Os Condemnados - Bloco 14
Um
dia vencido era lim passo para a morte, para a libertacao.
Entravam nim tropel, la dentro, os retardatarios.
E a noite andava de muletas e olhos fechados.
Acompanhou-o, risonhamente, até a gare, pelas
ruas. Um carregador seguia-os. O trem partin, levando-o num sobretudo cintado de esporte.
Rodava agora, feliz e sem destino. Penetrou no
Jardim Publico. Nos canteiros matinaes, florescia
toda uma natureza postica e nova: rosas de bazar,
margaridas de payno.
Uma noite mal dormida descabellava as arvores.
Havia lampeoes altos, semi-adcesos. Uma fonte de
inexpressivos tritoes pingava agua, rusticamente.
Sentou-se a um banco e ficou pensando no telegraphista, no filho que pulava la dentro, e em
milla que puzera para fora, num hospital, a sua iltima asneira.
Joao do Carmo, num velho pijama descorado,
pensou que era sonho. Fel-a entrar, como Rodolpho
na Bohemia, como quem mais? Procurava inutilmente, na cabeca lirteraria, comparacoes, quadros
lyricos identicos, estados d'alma irmaos. Como estava
magra sob o chapeu de tafeta!
Partiu nuim desvanecido angeio, voou sem rumo
certo, para servit-a, para salval-b. Era preciso arran.jar um quarto onde ela
a morasse. Fora expulsa por
sua causa. Era urgente, era urgente!
Lembrou-se de correr a delegacia de Sao Caetano, alli mesmo, onde Dagoberto Lessa trabalhava.
Era ele o homem capaz de indicar-lhe o necessario
ninho. Penetrou. Uma alegria comovida prendialhe o peito forte.
Dagoberto ouviu-o.
Depois, uma
gargalhada
sarcastica estalou na sala occupada de mesinhas desertas. O calvo havia aberto um livro enorme e
preto de assentamentos. Ia continuar o servico. E
repetia:
Voce, esta louco, homem! Louco furioso!
Dou ja parte a autoridade.
Mas Joao insistia, numa cara soffredora e
energica.
- E' um caso em que ponho a minha honra de
homem...
— Qual honra, nada! Bota o gado numa pensao
e fica sendo o gigolo!
namorado gritou rubramente:
Nao admitto torpezas! Nao admityo!
Ia sahir. O outro chamou-o, medroso.
Bom! Nao precisa se zangar. Mas ouca O
que lhe digo. Voce se arrepende desse passo, seu
Joao!
E levantando-se e buscando a farta capa Hespanhola num prego:
Estou as suas ordens. Vamos. Nao se discute.
Joao do Carmo, desarmado, procurava desculpar-se para com o servical, que exaggerava, desarticulado em gestos ponteagudos :
Nao se discute! Nao-se-dis-cu-te.
Sem outro assunpto, o apaixonado foi dlizendo
pela rua popuulosa:
-- Trata-se de um caso triste. Voce sabe...
Reconciliaram-se na caminhada para a Luz.
Dagoberto envaidecia-se de aventuras, ante a
benevolencia exaltada de Joao. Conhecia uma mulher
dptima para o caso. Fora ate parteira.
De quantos meges? indagoul.
Que meges ?
De quantos meses ela esta?
Nao sei. Nao perguntei.
Dagoberto continuou o elogio das virtudes da
mulher :
-- D. Genoveva é um anjo que usa chino.
Tinham tomado um bonde do Bom Retiro.
Apearam na Rua Aymorés. Bateram a uma casa
baixa de porta e janella. Houve um arrastar de pés
vagorosos, la dentro. E D. Genoveva abriu.
Foi uma festa. Joao sorria satisfeito. A mulher
tinha uum quarto desalugado. Havia brigado com o
casal que morava nelle e o homem —- um porquera!
sahira espalhando que la era casa de rende-vu.
Por isso naoa
agceitava mais mulheres. Olhassem
aquele sofego. Na sala da frente, morava o Seu Julinho, da Secretaria da Fazenda; no primeiro quarto
um capitao da policia. E ela costurava.
Mas a intervencao de Dagoberto foi convincente. Era um caso diverso. A menina estaria ali
so durante a gravidez.
A mulher piscou e riu com dentes de velho
marfim. Depois, pediu que lhe adeantassem dois
mefes de aluguel.
Um navio destaca-se do caps... a vida. Um navio destaca-se do caes...
Na manha indecisa, D. Genoveva bateu
porta do quarto. Trazia, numa bandeja de reclamo, O
café differente e fatias cortadas de pao. Uma touca
de rendas recobria-lhe a cabeca curva.
Combinaram mandar um carregador buscar as
roupas que haviam ficado no refigio distante do
avo, na Rua dos Clerigos.
O sol banhava numa festa o sobrado pobre
do velho Lucas, crystalizando os vidros, pondo tremulas irisacoes nos canteiros da frente.
carregador appareceu as dez horas.
A cozinheira gorda que fora ao quarto tinha
voltado, dizendo pela casa :
Hum! Hum! Sinho ta ruim. Eu hoje sonhei
cum sapato. Vae ve...
Foi a porta aytender.
Que roupa nada! O véio ta morreno. Bastiao, oia, vae com esse home busca sinhazinha. Diga
pr'ela que o véio nao dura nem esta noite.
De fafto, a vizinhanca invadiu a casa entragicada pela ahnunciacao da morte.
A mulher rolica que fazia trou-trou e vendia
roupas, offereceu-se prestimosa e sorridente. AppaSeu Quincas do lado, eregto e hirto, gloria
recell o
de irmandades e reparticoes.
Cumprimentara
doente durante vinte anos.
O velho tivera um colapso. Deitado, a barba
crescida no rosto cor de terra, fazia uma dobra no
pequeno leito desconjungtado.
chegou
Chamaram uim
tarde e disse rapidamente, na sala de jantar, aos
circiimistantes, que era do coracao, — um caso perdlido.
Seu Quincas esperava ficar so. Quando a mulher gorda partiu, fez o moleque sakir e exortou
o moribundo. a tomar as ultimas resolucoes.
O desgracado tinha os orhos humildes e grandes
nos lencoes sujos. Estava em camisa, no paletot
azul. Teve uma crise ao saber que morria. A voz
encanudlou-se-lhe na bocda sem dentes.
E, tetrico e soleyne, pediu ao outro, impavido
e sombrio, a vela com que se transpoem as eternidades.
sobradopallido
passou, por tabelliao, solehnemente, no alvoroco do bairro, para o patrimo-
nio da Sociedade Defensora e Benemerente dos Empregados Publicos.
Seu Quincas,qlle trouxera a Sabedoria ao fundo
da ruia pacata, consumou tudo. O agonizante nao
podia mais mexer-se. Pregado ao leito pela inercia
branca que lentamente lhe tomara os membros, olhava
num comecado delirio. Perguntou enroladamente pela
netinha.
Numa transmutacao, a cor verde e doentia de
tudo fixou-se, ganhou a paiyagem larga e escura que
se despejava do quarto.
A Amazonia dormia sob um calor de naufragio.