Os Condemnados - Bloco 24
Alma, enfiada num turbante velho, ia atra da
Virgem apunhalada que quatro homens, de tugas
como juizes, erguiam sobre os lombros itnpavidcs.
E parecia-lhe que enterravam
alli,
gloriosa-
nrente afinal, o filhinho que ela trazia insepulto no
coracao.
Era o seu drama aquele, o drama obscuro de
Maria em Jerusalem, de que as gentes da terra,
numa conderynacao de remorsos, fixada num calendario implacavel, renovavam o angustiado mysterio por noites extaticas de lua.
Bum! Pa! Bum! Pa! Pa! Pa! Pa! Pa!
Os trombones gargalhavam nos desnaios do
pranto lutuoso.
E ela sentia, na cadencia das luzes e das opas,
ao som grave e cavo da matraca, que conduziam ali,
atrag della, o feretro desmesirado de Deus.
Mas o Senhor que aí vinha, gelado num caixao, era parecido com o' seu filho que os homens
haviam morto na cruz dos seirs bracos inuteis, dos
seus bracos inertes.
Bun! Pa!
Nossa Senhora nao fora como ela... No emtanto,
que haviam sido Magdalena e a Samaritana? E ela
era cono Nossa Senhora porque tinha experimentado, do coracao aos olhos, o gume das sete espadas! E sua crganca nao tivera, como o filho de Maria, senao o desprezo dos diabos felizes da terra.
Maria decerto andara assim, como elya, ano-
nfma, pisada, na multidao que seguia o charivari
da cruz, na cidade negra de Jerusalem.
'Trec-Trec-Trec-Trec!
Maria, porén, fora vendo de longe o filho
doloroso, o filho santo. E ela nao podia niais ver,
nunca mais, o ser affegtivo que lhe sahira das entranhas.
Num calmo tropel, a procissao desmembrava-se
para penetrar na egreja grande e adcesa do Iargo.
Afastaram-na do centro, junto com beatas e
homens do povo, para deixar passar, aos solavancos,
na gloria funeraria dos trombones, o filho ensanguentado de Maria.
Aquela manha veio, numa sedugcao de luzes,
atcordar a casa baixa.
Ela vestira-se, sakira sem destino, longe, pela
cidade.
Fizera Hygienopolis a pe. Queria voltar. E
nem um bonde apparecia no fim dos trilhos de aco.
E o silencio doirava a hora azul.
A avenida aristocratica dormia ainda nas residencias defendidas e mudas entre arvores.
E todo o seu ser parara numa concentracaio
irresistivel de myriades de musculos animicos.
Entao, para o silencio das altas nuvens, partiu uma escala de piano, vibrada invisivelmente de
dentro de uma vivenda quieta.
O silencio propositado de tudo, das arvores e
das sombras, acolhera as notas numa resonancia
cxtatica.
Ela estava de negro, como um corvo, e o sol
qlleimava-a.
E, de novo, a escala insistiu as sete notas, batidas por maos de creanca, regulares, qguaes.
Eya pensou que, no fim, quando tudo se acabasse, esse momento de tristeza augusta falaria.
a vista das
As lagrimas desciam silenciosas
roupinhas empilhadas, na gaveta que D. Genoveva
lhe dera.
Quando outra mae, feliz, descuidosa, passava
TRILOGIA DO EXfLIO
com a sua crcanca viva, tinha um choque no coracao.
E nas horas do recomecado trabalho, na sala
escura, onde com ele
brincara tanto, vinha-lhe a
cabeca flammejante, uma pena iyhmensa e quieta.
Aos domingos, partia cedo de bonde, levando
lios de margaridas brancas e saudades, compradas
na feira da vespera. E achava uma injustica
ele
estar alli,
, debaixo da terra, do cemiterio suburbano,
ao canto lithurgico das arvores, emquanto os outros
meninos corriam e brincavam ao claro sol.
Soube, num cinema, que Mauro Glade estava
preso.
CS CONDEYNADOS
Com os cabellos corridos, a cabeca martyrigada para o altc, Joao do Carmo transmiltia telegrahmas. Mais de um ayno se tinha passado sobre a
sua derrota. E elYe amava-a sempre.
No inicio, a mao gelada de um grande tcrpor
tocara tudo, emmudecera tuido. As suas agcoes automaticas passaram a reflegtir um desvio que ele
controlava com pena.
Rondou, durante meses, o bungalow das Perdizes. A casa permanecia sempre escura. Como se
n?o fosse para vetb, ia pcstar-se demoradamente
a uma esquina. Numa imobilidade de espirito e de
gestos, prelentia-a as vezes num chegar ruidoso de
automovel.
O coracao afinal nao se lhe apertou tanto como
antes. Mas, en torno delye, tudo morrera pouco a
pouco, ou se envenenara ou se trocara. Era l:1
cemiterio, o bairro, o clube aquatico e o emprego,
com os seres inexpressivos, inexistentes que lhe
falavam.
Os dias vinham as vezes. paMidos, encontral-o
chorando de olhos salsos.
Voltava espacadamente a nadar no rio.
E sabia de tudo — o regresso de Mauro, a
briga irritada do engenheiro, a morte imprevista de
Luquinhas.
Dez vezes, quisera offertar-se, correr, erguep.
Um obstinado plano de salvamento formara-se-lhe
no intimo, vivia-lhe no coracao.
A tarde baixara sobre a cidade um incoyimensuravel ogcaso preto. E ele pensou definitivamente
em emprestar o revolver policial de Dagoberto
Lessa.
Chamaram-no ao telephone. A voz angustiada
de Frederico Carlos Lobao esganicou-se.