Os Condemnados - Bloco 14 A Trilogia do Exílio · Capítulo 14 de 87
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Os Condemnados - Bloco 14

Um

dia vencido era lim passo para a morte, para a libertacao.

Entravam nim tropel, la dentro, os retardatarios.

E a noite andava de muletas e olhos fechados.

Acompanhou-o, risonhamente, até a gare, pelas

ruas. Um carregador seguia-os. O trem partin, levando-o num sobretudo cintado de esporte.

Rodava agora, feliz e sem destino. Penetrou no

Jardim Publico. Nos canteiros matinaes, florescia

toda uma natureza postica e nova: rosas de bazar,

margaridas de payno.

Uma noite mal dormida descabellava as arvores.

Havia lampeoes altos, semi-adcesos. Uma fonte de

inexpressivos tritoes pingava agua, rusticamente.

Sentou-se a um banco e ficou pensando no telegraphista, no filho que pulava la dentro, e em

milla que puzera para fora, num hospital, a sua iltima asneira.

Joao do Carmo, num velho pijama descorado,

pensou que era sonho. Fel-a entrar, como Rodolpho

na Bohemia, como quem mais? Procurava inutilmente, na cabeca lirteraria, comparacoes, quadros

lyricos identicos, estados d'alma irmaos. Como estava

magra sob o chapeu de tafeta!

Partiu nuim desvanecido angeio, voou sem rumo

certo, para servit-a, para salval-b. Era preciso arran.jar um quarto onde ela

a morasse. Fora expulsa por

sua causa. Era urgente, era urgente!

Lembrou-se de correr a delegacia de Sao Caetano, alli mesmo, onde Dagoberto Lessa trabalhava.

Era ele o homem capaz de indicar-lhe o necessario

ninho. Penetrou. Uma alegria comovida prendialhe o peito forte.

Dagoberto ouviu-o.

Depois, uma

gargalhada

sarcastica estalou na sala occupada de mesinhas desertas. O calvo havia aberto um livro enorme e

preto de assentamentos. Ia continuar o servico. E

repetia:

Voce, esta louco, homem! Louco furioso!

Dou ja parte a autoridade.

Mas Joao insistia, numa cara soffredora e

energica.

- E' um caso em que ponho a minha honra de

homem...

— Qual honra, nada! Bota o gado numa pensao

e fica sendo o gigolo!

namorado gritou rubramente:

Nao admitto torpezas! Nao admityo!

Ia sahir. O outro chamou-o, medroso.

Bom! Nao precisa se zangar. Mas ouca O

que lhe digo. Voce se arrepende desse passo, seu

Joao!

E levantando-se e buscando a farta capa Hespanhola num prego:

Estou as suas ordens. Vamos. Nao se discute.

Joao do Carmo, desarmado, procurava desculpar-se para com o servical, que exaggerava, desarticulado em gestos ponteagudos :

Nao se discute! Nao-se-dis-cu-te.

Sem outro assunpto, o apaixonado foi dlizendo

pela rua popuulosa:

-- Trata-se de um caso triste. Voce sabe...

Reconciliaram-se na caminhada para a Luz.

Dagoberto envaidecia-se de aventuras, ante a

benevolencia exaltada de Joao. Conhecia uma mulher

dptima para o caso. Fora ate parteira.

De quantos meges? indagoul.

Que meges ?

De quantos meses ela esta?

Nao sei. Nao perguntei.

Dagoberto continuou o elogio das virtudes da

mulher :

-- D. Genoveva é um anjo que usa chino.

Tinham tomado um bonde do Bom Retiro.

Apearam na Rua Aymorés. Bateram a uma casa

baixa de porta e janella. Houve um arrastar de pés

vagorosos, la dentro. E D. Genoveva abriu.

Foi uma festa. Joao sorria satisfeito. A mulher

tinha uum quarto desalugado. Havia brigado com o

casal que morava nelle e o homem —- um porquera!

sahira espalhando que la era casa de rende-vu.

Por isso naoa

agceitava mais mulheres. Olhassem

aquele sofego. Na sala da frente, morava o Seu Julinho, da Secretaria da Fazenda; no primeiro quarto

um capitao da policia. E ela costurava.

Mas a intervencao de Dagoberto foi convincente. Era um caso diverso. A menina estaria ali

so durante a gravidez.

A mulher piscou e riu com dentes de velho

marfim. Depois, pediu que lhe adeantassem dois

mefes de aluguel.

Um navio destaca-se do caps... a vida. Um navio destaca-se do caes...

Na manha indecisa, D. Genoveva bateu

porta do quarto. Trazia, numa bandeja de reclamo, O

café differente e fatias cortadas de pao. Uma touca

de rendas recobria-lhe a cabeca curva.

Combinaram mandar um carregador buscar as

roupas que haviam ficado no refigio distante do

avo, na Rua dos Clerigos.

O sol banhava numa festa o sobrado pobre

do velho Lucas, crystalizando os vidros, pondo tremulas irisacoes nos canteiros da frente.

carregador appareceu as dez horas.

A cozinheira gorda que fora ao quarto tinha

voltado, dizendo pela casa :

Hum! Hum! Sinho ta ruim. Eu hoje sonhei

cum sapato. Vae ve...

Foi a porta aytender.

Que roupa nada! O véio ta morreno. Bastiao, oia, vae com esse home busca sinhazinha. Diga

pr'ela que o véio nao dura nem esta noite.

De fafto, a vizinhanca invadiu a casa entragicada pela ahnunciacao da morte.

A mulher rolica que fazia trou-trou e vendia

roupas, offereceu-se prestimosa e sorridente. AppaSeu Quincas do lado, eregto e hirto, gloria

recell o

de irmandades e reparticoes.

Cumprimentara

doente durante vinte anos.

O velho tivera um colapso. Deitado, a barba

crescida no rosto cor de terra, fazia uma dobra no

pequeno leito desconjungtado.

chegou

Chamaram uim

tarde e disse rapidamente, na sala de jantar, aos

circiimistantes, que era do coracao, — um caso perdlido.

Seu Quincas esperava ficar so. Quando a mulher gorda partiu, fez o moleque sakir e exortou

o moribundo. a tomar as ultimas resolucoes.

O desgracado tinha os orhos humildes e grandes

nos lencoes sujos. Estava em camisa, no paletot

azul. Teve uma crise ao saber que morria. A voz

encanudlou-se-lhe na bocda sem dentes.

E, tetrico e soleyne, pediu ao outro, impavido

e sombrio, a vela com que se transpoem as eternidades.

sobradopallido

passou, por tabelliao, solehnemente, no alvoroco do bairro, para o patrimo-

nio da Sociedade Defensora e Benemerente dos Empregados Publicos.

Seu Quincas,qlle trouxera a Sabedoria ao fundo

da ruia pacata, consumou tudo. O agonizante nao

podia mais mexer-se. Pregado ao leito pela inercia

branca que lentamente lhe tomara os membros, olhava

num comecado delirio. Perguntou enroladamente pela

netinha.

Numa transmutacao, a cor verde e doentia de

tudo fixou-se, ganhou a paiyagem larga e escura que

se despejava do quarto.

A Amazonia dormia sob um calor de naufragio.

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