcediam-se de vagar, parando, indo em cortejo,

no estreito corredor que a multidao acotovellada lhes deixava.

Um mascarado ruivo, gingando, interpelou Jorge:

Voce me conhece, palheta!

E o esculptor incorporado insensivelmente ao batuque coleetivo, na mesma marcha

automatica de cem mil pessoas andando, na

zanzarra desencontrada, informe e constante,

foi pensando.

Automoveis de luxuria e carros altos, inflammados, paravam na gloria das luzes e

das trompas. Muiheres encarapetavam-se aos

grupos, revelando pernas elegantes, a dizer, a

contar que, naquella hora, um toldo de taxi

valia um throno e um loup divinisava.

E corpos juvenis esmagavam-se docemente contra Jorge d'Alvellos, no aperto geral e

risonho. Esbarravam na suas, maos suadas de

mocas, bracos suados; sob as saias, iam pernas suadas tropecando...

Continuou aos esfregamentos, as atracadellas. E foi envolvendo-o, persuasiva como

uma revelacao, a volupia premeditaaa e conseguida que ia alli, nos carros sensuaes, com

nus quast despidos, nadegas curvas, aberturas desenvoltas de pernas. O mesmo fremito

passava nas bogcas rubras, nos seios entrevistos por inteiro, no cheiro adivinhado das axil

las. Carrocoes uniformizados atravancavam

a arteria urbana. Delles sahiam cantos de vozes femininas. E Jorge so viu pares unidos,

enlacados, promessas de beijos e contactos.

Encontrou uma confeitaria ruidosa,entrou.

E emquanto esperava o garcon a uma

mesa do fundo, um pierrot cor de ouro, palaciano, com oito voltas de tule negro ao pescoco e ponpons fartos nos punhos, veiu para o

seu lado, flexuoso, sorrindo com dentes alvos

pela boeca vermelha. Dois olhos interessados

olharain-no pelas aberturas do loup. Seguiamno um outro pierrot sem mascara, baixo, desengoncado, cor de rapadura na barba mal feita, e um rapaz inexpressivo e loiro. Sentaramse alli, a outra mesa. Mas o pierrot cor de ouro

gritou-lhe:

Boa noite! Esta triste?

E numa offensiva risonha, convidativa,

levantou-se e perfumou-o longamente com o

jorro frio de ether. Ele defendeu-se; depois,

como ela persistia, correu, saiu tocado de

esperanca. Comprou adeante um lanca-perfume. Ia voltar. O pierrot saiu sozinho para

comprar tambem. Num tumulto intimo, Jorge

atirou-se, conteve-a. Ela reconheceu-o e ficaram aYi um minuto, na multidao ululante,

longe da vida, num pleno e recolhido lethargo

de perfumes trocados, persuasivos.

Queres vir comigo, pierrot de ouro?

Procuravam-na os dois homens deixados

no bar.

Jorge insistiu:

Vem!

E ela murmurou, numa risonha promessa:

- Depois..

Ele ia seguil-a, vingar-se de todas as tristezas da terra, ter aquela bocca, aquele corpo flexuoso, que lhe lembrava os modelos de

outrora.:.

Ela atravessara correndo acompanhada

de un bando novo de mascaras. A multidao

tumultuava. Jorge quiz passar. Mas, no turbilhao de um prestito, com a alta voz dos clarins, o incendio phantastico dos fachos, as patas dos cavallos, viu-se con.tido, agarrado, preso ao carnaval monstruoso dos outros.

Em pijama, no leito de bronzc fosco do

seu quarto, deixara escoar-se la fora, a longa

festa nogturna de segunda-feira. Nao pretendia sahir. Para que? O pierrot cor de ouro?

Passara, como tudo que proinette, que faz desejar, entrever.

Quem nao teve um pierrot cor de ouro na

vida?

De fora, da rua asphaltada e larga, vinha

um cascatear continuo de vehiculos rodando,

arfar de motores, gritos, cornetas.

O musico Torresvedras viera na tarde fina e limpa surprehendelo no atelier. E saíram juntos, attrahidos pelo imprevisto das

coisas, na diregcao do Triangulo.

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