A Escada - Bloco 09
Ele defendeu-se, ergueu-se de pe, num salto, sobre
o leito.
E, na noite opaca, o vestido branco fixouse num retangulo vago de janela.
Encontrou-a no jardim.E de repente quis interroga-la, saber, decidir. Ela estacara num silencio, o livro habitual fechado
sobre os dedos.
Mas a sua frieza desencorajou-o.
OSWALD DE ANDRADE
Ia descer para a cidade, para o Conserva
torio. Colocou ante o espelho da sala o extenso chapeu de palha da Italia. Partiu depois de
lhe dar a mao indiferente.
Na manha de ceu sombrio, Jorge ficou
pensativo, olhando a cidade, num desconcerto de ideias e caminhos.
Percebia definitivamente, na adolescencia de Gulnare, uma inquietude perigosa que
a levava a repeli-lo e a tenta-lo, mesmo nas
horas boas de entendimento.
Precisava como as outras ser maltratada e tinha apenas 15 anos.
Alguem parecia trabalhar-lhe o pequenino espirito vivo. Seria com certeza a irma absurda e viperina.
Jorge teve subitamente a certeza de que
Rita o amava, dentro de infindaveis e peque-
A ESCADA VERMELHA
ninas perseguicoes, subitos interesses, querelas idiotas.
E sentia,num acordar de cansacos, que
era preciso ainda continuar a vida.
A paz que julgara encontrar junto ao
agricultor barbudo e a sua familia simples, no
deserto do Clarim, jogara com ele o escondeesconde da felicidade. Rita, a mulher honesta
do inicio... uma femea revoltante.
Gulnare, irma virgem de Rita.
Pensou em sair daquele jardim, mudarse de novo.
Oprimia-o, amassava-o, penetrava-o de
brutalidades a vontade de ser feliz. Era o desejo imperecivel que carregava num ineatinto clarao, dentro do ser amoroso, espectante
de repercussoes, cansado de ma!dades, hororizado de equivocos.
OSWALD DE ANDRADE
Encontraria outra vez o amor de Mary,
O amor ambicionado que. o completasse? A
sua natureza,amadurecida numa plenitude de
logica, necessitava de claras correspondencias,
de abertas respostas — uma mulher que fosse transparente, cristalina e igual.
Teve um desespero rapido. Perdera tanto tempo,tanto tempo!
Pensou aflitivamente em Gulnare. Amava-a sim. E por que ela nao se deixava plas
mar nas suas maos heroicas? Cresceria. Farse-ia mulher, entenderia afinal para se arrepender, quando ja o irrevogavel de outros
caminhos os tivesse afastado para sempre.
Era assim a vida, a procissao do Desencontro que o trouxera para longe de Mary
Beatriz.
Voltava a morta lirica. As vezes ao topar-lhe o risonho retrato, fulminado vi-a vi-
A EsCADA VERMELHA
ver num rapido minuto de aprovacao, de consolo, de tacita esperanca.
Mas a fotografia estacava na atitude procurada, deixava escapar a existencia humana
readquirida, ficava inerte, sorrindo.
E o turbilhao que o oprimia de sonho
desfazia-se, deixava-o num velho amargor de
velha desilusao.
Agora descia mais vezes a cidade.
Ia realizar os detalhes de uma cripta que
lhe fora encomendada pelo engenheiro Paulo Garcas, num grande escritorio do centro.
Mandaram-no ao Rio, afim de tirar reproducoes das igrejas coloniais. No corredor
do noturno uma mulher interessou-se por ele.
Na excitacao tropical, orgiaca, bebedos
um do outro, amanhieceram no largo apartamento do mesmo hotel.