A Estrella de Absyntho - Bloco 27 A Trilogia do Exílio · Capítulo 54 de 87
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A Estrella de Absyntho - Bloco 27

Sancti Fabiane et Sebastiane, ora pro

nobis!

-A vela, depressa!

Uim grande anjo extadtico entrara imperceptiveimente no quarto: era a irman enfermeira da noite. Jorge,estremunhadc e tragico,

agcendeu o cirio bento; collocou-o na mao escaldante e largada. No outro leito, as duas mulheres dormiam. A janella descerrara-se para

fora. E a agonizante teve apenas duas suffocacoes suaves -- e cessou de viver.

Jorge procurou, antioso, na penumbra,

achar ainda a sua Mary. Ela pariira, subtil

como quando entrava, matinal e viva, no atelier de Via Flamminia.

La fora, na noite, um gallo bateu as agas,

cantou.

Na madrugada de leite, a febre esvaira-se,

escoara·se num ultimo calor de veias mortas,

entre bencanis maternas, luzes vacillantes, silencios e solucos..

Jorge fora pelo corredor, numa placa de

neblina, ate o jardim, buscar-lhe as primeiras

flores. Depois, esperara que lavassem a estatua enrcgelada e nua - a sua ultima estatua.

E beijara obstinadamente a boeca material.

Agora, na sala de visitas eatrarha dos parentes, para ondc a tinham conduzido, Mary

dormia ao clarao dos cirios altos, no feretro

fofo de pau rico, com seu sorriso inmobilizado nos labios e um lyrio entre as maos.

Preso a um minuto de eternidade, num

desespero mudo de dentes rilhados, Jorge

d'Alvellos sacudia, com as garras das maos, a

cabeca de cabellos despenteados e enormes.

O esculptor fechou-se no seu quarto da

Avenida Sao Joao, durante dois dias e duas

noites, deitado ao leito de bronze fosco.

Os amigos vieram num interessc inquieto

visitsl-6, obrigal-6 a comer. Na terceira manha, como ele todo se transformara num ouvido unico que crescera, tomara conla do ser...

e escritava, escutava, saliu e tomou um trem

para Santos.

Passou o dia estirado em um quarto de

hotel. E a noite veiQ e foi... Ficou ate meio

dia na cama alva e desconhecida. Fazia um

calor de porto sul-americano. Levantou-se,

vestiu-se com difficuldade, tomou c trem de

duas lioras, de regresso.

No comeco da serra, chovia. Uma retardada fadiga cakiu sobre ele. Olhou pela janella do wagon: em baixo, entre aguas, viu uma

casa de tijolos com chamine e leu um letreiro

longo ate o fim.

Un mosquito trouxe-lhe uma ferroada ardida a mao.

Fitcu a serrania. Para la do valle aberto,

um tabtleiro gigantesco cavalgava o ceu de

bruma com a cohorte de seus milhoes de copas verdes.

E aycordou de repente afogado entre paredes negras, goftejantes, ameacadoras.

trem parara nun tunel... sabiria. Quantas

vezes a sua vida tambem estacara assim entre

muros fechados! O trem sahiria, vencendo em

curvas a ladeira imensa, na diregcao de horizonles desconhecidos..

Um guarda recebeu o bilhete. Tinha cessado a chuva: estava perto de Sao Paulo.

A cidade appareceu e enguliu u comboio

por um dos seus tentaculos pardos.

Encontrou duas cartas de Nova. Olympia

sobre a mesa. Era um novo chamado de tio

Anthero. Na outra a garrula fieira de nomes

cantava:

Maria Thereza

Annita

Jorge

Belkiss

Coro seriam seus priminhos? I.embravase de que as duas mais velhas haviam nascido antes delle partir para a Europa. Maria

Thercza devia ser uma moca. Annita tambem.

E esse Jorge que tinha o seu mesmo nome,

tradicional e tragico entre os d'Alvellos? E a

pequenina Belkiss que mandava sempre a assignatura borrada?

Ele nao era tao so! Tinha uina familia

que c chamava, que o queria... Uma ternura

ettranlia comoveu-o... Maria Thereza...

Annita. . Jorge... Belkiss..

Nao voltaria a Europa. Sentia-se inutilizado para a arte. Porque ficar em Sao Paulo,

na interrogacao dos scenarios vividos?

Os amigos iam conduzil-o, pela ultima

vez, ao atelier do Palacio das Industrias.

Seriam tres horas da tarde quando Carlos Byron e Bruro de Alfenas fizeram estacar

o auto, em frente ao grande sohrado de comodos dia Avenida Sao Joao.

Abracaram-no. Ele estava mais consolado e mais forte.

Sobre o leito de bronze fosco tinham fi-

cado dois livros, um de Huysmans, outro de

Andre Gide.

Bruno contou as ultimas aneddelas. E desceram, pondo os chapeus, pelo elevador.

Atravessando a cidade na tarde banal,

Jorge lcnbrou-se de que naquelle mesmo automovel fora a Santos, ao lado de Alma.

Mas repelliu o demonio que viera torturalo. Ele tinha agora uma serenidade de condemnado que se redime.

Haviam chegado. Recobria-se da ultima

argamassa a frente monumental do) Palacio.

Subiram pela escada florentina.Atravessaram salas... a porta do atelier estava aberta.

Fizerain Jorge passar. Mas ele nao reconhecia o vasto e limpo local onde soffrera tanto.

Tinha sido tudo transformado. De pe, esperando-o, estavam Torresvedras e Lino de Albuquerque. E haviam collocado flores nas estatuas como se fossem altares...

Contornando a claridade dasfiguras, trepando, cahindo em fios triumphaes, rubros

cachos de sangue, bocdas roxas e amarellas

entreabertas na folhagem rude do Brasil, inundavam de gloria a officina. Sobre o pedestal

do centro, voltada para ele que os amigos cercavam, a Vigtoria de marmore erguia alto as

duas maos. Tinha os seios minusculos, as ancas retesadas numa elegancia unida de linhas,

as coxas macias e direitas, as afas cakidas

para traz.

O artista sentiu uma perturbacao franzir

lhe a bodca. Lagrimas molharam-lhe os cilios. E pouco a pouco foi encontrando tudo o

que fizera, intacto, alli.

Carlos Byron. coihmovido e sorrindo, annunciou-lhe que a municipalidade de Sao

Paulo rcsolvera comprar-lhe o grupo da “Vinganca" para um jardim da cidade, c que estavam tratando de vender a “Descida" para

uma catledral.

quem? Os seus ainigos, os

Estavam...

que jhe tinham salvo a vida. E a terra para

que se formara nos anos laboriosos, reconhecia e pagava a sua obra!

Subitamente, tomou conta delle. um maravilhanento.

A uin canto, sobre uma prancheta, estava

ainda,fincado a pregos, um esqueleto de mascara..

Viu a esponja, procurou os baldes de

agua.

E foi buscar a greda bumida.

Cooriu a armacao duma bola confusa. E

serio. irnpenetravel, com os bracos de novo

desembaracados e ageis, fez os buracos dos

olhos, o nariz,afilado... Um riso de pequeno

satyro velou-se. Depois, atacou os cabellos,

afinou o pescoco, marcou as macans. E no

riso, na vida multiforme do barro, Mary Beatriz passou inteira.

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