Os Condemnados - Bloco 20 A Trilogia do Exílio · Capítulo 20 de 87
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Os Condemnados - Bloco 20

A mulher exclamava:

- Anda! Por aqui! Por aqui! Buro homen!

Sentaram-se perto dos dois amigos solitarios

e o burgueg reagiu:

— Basta, mulherzinha damnada! Voce acaba

me esfolando vivo. Anda, vas buscar vinho...

Eu nao! Chama o garcon, biro!

Ruidosa, galharda, pediu champagne.

Eh! Nao ve que eu pago. Cnampagne na

crise! Olha, o café este ano nao saa da fazenda.

INADOS

OS CONDEM

Que! Voce nao é fazendeiro... E' buro!

Nao souu? entao nao pago champagne.

A mulher resolveu-se por um vinho do Porto.

riu satisfeito. Ela indignou-se, sakin

burgues

estabanadamente para a outra sa!a. O hon:em sorriu

amavel, dizendo:

-- Foi... mas volta. Nao ve que ela perde o

vinho do Porto, nesta arise. Anda tudo em crise,

até a vergonha... Eu, um paq de familia... Puff!

Tambem, um cabaree alegra a gente.

Disse que era viajante. Bebeu, achando excey

lente a vida. Depois, foi atrag da mulher.

Lobao comecou entao a invectival-a. Tinha vontade de ir para Buenos-Aires ou para o Oriente,

para bem longe daquelyes burgueges que se satisfaziam com uma Lola e um vinho do Porto. No

fundo do seu humano coracao, a portuguegita banal dansava com outro, infernalmente. Iria acabar

os seus dias numa terra ignorada e eftranha onde

fOsse o forasteiro indecifravel.

In-de-ci-fra-vel!

Da outra sala, pela porta volante, subiu um

alarido: risos, gritos de mulheres, escalas desordena.

das de piano. Depois a voz do cabaretier comandoul:

Allons! Messieurs, dames! Un peu de gaité

dans la salle! Un! Deux! Troix!

Palmas rytymaram-se na algazarra. Acompanhada do piano, uma voz debil elevou-se:

—Je suis le co-co de Chi-cago!

Joao do Carmo sentia-se torvo. Ante a incong

ciencia festiva do mundo, vinham suffocatbo, en

ronda, palidas tristezas.

A voz do cabaretier suggeriu un cri d'admiration

pour Mlle. Fruli. De novo houve palmas rytlmadas.

Lobao queria saMir, ir para o Oriente. Joao

percebeu que o outro deixat-o-ia para se deitar. Teve

medo de ficar so. Preferia estar encolhido naquelle

barulho. Pediu-lhe que ficasse.

A porta volante escancarou-se. Reappareceu a

Kespanhola com o burgueg. Elye vinha dizendo que

perdera no jogo. E elka exigia a bolsa nova que

esquecera dentro do automovel.

Sentaram-se. Havia cabido uma mosca no copo

abandonado. Ela exigiu vinho do Rheno. Discutiram precos com o garcon aecudido. O homem disse

que na fabrica, no Bom Retiro, custava a metade.

A mulher farfalhava ma cadeira. Veiw a garrafa. O burgues offereceu aos dois amigos, de novo

quietos.

CONDEM

INADOS

Sem cerimonia! Coisa que nunca tive na

vida!

Contava historias de rabichos. A mulher insistia:

Olhe, amanha voce tem que trazer a bolsa,

hein?

tumulto alegre redobrou com a chegada de

mais gente. Gritavam: Vive les carabins, ma mere!

Non, ce sont des cocos, de vieux copains?

E o cabaretier ordenou "un cri d'hysterie, percuciente, na sala.

Alma instalara-se com Luquinhas num

bungalow atarracado das Perdizes. Possuia joias e moveis,

louca frisada de ouro, uma aia allemap

I para o pequerrucho. E o automovel verde do elegtricista passeou, nas tardes quentes, a sua renovada beleza pelo

Triangulo cheio.

Luquinhas, numa transfiguracao de jerseys caros, tinha um grande medo intranquilo do “lambishombem".

Os seus cabellos cacheavam-se em oiro disperso.

Nas manhas luminosas, sahia para os parques

da cidade, com brinquedos e a creada.

E, na volta, vinha acordar mamaezinha

com

pontapés repetidos e bambos na porta fechada do

quarto, onde o “lambishombem" morava.

nickeis e tinha

engenheiro dava-lhe

pavor de que aquelas maozinhas lhe lambuzassem

as calcas magnificas.

Mas, num deslumbramento, Alma, nas toilettes

mais finas, tomava-o, mordia-o, chupava-lhe as carnes tenras e brancas. Tinha a volupia de ser urinada

pelo seu crescido valete de copas.

Joao do Carmo compog um livro todo de sonetos.

Na Semana Santa, Alma qui que élle fosse

numa procissao, de madrugada.

Na multidao silente, entre tleorias irregulares

de anjos que andavam, a aia solenne seguia-o.

E, pelas ruas, a mae nao o largava com os

olhos verdes da cor sentimental da esperanca, soh

um largo feltro branco.

A TRIIOGIA DO FXILIO

Um dia, porque Luquinhas derramasse, na toalha pura e bordada, uma terrina fumegante, o “lambishombem" zangou-se.

Alma recriminava-o de nao ter contido a tempo

a creanca.

Ser pagem tambem, nao! respondeu ele.

Ela levantou-se, cheia de insultos. Levou o

filhinho para o quarto, sem terminar o jantar.

Reconciliaram-se friamente. E, a noite, Alma

saiu com Camilla. Nao se deixavam, numa sensacional camaradagem de risos e passeios.

Alma tinha sempre somno, um sorhno de felicidade. Quas? adormecia, nas toilettes ricas, ao choro

das valsas, nos cinemas do centro.

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